

    Inocncia Marcada
    At his Side
    Roxanne Countryman



    Amrica do Norte, 1856
    Ela precisava de proteo... Ele precisava de amor!
    Depois de passar anos trabalhando numa profisso arriscada, Ken Caulder finalmente retornou ao rancho de sua famlia, decidido a levar uma vida sem sobressaltos.
Mas seus planos de paz e tranquilidade foram abalados quando seu pai o convenceu a ajudar a linda jovem que morava no rancho vizinho a proteger-se contra um inimigo
que pretendia se apossar das terras que o pai dela havia deixado. Habituado a enfrentar situaes de perigo, Ken era o homem certo para assumir a incumbncia de 
proteger a solitria e indefesa Shelby Raines. Porm, Ken precisaria de muito mais que habilidade, argcia e experincia quando chegasse o momento de proteger seu 
prprio corao do irresistvel feitio daquela jovem encantadora e inocente...
    
    
    Doao: Naiad
    Digitalizao: Joyce
    Reviso: Lorelei
    
    
    
    
    Copyright (c) 1999 by Roxanne Countryman 
    Originalmente publicado em 1999 
    pela Kensington Publishing Corp.
    TTULO ORIGINAL: At his Side
    
    
    
   Captulo I
    
    Texas, 1856
    
    Shelby sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Suas mos comearam a tremer ao ouvir o rudo das patas de um cavalo sobre o cho poeirento do lado de fora 
da cabana. De repente, o medo aliou-se a um sentimento de raiva. O que ele estaria fazendo to cedo em casa?
    
    Tentou ignorar a intranquilidade que a importunava. Apressada, empilhou grossas fatias de po em um prato.
    
    - Papai, chegou cedo - disse, num tom firme, no querendo lhe dar a satisfao de ouvir o medo em sua voz. Movendo-se ao redor da pequena cozinha, enxugou o 
filete de suor que lhe escorria pelas sobrancelhas. - V se lavar, que eu porei a mesa.
    
    Uma brisa fraca agitou o seco calor do Texas atravs da porta aberta, fazendo-a sentir um arrepio na nuca. O cheiro azedo de odor corporal inundou o ambiente. 
Shelby enrijeceu. Um n apertou-lhe a boca do estmago. Nesse instante, uma voz, que parecia vinda das profundezas do inferno, sussurrou-lhe junto ao ouvido:
    
    - Sinto muito, meu bem. No sou seu papai.
    
    Gritando, Shelby fugiu em pnico para longe do cheiro de usque e tabaco que a respirao do intruso exalava. Em um frenesi aterrorizado, largou os pratos, que 
se espatifaram no cho, ignorando o caldo quente do guisado que a queimou atravs do tecido fino da saia.
    
    Com um baque duro, bateu de encontro  parede. O terror se instalou em seu ntimo, queimando-a at os ossos como cido escaldante. Estava acuada e vulnervel 
em um canto, sem poder fugir para parte alguma.
    
    Jatos de adrenalina corriam em suas veias, como se aguardasse, em um tormento silencioso, o prximo movimento.
    
    - No vim aqui para machuc-la - trovejou a voz estridente. - Apenas faa o que eu mandar.
    
    O som de vidro estilhaado ressoou sob as botas do estranho, enquanto o ouvia caminhar em sua direo. Quando uma mo calejada a segurou pelo brao, Shelby saltou, 
sobressaltada.
    
    - Fique longe de mim! - gritou com uma raiva sbita, tentando se livrar.
    
    Os dedos fortes apertaram sua carne tenra com mais fora.
    
    - No lute, mocinha! A menos que deseje que eu destrua esta sua carinha bonita.
    
    Shelby sentiu o estmago se contorcer dolorosamente. Pela primeira vez em seus dezoito anos de vida, desejou que o pai chegasse mais cedo em casa. Preferia ouvir 
as broncas costumeiras a ficar  merc do sofrimento que aquele homem poderia lhe impingir.
    
    Estremeceu ao ser puxada e empurrada com mpeto sobre o caos que recobria o cho. O aroma do guisado entornado misturou-se ao odor repugnante que aquele homem 
exalava.
    
    A ponta fria da lmina de uma faca pressionada sobre seu ombro a fez tropear. Tensa e desequilibrada, fez uma careta quando seus joelhos bateram de encontro 
 extremidade da velha mesa de madeira, a nica coisa que a impediu de cair. Sentindo o brao dolorido, Shelby cambaleou ao redor, derrubando uma cadeira. Ento, 
piscou vrias vezes, tentando conter as lgrimas e dizendo a si mesma para se manter calma e alerta. Jamais permitira que seu pai a visse chorar e no daria esse 
gosto quele completo estranho.
    
    Com os braos cruzados ao redor da cintura, tentou em vo conter os tremores que lhe assaltavam o corpo. Precisava pensar! Tinha que fazer algo.
    
    - Papai e seus ajudantes chegaro a qualquer momento. - A mentira saiu facilmente dos lbios dela. O fato era que Ed Raines no dispunha de ajudantes. Trabalhava 
em seu rancho sozinho.
    
    - Sente-se! - ordenou a voz num tom rspido, afastando-se logo em seguida.
    
    Uma onda de alvio a invadiu, enquanto alcanava a perna de uma cadeira com o dedo do p e a puxava para trs de si. Sentando-se devagar, dobrou as mos trmulas 
sobre o colo.
    
    - Papai e seus homens ficaro furiosos.
    
    O estrondo da porta da frente se fechando estremeceu o recinto.
    
    - No minta para mim! - A voz era seca e fria. - Pensa que sou idiota?
    
    - No, claro que no. No estou mentindo. Logo eles estaro de volta. - Shelby podia sentir a impacincia do invasor e tentou impor um tom de desafio na voz. 
-  melhor partir, antes que eles o encontrem aqui.
    
    Em uma frao de segundo, sua cabea foi puxada para trs com violncia.
    
    - Estou cansado das suas mentiras!
    
    - Estou falando a verdade!
    
    - Acha que eu viria at aqui sem antes me inteirar da situao? Sei a que horas seu pai sai pela manh e quando volta  noite. - Ele se inclinou e apertou-lhe 
a mandbula com brusquido. - Portanto no fique me falando sobre ajudantes que no existem.
    
    Tentar levar um pouco de ar fresco at os pulmes mostrou-se impossvel. O mau cheiro daquele ser repulsivo em suas narinas a impedia de respirar e a repugnava.
    
    - Voc tem nos espionado? - Lgrimas deslizaram dos olhos dela em resposta  dor que sentia na mandbula. - Por qu? O que quer de ns? - O homem a libertou 
abruptamente com um empurro e se afastou.
    
    - Ento, ele est usando o nome Ed Raines agora? 
    
    Shelby estremeceu e sua voz saiu num sussurro sufocado.
    
    - Sim, papai se chama Ed Raines.
    
    O som de uma cadeira sendo arrastada pelo cho em sua direo a assustou. O estranho sentou-se  sua frente.
    
    - Vou ficar mais confortvel enquanto espero. - Ele suspirou. - Eu e seu pai temos negcios a tratar.
    
    Uma nova onda de terror assolou Shelby, fazendo-a sentir um aperto no estmago. Com o temperamento agressivo do pai, poderia acontecer uma tragdia. Ele no 
se preocuparia em coloc-los em perigo. Para Ed Raines, no importava que sua nica filha fosse cega e cometesse erros. E, para piorar a situao, ali estava aquele 
estranho  vontade na casa deles.
    
    Shelby sentiu o calor do olhar dele no silncio enervante e desejou saber o que aquele homem estaria pensando.
    
    - O que h de errado com voc? - perguntou o sujeito.
    
    - No sei do que est falando.
    
    -Voc  uma dessas cadelas arrogantes que gostam de encarar as pessoas? - rosnou ele.
    
    Shelby deu uma risada sufocada.
    
    - No estou olhando para voc. Nem ao menos posso v-lo.
    
    - Do que est falando, droga? Voc  cega?
    
    - Sim.
    
    Um silncio incmodo se instalou no recinto, deixando-a mais amedrontada do que a voz dele. Os nicos sons que ouvia eram as batidas do prprio corao e a respirao 
acelerada. Pelo menos, enquanto o homem falava, ela sabia o que ele estava pensando. Por fim, incapaz de suportar por mais tempo aquela quietude sufocante, decidiu 
que a melhor defesa seria mant-lo falando. Tentando soar o mais tranquila possvel, disse:
    
    - Voc no falou o que quer de ns.
    
    Um suspiro aborrecido veio do sujeito sentado  sua frente.
    
    - No pode ficar de boca calada?
    
    Uma onda de medo percorreu-lhe a espinha. Sabia que algo horrvel estava para acontecer, caso contrrio ele no ficaria esperando pelo pai dela. Se quisesse 
roub-los, poderia ter feito isso e partido.
    
    Shelby enrijeceu. Agora era tarde demais. Podia ouvir o som do trotar de um cavalo se aproximando. Apenas alguns segundos antes do estranho ouvir tambm.
    
    Ele ergueu a arma e a encostou na orelha dela, fazendo-a estremecer.
    
    - No faa barulho.
    
    Concentrando-se atentamente na chegada do pai, Shelby no ouviu para onde o estranho foi. Como poderia advertir o pai do perigo iminente?
    
    O rangido sombrio e ressonante de saltos de botas na varanda pareceu trovejar nos ouvidos dela. De repente, a porta se abriu e Shelby pde sentir o olhar do 
pai fixo nela. Houve um momento de silncio, antes da voz masculina reverberar no recinto:
    
    - O que est havendo aqui? Por que est sentada em vez de estar limpando toda esta baguna? - Houve uma breve hesitao antes de ele continuar. - O que aconteceu 
a voc?
    
    A porta se fechou com um estrondo. Shelby vacilou, mas antes que pudesse responder, ouviu a voz sinistra do estranho vinda da direo da porta do quarto dela.
    
    - Ora, ora, se no  Jack Browning. H quanto tempo, Jack!
    
    - Dutch?
    
    - Aposto que pensou que nunca mais me veria.
    
    - Como conseguiu me encontrar?
    
    Shelby foi pega de surpresa ao ouvir o choque e o horror no tom de voz do pai. Aquele estranho o chamava de Jack Browning, e ele no negava isso.
    
    - Papai...
    
    - Cale-se, menina - disse Ed.
    
    O engatilhar da espingarda de Dutch ecoou pela sala.
    
    - Parece que sua filha no sabe quem voc  de verdade.
    
    - Esquea-a. O que voc quer?
    
    - Voc se deu bem - disse Dutch com uma ponta de amargura. Caminhou ao redor da mesa e parou atrs de Shelby. - Seu papai  o meu velho scio, Jack.
    
    Ela ofegou e se dirigiu ao pai:
    
    - Papai, diga que isso no  verdade.
    
    - Como me encontrou? - perguntou Ed Raines, ignorando a filha.
    
    Dutch riu.
    
    - No foi fcil. Consegui um emprego aqui, e imagine a minha surpresa quando descobri que fui contratado para matar o mesmo homem que eu mataria at de graa.
    
    - Algum o contratou para me matar?
    
    - Primeiro, quero os cinco mil dlares que voc me roubou. 
    
    Quem contrataria aquele homem para matar o pai dela e por qu?, pensou Shelby, alarmada. Ele teria de fato roubado os cinco mil dlares de Dutch? Como desejava 
poder enxergar a verdade na face do pai. Nada na vida a assustara mais do que as palavras daquele homem.
    
    - Teria coragem de me matar? - Ed riu nervosamente. - Afinal, fomos amigos durante muitos anos.  claro que devolverei o dinheiro, se  isso que voc quer.
    
    O pai estava blefando, Shelby podia sentir na voz dele. Onde conseguiria cinco mil dlares?
    
    Depois de alguns segundos, uma exploso capaz de gelar o sangue vibrou em seus ouvidos. Ela gritou e se atirou no cho, escondendo-se sob a mesa. Ento, prendeu 
a respirao e tentou conter as batidas aceleradas do corao. Queria ouvir algo, qualquer coisa que a fizesse saber o que estava acontecendo.
    
    - Devia ter pensado melhor, antes de me passar a perna, Jack. Sempre fui melhor do que voc - disse Dutch.
    
    Oh, Deus! Shelby apertou o punho dolorosamente de encontro  boca at sentir os dentes se enterrarem na carne. Agarrando-se  perna da mesa, esperou a qualquer 
momento ser puxada de seu esconderijo.
    
    Como se pudesse ler os pensamentos dela, Dutch abaixou-se e sussurrou sob a extremidade da mesa:
    
    - No costumo matar mulheres, a menos que tenha um motivo para tal. Voc tem sorte de ser cega, moa.
    
    Shelby permaneceu imvel, tremendo de medo, vrios minutos aps ouvir Dutch partir. O tique-taque solitrio do relgio parecia mais alto a cada minuto que passava. 
Era como se tivessem se passado horas, antes de ela voltar a raciocinar com clareza. Com um soluo desesperado, tateou ao longo do piso, procurando o corpo do pai. 
Ao ach-lo, correu os dedos pelo trax dele. Algo pegajoso e morno a fez estacar. Um odor de cobre pairava ao redor. Sangue! Lutando para conter as lgrimas, continuou 
deslizando as mos at o ao frio do cano da arma dele esbarrar em seus dedos.
    
    - She... Shelby? - A voz era fraca e cheia de angstia.
    
    - Papai! Oh, papai, ainda bem que est vivo.
    
    - No por muito tempo.
    
    - O que posso fazer para ajud-lo? - Ela deixou que as lgrimas corressem livres, enquanto as palavras saam entre soluos.
    
    - Escute-me. - A voz estava ficando cada vez mais e mais fraca, e Shelby teve de se inclinar para ouvi-lo. - Sinto muito. Eu s queria que voc fosse uma mulher 
forte. - Ed tentou encher os pulmes de ar. - Nunca quis lhe fazer nenhum mal. Eu a amo, menina.
    
    - Oh, papai, no fale. Economize suas foras.
    
    - No! Preciso dizer isso. No conte nada sobre mim. Mantenha o meu segredo.
    
    - Eu no contarei, prometo.
    
    - Este rancho agora  seu. No deixe ningum tom-lo de voc.
    
    - No deixaremos ningum tom-lo de ns, papai. Vai ficar bom, voc ver. - Ela no se incomodava comas lgrimas que lhe escorriam em abundncia pela face. - 
Agora podemos ser uma famlia de verdade. Eu o amo, papai. - Enquanto proferia aquelas palavras, Shelby percebeu o quanto eram verdadeiras.
    
    - Eu sei, menina. Tome cuidado com Dutch. Ele vai voltar. Eu... sinto...
    
    - Papai? - sussurrou ela. - Papai? No morra agora. - Aquilo no podia estar acontecendo. Justo quando ele lhe confessara que a amava.                       
    
    Com o corao apertado e a arma do pai presa  cintura, Shelby atravessou a sala.
    
    Se os mtodos dele eram certos ou errados, sabia agora que o intuito de Ed Raines era fazer dela uma mulher forte. Durante todos aqueles anos pensara que o pai 
a odiava por ter nascido cega e mulher em vez do filho que por certo ele sempre quisera ter.
    
    E agora tudo ficara claro. Ed a amava tanto que faria qualquer coisa para proteg-la. At mesmo manter-se frio e distante.
    
    Quando era criana, o pai a forava a fazer as tarefas de casa e cuidar de si mesma. Nunca brincara no adro da igreja com as outras crianas. Mas Shelby conseguia 
distrair-se em meio aos seus afazeres. Como, por exemplo, contar quantos pedaos de madeira colocaria na lareira, dar nome s galinhas. Sua maior alegria tinha sido 
quando Ed lhe fizera um balano em uma das macieiras.
    
    Quando o vento soprava pelos seus cabelos e face, sentia-se livre e selvagem. Mas quando crescera o bastante para assumir mais responsabilidades, o balano se 
fora.
    
    Se a me no tivesse morrido aps o nascimento dela, as coisas poderiam ter sido bem diferentes para Shelby e o pai.
    
    Sem a orientao forte e rgida de Ed, jamais teria sobrevivido aos sofrimentos que a vida lhe impusera. Ele sabia que um dia a filha ficaria s no mundo e  
sua maneira tosca a preparara para esse dia. Ao longo dos anos, ela aprendera a lidar com as tarefas domsticas, como cozinhar, passar, limpar, mas o rebanho era 
outra questo. Sem ajuda com o gado, poderia perder o rancho. E se algum descobrisse sobre o passado de Ed, tudo estaria perdido.
    
    - Manterei seu segredo, papai. Ningum saber quem voc era realmente. - Engoliu um soluo. - No perderei o rancho, eu prometo.
    
    O calor pairava pesado no ar imvel. Um silncio opressivo comprimia-lhe os nervos esfarrapados. Shelby sentia a histeria afluir-lhe  pele. Comeando com soluos 
discretos, at se transformar em um grito alto e poderoso que explodiu de seus pulmes.
    
    L fora, no calor do deserto, um iguana aprumou a cabea. Um pssaro assustado saiu do poleiro e alou vo. Um lobo solitrio uniu sua voz  dela, que ecoou 
pela terra estril.
    
    Ken Caulder cavalgava relaxado sobre a sela do cavalo. Pela primeira vez em anos experimentava uma maravilhosa sensao de paz. Finalmente estava em casa, trabalhando 
ao lado do pai. No fim do dia voltaria para a famlia, onde desfrutaria uma deliciosa refeio e descansaria o corpo cansado em uma cama limpa e aconchegante. Era 
a vida com a qual sonhara durante muito tempo. Nada mais de misses secretas, nada de dormir no cho frio e encarar as estrelas, desejando estar ao lado de seus 
entes queridos.
    
    Agora, aps tantos anos, estava ali. No haveria mais comida fria de acampamento, refeies de restaurante com gosto de serragem ou quartos sujos de hotel. Nunca 
lamentaria o tempo que passara com os soldados na floresta. Na realidade, desejou saber se no sentiria falta dos dias em que saa  caa de perigosos bandidos. 
Duvidou que iria sentir.
    
    A nica preocupao que o afligia no momento era o perigo que sua famlia corria se algum dos sujeitos que ele ajudara a prender descobrisse sua verdadeira identidade. 
E como agente secreto, enviara muitos desses marginais  priso. Mas nunca usara seu nome de batismo nessas misses, assim, com sorte, ningum o encontraria, e ele 
poderia se estabelecer, ajudando o pai a administrar o rancho, e todos ficariam bem.
    
    Olhando para o pai, desejou poder lhe contar o que se passara nos ltimos dez anos de sua vida e sobre seu trabalho junto aos soldados do Texas. Mas isso era 
impossvel. Conhecia bem seus pais. Ficariam to orgulhosos que poderiam cometer algum deslize.
    
    Ken sorveu um gole de gua do cantil, deixando o lquido escorrer pelo pescoo, umedecendo-lhe a camisa.
    
    De repente, um grito estridente cortou o ar abafado.
    
    Enrijecendo o corpo sobre a sela, de imediato ele ficou em alerta. A mo procurou a arma no coldre.
    
    - Vem da casa de Ed - disse Bill, apontando para a frente e se pondo em marcha.
    
    Enterrando os calcanhares nos flancos da sua montaria, Ken ultrapassou o cavalo mais lento do pai e seguiu na direo apontada.
    
    Aps transpor uma pequena elevao, a primeira coisa que notou foi a quietude que cercava a propriedade. Nenhum movimento ou som vinha da casa ou das adjacncias.
    
    Reduziu a marcha do cavalo, rumou para a cabana, orientando Bill a ficar atrs dele, enquanto pegava um revlver. Ento, deslizou da sela, desceu do cavalo e 
esperou alguns momentos antes de sinalizar para o pai se aproximar.
    
    - Est vendo alguma coisa? - perguntou Bill.
    
    Ken esquadrinhou ao redor do ptio e ento voltou-se para a porta aberta.
    
    - Nada. - Piscou para adquirir uma viso melhor do interior. - Contorne a cabana e venha pelo outro lado - disse em voz baixa, observando Bill mancar at desaparecer 
ao longo da parede lateral da casa. Depois, sorrateiramente, Ken alcanou a varanda e esgueirou-se at o lado direito da porta. Quando Bill ressurgiu, ele acenou 
com a cabea e entrou na sala.
    
    Recostando-se contra a parede interior, esperou at seus olhos se acostumarem  obscuridade. Ento, pde ver o corpo de Ed estendido em meio a uma poa de sangue. 
Os olhos vidrados e sem vida miravam o teto.
    
    Um movimento  esquerda chamou-lhe a ateno. De imediato engatilhou a arma e apontou. Shelby! Com um suspiro de alvio, ele colocou o revlver de volta no coldre. 
Apoiando-se no batente da porta, acenou para o pai entrar, depois caminhou em direo  jovem amedrontada. De repente, os braos dela se ergueram, apontando um revlver 
diretamente para a parte de sua anatomia que lhe garantia formar uma famlia no futuro.
    
    - No se aproxime ou eu atiro. - Embora a voz fosse trmula, possua um tom mortal.
    
    Ken estacou, receoso pelo modo como as mos de Shelby tremiam. A arma poderia disparar acidentalmente e deix-lo s com a imaginao de ter uma companheira na 
velhice.
    
    - Shelby! - chamou Bill.
    
    Ele ouviu o pai se aproximar e ficar a seu lado, mas no ousou tirar os olhos de Shelby.
    
    - Shelby, querida, sou eu, Bill. Ken est comigo.
    
    Ken deixou escapar um suspiro de alvio, enquanto ela abaixava a arma lentamente e apoiava as costas na parede.
    
    - Bill?
    
    - Sim, meu bem, sou eu.
    
    Ken observou-a tatear com a mo erguida at encontrar Bill, que se ajoelhou ao lado dela. Com um lamento suave, Shelby se agarrou ao pescoo do pai dele.
    
    - O que aconteceu aqui? Quem fez isso? - perguntou Ken, ajoelhando-se ao lado do corpo de Ed.
    
    - Ele atirou no papai.
    
    - Quem atirou nele? - indagou Bill, afastando-a com suavidade.
    
    Shelby enxugou as lgrimas da face com o dorso da mo.
    
    - No sei quem era. Ele queria dinheiro, e papai no tinha. 
    
    Ken ergueu-se, ouvindo atentamente o que ela dizia a Bill.
    
    Esquadrinhou a sala  procura de pistas que o assassino pudesse ter deixado. O lugar estava uma baguna. Havia uma cadeira tombada sobre restos de comida.
    
    - Era apenas um? - perguntou.
    
    - Sim, ele ficou esperando papai chegar em casa.
    
    - Ele a feriu! - indagou Bill afagando-lhe o rosto.
    
    - Eu estou bem.
    
    Ken caminhou pela casa e entrou no primeiro quarto que viu. Havia roupas de homem penduradas em uma cavilha na parede. Seu olhar vagueou pelo cmodo. Era estranho 
que um ladro no procurasse objetos valiosos no quarto. Quando olhou para a cmoda, estacou. Aproximou-se devagar. Sobre o topo de madeira, havia uma quantidade 
razovel de dinheiro. Apanhou as cdulas e as contou. Mais de cem dlares. Uma pequena fortuna no Texas. Por que o assassino no levara o dinheiro?
    
    Olhando atravs da porta para onde Shelby e o pai se encontravam, mordeu o lbio inferior, um velho hbito seu, quando investigava a cena de um crime. Escondeu 
o dinheiro depressa nas dobras de uma camiseta na primeira gaveta. No havia necessidade de iniciar um novo interrogatrio. Recolocaria o dinheiro no lugar depois 
que o xerife inspecionasse o local e iniciasse sua prpria investigao.
    
    Ken desejou que Shelby no estivesse envolta em sombras, assim poderia ver o rosto dela. Suas respostas foram bem vagas. Meneando a cabea, ele se virou. Bem, 
aquilo no era da sua conta. Agora era um trabalho para o xerife. No era mais investigador. Deixou o quarto, dirigiu-se  sala e anunciou:
    
    - Vou at a cidade chamar o xerife.
    
    - Traga o dr. Grant, tambm. Quero que ele examine estes cortes e contuses - disse Bill, sem se afastar do lado de Shelby. - Querida, vou lhe preparar um banho 
antes que eles cheguem aqui.
    
    Ela assentiu com a cabea, esfregando as mos sujas de sangue na parte da frente do vestido. Cedendo  insistncia de Bill, ergueu-se e permitiu que ele a conduzisse 
at a cadeira de balano perto da lareira.  luz do fogo, Ken viu a contuso que surgia em meio aos vastos fios de cabelos loiros que emolduravam a face feminina.
    
    Por alguma razo que no pde explicar, Ken tinha o corao apertado e, percebeu desgostoso, sentia um desejo inexplicvel de proteg-la.
    
    - Santo Deus, papai! No farei isso.
    
    As palavras de Ken foram ditas em tom de desafio. Percebeu uma veia latejar no pescoo do pai. No queria deixar Bill irritado, mas, droga, durante dois anos 
tentara voltar para casa, desde o acidente. Por fim, depois de meses estabelecendo os contatos certos, conseguira se ver livre e retornar ao convvio da famlia.
    
    Os pais precisavam dele. Caulderwood precisava dele. As trs semanas que passara em casa, observara a luta silenciosa do pai, aflito para fazer o trabalho que 
antes executava sem esforo algum. Desde que Bill cara do lombo daquele cavalo selvagem, as mais simples tarefas eram dolorosas.
    
    Cruzando os braos e se apoiando de encontro  pedra fria da lareira, estudou a face cansada do velho rancheiro. Era como se pudesse ver sua prpria imagem refletida 
vinte anos mais tarde.
    
    Os cabelos castanho-escuros de Ken no eram grisalhos, mas possuam a mesma abundncia dos de Bill e o mesmo redemoinho sobre a sobrancelha. Tambm tinha os 
olhos escuros e o queixo anguloso como os do pai. A constituio alta de Bill ainda era firme e vigorosa, do mesmo modo como se lembrava dele, quando era apenas 
um menino.
    
    Ken passou a mo pelos cabelos com uma expresso frustrada.
    
    - E quem vai ajud-lo aqui em Caulderwood?
    
    - Durante trinta anos venho cuidando deste rancho sozinho. No vejo nenhum motivo para no continuar fazendo isso. - O homem sentou-se em frente ao filho e encolheu 
os ombros. - Sei que  exigir muito de voc, mas Ed Raines era um bom amigo e vizinho. Prometi, anos atrs, que se algo lhe acontecesse, tomaria providncias para 
que Shelby no ficasse desamparada.
    
    Ken sentou-se na cadeira de balano e deixou escapar um suspiro exasperado.
    
    - No sei cuidar de meninas. No sei do que elas gostam.
    
    -  Shelby  uma mulher e pode tomar conta de si mesma. Quero que a ajude com o rancho.
    
    - E Jim, ele no pode fazer isso para voc? Afinal de contas, a promessa  sua, no minha. - Alm do mais, pensou ele, lembrando-se do dinheiro que encontrara 
sobre a cmoda, havia mais fatos naquela histria do que qualquer um deles podia imaginar. E no estava nem um pouco disposto a se meter nisso. Mas por que resolvera 
proteger Shelby escondendo o dinheiro?
    
    - Jim  meu capataz, preciso dele aqui. A promessa era cuidar de Shelby e mant-la em segurana. Eu no disse que faria isso pessoalmente. - As sobrancelhas 
de Bill se fecharam em uma carranca. - Por que no quer ajudar a pobre moa? Por que ela  cega? - O tom de voz era de acusao.
    
    - O fato de ser cega no tem nada a ver com isso. - Por dois longos anos a culpa o consumira por no estar ali quando o pai mais precisara dele. - Voltei para 
administrar o nosso rancho. Qualquer um pode ver que  difcil para voc realizar o trabalho que precisa ser feito por aqui.
    
    Bill reclinou-se para trs na cadeira.
    
    - Quero que voc ajude Shelby, e no um estranho qualquer. Ken encarou o pai bem dentro dos olhos.
    
    - Admita que a sua perna est piorando, papai.
    
    - Se est to preocupado comigo, por que no pensou nisso anos atrs? Se no pde confiar em mim e na sua me, contando-nos sobre o seu paradeiro, ento por 
que eu deveria confiar este rancho a voc?
    
    - Isso soa um pouco contraditrio, no acha? Confia em mim para administrar o rancho de Shelby, mas no o nosso?
    
    - Eu disse que confiava em voc? Disse que no queria um estranho tirando proveito de Shelby. Voc  meu filho e tenho certeza de que no faria isso.
    
    Ento, aquilo era um teste. Bill queria descobrir se podia confiar no prprio filho. Aquele pensamento irritou Ken. Bem, se era uma prova que o pai desejava, 
ele a teria.
    
    - Est bem. Voc ganhou. - Com essas palavras, ergueu-se da cadeira e caminhou at a janela aberta, deixando a brisa esfriar-lhe os pensamentos. - Por quanto 
tempo? - Um silncio pesado se instalou no recinto, enquanto Ken esperava pela resposta. Impaciente, enfiou as mos nos bolsos, virou-se e fitou o pai. - Por quanto 
tempo? Uma semana? Duas semanas? Um ms? Um ano? Quanto tempo levar at ficar satisfeito?
    
    Bill levantou-se e encarou o filho.
    
    - Voc era um rapaz egosta que partiu daqui, no querendo nada com o trabalho no rancho. - O velho homem mancou at a escrivaninha e descansou as mos sobre 
a superfcie arranhada. - Sumiu por dez anos. Voltou sem dar a menor explicao de onde esteve e o que fez durante todo esse tempo. Agora diz que  capaz de conduzir 
o rancho do qual voc fugiu. - Sentou-se em uma cadeira, apoiou os cotovelos no topo do mvel e descansou o queixo sobre os dedos entrelaados. - Perguntou quanto 
tempo levar at eu me sentir satisfeito? No posso lhe responder. Nem ao menos sei se voc tem aptido para o trabalho rural.
    
    Fugindo de Caulderwood? Ento era isso que o pai pensava que ele fizera? Droga, amava aquele rancho e nunca desejara viver em qualquer outro lugar. Frustrado, 
Ken resignou-se com o fato de que teria de se mudar para o Rancho Raines.
    
    Jamais pensou que voltar para casa fosse to complicado, mas sabia que se no ajudasse Shelby, Bill tentaria gerir os dois ranchos sozinho.
    
    - Tudo bem. Ajudarei a moa. - O tom de voz soou determinado. - Eu lhe provarei que no sou a pessoa que parece pensar que sou.
    
    Com uma cesta de ovos em uma das mos e uma bacia de rao na outra, Shelby esgueirou-se ao longo da parede do celeiro. Sarah quis ajud-la com as tarefas, mas 
ela sabia que se pretendesse tocar o rancho, teria de provar a todos que era capaz de administr-lo. Alm do mais, manter a mente ocupada a ajudaria a afastar as 
lembranas dolorosas do pai.
    
    Mas isso era uma tarefa quase impossvel. Tudo a fazia lembrar de Ed Raines. Em todos os lugares havia a evidncia do amor que ele lhe dedicara e que ela nunca 
tivera tempo para perceber. Durante todos aqueles anos achava que o pai no a amava, embora a prova de seu afeto estivesse por toda a parte no rancho.
    
    Uma onda de pesar a invadiu, e Shelby procurou conter as lgrimas que ameaavam rolar. Era triste s ficar sabendo do carinho e pacincia do pai para torn-la 
uma mulher independente, aps a morte dele. Mas essa independncia a ajudaria agora? Administrar um rancho era um trabalho rduo para um homem, quanto mais para 
uma mulher cega. Desde que passara a cuidar das tarefas domsticas e dos animais no celeiro, no sentia nenhuma dificuldade em executar tais incumbncias. Mas o 
gado era uma histria bem diferente. Teria de contratar algum para ajud-la. Algum em quem pudesse confiar e que estivesse disposto a trabalhar para ela.
    
    Ao entrar no celeiro, ouviu o som de cavalos se aproximando. Em pnico, tateou no escuro e se agachou atrs de uma pilha de feno. Ficaria escondida at saber 
quem estava chegando. Ento pensou em Sarah. E se fosse Dutch que voltara, como o pai havia lhe dito? Precisava adverti-la. Mas Sarah sabia usar a arma que estava 
na casa. Ficariam bem.
    
    Depois de alguns minutos, os cavalos ultrapassaram o ptio e diminuram a marcha. Sem esperar mais tempo, Shelby correu para a casa, ainda segurando a cesta 
de ovos, e gritou:
    
    -  Sarah, voc est bem?
    
    - Sarah no est aqui.
    
    Com um grito de pavor, ela derrubou os ovos e virou-se para fugir. Mas nesse instante uma certa mo forte segurou-a pelo cotovelo, impedindo-a de se movimentar.
    
    - Shelby! Sou eu, Ken.
    
    Levou alguns segundos at que as palavras transpusessem seu medo. Era Ken. Respirando aliviada, libertou-se do brao que a segurava. A voz grave e familiar lhe 
transmitiu um certo conforto, contudo no conseguiu lhe acalmar a pulsao acelerada. O corao batia em descompasso, rugindo como trovo em seus ouvidos. Vrios 
minutos se passaram, antes que pudesse se acalmar e falar.
    
    - Ken? O que est fazendo aqui? Onde est Sarah?
    
    - Teve que partir. A esposa de Jim entrou em trabalho de parto e precisou da mame para ajud-la com o nascimento.
    
    Estendendo uma mo, Shelby localizou uma cadeira e sentou-se.
    
    - Sarah deveria ter ficado em casa, e no aqui comigo.
    
    - Mame fica onde quiser - retrucou ele caminhando alguns passos.
    
    Ela ouviu o som de uma cadeira sendo arrastada e a madeira rangendo quando Ken se acomodou.
    
    - O que est fazendo aqui? No deveria estar ajudando Bill?
    
    - Eu o estou ajudando.
    
    - Ento, por que no vai embora? Ou prefere ficar aqui me assustando?
    
    - Oh, acredite, eu preferiria estar em qualquer outro lugar.
    
    - Ento, por que est aqui?
    
    - Prometi ao meu pai que a ajudaria com o rancho. Shelby mal podia acreditar no sacrifcio que a famlia de Caulder estava fazendo. E pelo tom da voz de Ken, 
podia perceber que ele participava com uma certa relutncia. Suspirando fundo, ergueu-se, agarrou uma toalha e limpou os ovos.
    
    - Mas voc no pode. Precisa ajudar Bill.
    
    - Preciso ajud-la tambm.
    
    Shelby virou-se na direo de Ken, esquecendo-se por um momento da baguna no cho.
    
    - Mas eu no sou sua parente. Por que est fazendo isso?
    
    - Como eu disse, fiz uma promessa a meu pai. - Ele se ergueu da cadeira. -  melhor eu ir ver o que tem para fazer, antes que anoitea.
    
    - Ken, espere. - Shelby caminhou alguns passos, orientando-se com das uma mos. - Bill o est forando a vir aqui? - Silncio. Ento, ela sentiu o cheiro de 
tabaco que vinha da porta. - Se no quer me responder, devo concluir que sim. - Caminhou at ele. Aliado ao cheiro de tabaco, havia um odor agradvel de couro e 
loo de barba que vinha do homem parado  porta. Por um momento, esqueceu o que estavam falando e inspirou fundo, inalando o aroma inebriante.
    
    - Digamos que se eu no estivesse aqui, meu pai tentaria administrar os dois ranchos, e ambos sabemos que ele no pode fazer isso.
    
    - Mas ele o est forando? - Shelby saiu para a varanda, tentando se distanciar daquela aura de masculinidade que a distraa. No sabia ao certo o que lhe causava 
aquele aperto na boca do estmago. Era quase como medo, mas no era medo. Sentia uma emoo diferente, um estranho e inexplicvel desejo de se aproximar de Ken. 
Contudo, empenhada em se defender, afastou- -se alguns passos e disse:
    
    - No o quero aqui.
    
    - O qu?
    
    - No o quero aqui. - Shelby virou-se de frente, esperando que ele pudesse ver a determinao estampada em seu rosto.
    
    - E pensa que eu quero estar aqui? - Os saltos das botas de Ken ecoaram de encontro ao piso de madeira da varanda. - Este  o ltimo lugar...
    
    - Pois ento, v embora! No o estou prendendo. No preciso de voc! - ela bradou, exasperada.
    
    - Est querendo dizer que pode se virar sozinha?
    
    A voz grave soou divertida, o que a irritou. No gostava que rissem dela.
    
    - Se for preciso, sim! Agora v. Se partir agora, poder alcanar Bill e Sarah no caminho. - Mas o que ela estava fazendo?, perguntou-se. Precisava de ajuda 
e prometera ao pai que no perderia o rancho.
    
    - Como planeja reunir o rebanho e marc-lo a ferro?
    
    - Eu... ainda no sei.
    
    - Vou ficar.
    
    - O que disse? - perguntou, surpresa.
    
    - Disse que no vou partir.
    
    - Mas eu no o quero aqui. - Shelby no podia voltar atrs, precisava provar que era capaz de tomar uma deciso e mant-la, ou ele suspeitaria que algo estava 
errado. - Voc no entende?
    
    - No, no entendo. - Ken deu alguns passos, e ela sentiu o calor gerado pelo corpo masculino apenas alguns centmetros do seu. - No quer me explicar?
    
    Aquela proximidade a deixou atordoada, sem poder pensar, ento disse a primeira coisa que lhe veio  mente:
    
    - No quero um pirralho magro, egosta e ranhento tentando administrar o meu rancho, apenas para provar que  homem.
    
    - Quer que eu lhe prove que sou homem? - A voz soou fria e com uma ponta de desprezo.
    
    De imediato, Shelby sentiu sua mo sendo esmagada pelo aperto forte dos dedos dele. Oh, Deus, o que ela fizera? Por que no ficara de boca fechada?
    
    - Sinta isso. - Ken deslizou a mo delicada ao longo de seu trax musculoso. - Magro? No. - Ento, guiou-lhe os dedos at o rosto dele. A voz se suavizou, arrefecendo 
o tom hostil. - Ranhento? Tambm no - dizendo isso, respirou fundo, soltou-a e se afastou. Alguns passos  frente, Shelby o ouviu estacar e dizer: - Quer voc goste 
ou no, eu ficarei.
    
    Voltando a ficar s, Shelby sentiu-se fraca e vulnervel, no s pela raiva contida na voz de Ken, mas tambm pelo seu toque. Com o pulso batendo irregular, 
vagou, agitada, ao redor da sala. Parte de sua irritao se esvara, deixando-a confusa. 
    
    Fora pega de surpresa ao descobrir que o filho de Bill no era como ela imaginava. Ainda podia sentir a pele formigando pelo breve contato com aqueles msculos 
rijos pressionados de encontro  palma de sua mo. O calor da face masculina, a aspereza da barba por fazer tambm pareciam incendi-la. Ken tinha razo, no era 
magro nem ranhento.
    
    Mas o que teria dado nela para fazer tal comentrio? Ele estava apenas tentando ajud-la. Ento, por que se sentia to excitada?
    
    
                                    Captulo II
  
    Ken massageou os msculos do pescoo, pensando em como fora tolo em permitir que Shelby o afetasse do modo como acontecera na noite anterior. Pretendera apenas 
provar-lhe que era um homem adulto, mas quando o calor sutil daquela mo feminina tocara-lhe a face, ele percebera seu engano. O contato clido fizera seu sangue 
correr mais rpido nas veias. A lembrana dos cabelos loiros e sedosos roando as costas de sua mo ocupavam-lhe a mente impedindo-o de raciocinar.
    
    Mas o que havia de errado com ele? Santo Deus! Ela era cega! Mesmo assim, aps deix-la, passara horas no celeiro, tentando aplacar o fogo que o consumia. Aborrecido, 
deu uma longa tragada, lanou a ponta do cigarro no cho e a pisou com o salto da bota.
    
    Depois de encher o balde de gua, caminhou de volta para casa, determinado a ficar longe de Shelby e da luxria no desejada que o inflamava por dentro.
    
    Ao entrar na cabana, sentiu o cheiro de biscoitos queimados. Droga, esquecera-os no forno! Deixou o balde junto  mesa da sala, apressou-se em direo ao fogo 
e abriu a porta do forno com um estrondo. Em seguida, puxou um pano de prato de um gancho sobre o fogo, que esbarrou em uma tigela de ovos mexidos e tombou sobre 
suas calas. Com um gesto rpido e preciso, Ken pegou o tabuleiro e derrubou os biscoitos sobre a superfcie da mesa.
    
    Com um suspiro pesaroso, observou os biscoitos quase pretos. Ento, se dirigiu ao quarto que fora de Ed para trocar de roupa. De repente, um rudo alto, seguido 
por um grito amortecido, veio da sala. Ken correu em direo ao som e deparou com Shelby cada ao lado do balde entornado. Uma piscina de gua a cercava, ensopando-lhe 
a camisola.
    
    - Voc est bem? - perguntou ele, ajoelhando-se ao lado dela.
    
    Shelby afastou os cabelos midos da face e se ergueu.
    
    - O que esse balde est fazendo aqui? - Ela sacudiu as mos e as esfregou na frente da camisola.
    
    Ken fixou o olhar nos seios empinados, que sobressaam de encontro ao tecido molhado e transparente. Engoliu em seco, mas nada pde fazer para controlar as batidas 
aceleradas do corao. No era capaz de despregar os olhos daquele corpo feminino seminu. Mas o que aquela mulher estava fazendo com ele? A viso por baixo do algodo 
encharcado era como uma janela para o den. Os mamilos, enrijecidos pela gua fria, pareciam implorar para ser tocados.
    
    - Ken? - A voz dela soou impaciente.
    
    Engolindo o n que se formou em sua garganta, ele conseguiu desviar o olhar da provocante figura.
    
    - Sim?
    
    - O que esse balde est fazendo aqui na sala? - O tom era acusatrio.
    
    - Eu estava com um pouco de pressa e o esqueci. - Ken apanhou o balde, tentando ignorar as curvas estonteantes que o enlouqueciam. - Fui buscar gua, mas, quando 
voltei, senti o cheiro de biscoitos queimados, larguei o balde e corri para a cozinha.
    
    - Hum... Acho que no conseguiu chegar a tempo - disse Shelby inalando o odor que pairava no ar.
    
    - No esto to queimados assim - defendeu-se Ken, sentindo-se como uma criana repreendida. Com uma toalha, enxugou a gua derramada, evitando elevar o olhar 
alm dos ps desnudos de Shelby. Droga! O que estava acontecendo com ele? Jamais outra mulher o afetara daquele modo. O desejo que tentara controlar na noite anterior 
era nada comparado s chamas que o consumiam nesta manh.
    
    Embora no a culpasse pelo fato de ele no conseguir refrear as sensaes luxuriantes que o dominavam, Ken dirigiu-se a Shelby bruscamente.
    
    -  melhor voc ir trocar de roupa. - O tom soou afiado, e ele se amaldioou em seguida, com uma ponta evidente de arrependimento.
    
    Shelby deslizou as mos pela camisola encharcada. Ento, tentou se cobrir ao perceber que o tecido fino e delicado aderia-lhe ao corpo como uma segunda pele.
    
    - Oh, Deus... - Caminhou apressada em direo ao quarto. Alguns minutos depois, com a mesa posta para o desjejum, Ken esperou, paciente, que ela retornasse. 
Quando Shelby saiu do quarto, estava vestida e os cabelos afastados do rosto por uma fita de veludo.
    
    Como hipnotizado, ele acompanhou-lhe todos os movimentos, enquanto tomavam o desjejum. Os dedos esbeltos e longos se movimentavam na mesa, tentando localizar 
a comida que Ken havia preparado.
    
    Aps saborear uma garfada de ovos mexidos, Shelby comentou:
    
    - Voc no est comendo. No confia nos seus dotes culinrios?
    
    - No h nada de errado com os meus dotes culinrios. - Droga, aquela mulher tinha o dom de coloc-lo na defensiva. - Como soube que eu no estava comendo?
    
    - No h nada de errado com a minha audio - retrucou ela, tentando pegar a cafeteira. - Ken pensou em ajud-la, ento desistiu. J que era to determinada, 
deixaria que agisse por conta prpria. Em vez disso, tomou um gole de caf lentamente, enquanto a observava. - De agora em diante, por favor, deixe-me cuidar da 
comida e da limpeza da casa. Sou perfeitamente capaz de fazer isso sozinha.
    
    - E o que voc diz. - Por que estava deixando aquela jovem franzina faz-lo sentir-se to desajeitado e inepto? - Shelby, sinto muito pelo balde de gua, mas 
no me desculparei por estar tentando ajud-la.
    
    - Chama isso de ajuda? - perguntou ela, mordendo e cuspindo fora um pedao de biscoito queimado.
    
    - Estou acostumado a ficar no lombo de um cavalo, fazendo trabalho de homem, e no carregando baldes de gua e assando biscoitos.
    
    - Ningum lhe pediu para ir buscar gua ou assar biscoitos. Para ser sincera, acho que seria melhor que ficasse mesmo no lombo do seu cavalo. - Shelby se ergueu 
e empilhou os pratos.
    
    - Francamente, no estou nem um pouco impressionada com o que est fazendo aqui. - Carregando os pratos sujos, ela virou-lhe as costas.
    
    - Nada disso teria acontecido se tivesse sido honesta comigo - replicou Ken.
    
    - Voc no quis saber a verdade. S estava preocupado consigo mesmo. Pobre Ken Caulder, um homem do mundo tendo que desperdiar seu precioso tempo cuidando de 
uma mulher cega.
    
    -  assim que pensa que eu me sinto?
    
    - Eu sei que  assim que voc se sente. - Shelby dirigiu-se  mesa e recolheu os restos do desjejum. - Est vendo? Aprendi a conhecer as pessoas pelo tom de 
suas vozes.  bvio que odeia estar aqui.
    
    - O que eu odeio  estar sendo feito de bobo - esbravejou Ken. - J teve vrias oportunidades de me dizer que  capaz de lidar com as tarefas domsticas, mas 
preferiu no falar nada. Estou aborrecido por voc ficar bancando a vtima nessa baguna.
    
    - Certo, admito que no disse de propsito, porque queria provar que no preciso de voc. Porm percebo, por mais que odeie ter de reconhecer isso, que preciso 
da sua ajuda. Mas lembre-se: este rancho e esta casa so meus. Cozinharei suas refeies e lavarei sua roupa e, em retorno, quero ser consultada antes que qualquer 
deciso seja tomada. E por ltimo, fique longe da minha cozinha e do meu caminho.
    
    - timo. Mas no confio em voc. Ento, vamos selar isso com um aperto de mo. - Ken pegou a mo dela e a pressionou brevemente. Shelby prendeu a respirao 
ao sbito contato, desvencilhou-se e esfregou a mo com fora no avental. Mas, apesar de todo o seu esforo, o calor gerado pela mo mscula permaneceu para assombr-la.
    
    Ken cavalgou de volta para casa, aps passar quase o dia todo trabalhando com os cavalos e o gado. Em outras palavras, pensou ele, exatamente o que Shelby queria. 
Estava cansado, sujo e faminto.
    
    O aroma delicioso de comida o fez olhar vrias vezes na direo da casa, enquanto retirava os arreios do cavalo.
    
    Com um grito, antes de entrar, deixou Shelby saber que havia chegado.
    
    Recostando-se no batente da porta, parou e observou a mesa posta para dois. No havia nada fora do lugar que sugerisse que ela tivesse preparado uma refeio, 
exceto a torta de ma que esfriava sobre a pia prxima  janela.
    
    - No vai dizer nem um "ol"? - perguntou Shelby.
    
    - Para dizer a verdade, no sei se isso me  permitido fazer.
    
    - Vejo que ainda est bravo comigo. Assim que eu tirar o pernil do forno, podemos comer. - Usando um pano de prato, ela se agachou em frente  porta do forno. 
- Pode se lavar l - disse apontando para uma bacia.
    
    - No se apresse por minha causa - declarou Ken, ensaboando as mos. Em seguida, enxugou-as em uma toalha e dirigiu-se  mesa.
    
    - Sente-se. - Shelby caminhou ao redor dele e colocou a travessa com o pernil no centro da mesa. - Vou buscar as batatas e ento podemos comear.
    
    Seguiu-a com o olhar. Como ela podia saber onde ele estava? Definitivamente, havia muito para aprender sobre aquela mulher e sua cegueira.
    
    Respirando fundo, Ken puxou uma cadeira e sentou-se.
    
    De volta com as batatas, Shelby caminhou para o lado oposto da mesa e sentou-se em frente a ele.
    
    - Est com fome?
    
    - Faminto - respondeu, tornando-lhe um sorriso que ela no pde ver. - Tudo parece muito apetitoso.
    
    Shelby apanhou a tigela de batatas e a ofereceu a Ken.
    
    - Se no comer, nunca vai poder sentir o gosto.
    
    De repente, ele viu o rosto dela empalidecer, aps provar uma batata.
    
    - O que houve? - perguntou, curioso.
    
    - As batatas esto doces. Coloquei acar em vez de sal.
    
    - Acar? Como assim? - Ken levou  boca o primeiro bocado.
    
    - No entendo... No sei o que aconteceu. - Shelby ergueu-se e foi em direo ao armrio. Ele a seguiu de perto. Ela abriu uma lata e levou uma poro dos grnulos 
 lngua. - Acar - sussurrou. Ento abriu outra lata. - Sal. Esto fora dos lugares, mas como... Voc!
    
    - Eu o qu?
    
    - Foi voc que preparou o caf esta manh.
    
    Deus!, pensou Ken. Pelo visto, estava metido em srias dificuldades.
    
    - No acredito que no tenha recolocado os mantimentos nos devidos lugares - continuou Shelby remexendo o restante das latas no armrio.
    
    - Espere, deixe-me ajud-la - disse ele, alcanando um dos recipientes.
    
    - O que est fazendo? Pare. J no fez o bastante? Graas a voc o nosso jantar est arruinado.
    
    - Como eu podia saber? - esbravejou, indignado com aquele comportamento irracional e injustificado.
    
    - Eu sou cega, no lembra? Sei onde as coisas esto... ou suponho que devam estar.
    
    L vinha ela novamente, fazendo-o sentir-se como um miservel. Mais uma vez teria de se desculpar.
    
    - No pretendi menosprezar suas habilidades. S uma pessoa muito forte consegue fazer o que voc faz.
    
    Shelby respirou fundo, tentando se acalmar.
    
    - Preciso ter tudo sobre controle. Eu confio na segurana desta casa. - Acho que voc me deve um pedido de desculpas.
    
    - Eu lhe devo um pedido de desculpas? - Ken cruzou os braos sobre o trax. - Tenho a ligeira impresso de ter sido encarregado de cuidar de voc e do rancho.
    
    Ela tambm cruzou os braos na altura do peito.
    
    - Oh? E por qu? Ambos sabemos que est aqui contra a vontade. Diga-me, o que Bill fez ou disse para obrig-lo a vir para c?
    
    - Nada que lhe diga respeito.
    
    -  a que voc se engana. Isso me diz respeito, e eu conheo Bill. Que argumentos ele usou para convenc-lo?
    
    Ken curvou-se at seu rosto ficar a milmetros do dela.
    
    - Ningum est me forando a nada.
    
    - Oh... - Shelby recuou alguns passos, perturbada por aquela proximidade. - Ento, isso significa que pode partir a qualquer momento. Que tal agora mesmo?
    
    - O qu? - Ele se inclinou para trs, incapaz de acreditar no que acabara de ouvir.
    
    - Quero que parta ainda hoje.
    
    - Acho que j havamos colocado um ponto final nesse assunto. - Ken afastou-se alguns passos.
    
    - No totalmente.
    
    - O que est querendo dizer?
    
    - Que ainda no me contou a verdade. Est mentindo para mim desde que chegou aqui.
    
    -  isso que voc quer ouvir? - perguntou ele, segurando-lhe a mo. - Que porque estive fora por dez anos sem dar notcias, meu prprio pai necessita uma prova 
de que sou merecedor de administrar Caulderwood? - Soltou-lhe a mo, virou-se e caminhou ao redor da mesa.
    
    Shelby o seguiu em um passo largo to firme quanto suas palavras.
    
    - Ento, resolveram usar a mim e o meu rancho? - Desmoronando sobre uma cadeira, ela acrescentou: - A morte de meu pai foi uma bno para voc, no ?
    
    Ken fechou o punho e bateu com fora sobre o tampo da mesa.
    
    - Isso  cruel!
    
    - Diga-me: depois que Bill descobrir que voc no  capaz de gerir o meu rancho, o que ser de mim?
    
    - Isso no vai acontecer.
    
    - Confia tanto na sua capacidade?
    
    - Sim. - Santo Deus, ele fora criado em um rancho, pensou, irritado.
    
    - Como pode ter tanta certeza de que no arruinar a minha propriedade? - O tom de voz soou cortante como um chicote.
    
    - Porque tenho e pronto. - Ken engoliu o que estava a ponto de dizer, sentou-se em uma cadeira em frente a Shelby e encarou o teto. O que havia de errado com 
ele? - Quase lhe contara sobre o seu passado. - Isso no tem importncia.
    
    - Esta propriedade  tudo que eu tenho, e voc diz que no tem importncia?
    
    - Shelby, prometo que tudo ficar bem. 
    
    Com um suspiro cansado, ela perguntou:
    
    - E o que me acontecer se no puder manter essa promessa?
    
    - Droga! Investirei meu prprio dinheiro no rancho, se por um acaso isso vier a acontecer.
    
    As sobrancelhas de Shelby se arquearam.
    
    - Quer tanto assim ficar com Caulderwood? 
    
    Ken meneou a cabea, desgostoso.
    
    - No estou fazendo isso por mim ou por Caulderwood. Admito que voltei querendo administrar Caulderwood, mas no pela razo que est insinuando.
    
    - Se est tentando me dizer que foi por Bill,  difcil de acreditar. Afinal de contas, voc sumiu durante todo esse tempo sem se preocupar com ele ou com sua 
me - acusou Shelby. - Pensei que voltaria quando seu pai foi ferido.
    
    - Eu quis voltar.
    
    - Ento, por que no o fez?
    
    Ken ergueu-se, caminhou at a porta e apoiou-se no batente.
    
    - Voltei assim que pude. - A voz dele se suavizou. - A questo  que estou aqui agora.
    
    Shelby levantou-se da cadeira, passou por Ken e saiu para a varanda.
    
    - Creio que Bill deve ter boas razes para fazer o que est fazendo. Se voc tivesse ficado aqui, o acidente poderia ter sido evitado. - Ela caminhou na direo 
dele. - E no estaria aqui bancando o rancheiro, pondo o meu patrimnio em risco.
    
    Aquela mulher teimosa no tinha corao, pensou Ken.
    
    - No quero que fique com pena de mim. E fique sabendo que no vai conseguir me fazer sentir mais culpado do que j me sinto. E outra coisa, eu no fico fazendo 
joguinhos como certas pessoas que ambos conhecemos.
    
    - Em primeiro lugar, no estou com pena de voc. E como quer que eu me sinta, agora que sei que Bill o forou a vir para c porque no havia ningum para cuidar 
da pobre menina cega? - Os punhos de Shelby se fecharam. Lgrimas amargas embaavam-lhe os olhos. - Acha que porque sou cega, no sei o que est acontecendo? - Ela 
se aproximou ainda mais. - A nica razo que o trouxe para c  provar a seu pai que pode administrar Caulderwood.
    
    Com uma rapidez que o surpreendeu, Shelby deu-lhe as costas e entrou na casa.
    
    - Shelby! - Quando a porta bateu em sua cara, Ken esmagou o punho de encontro  madeira, que ainda vibrava.
    
    Maldio! Aquela tola no fazia idia do quanto era vulnervel? Com toda aquela beleza, contratar um estranho s a exporia ao perigo.
    
    No dia seguinte, Shelby estava irritada consigo mesma. Como podia ter deixado tudo sair fora do controle? Talvez Ken a estivesse usando para conseguir ficar 
com Caulderwood ou provar algo ao pai, mas isso de fato teria importncia, contanto que no arruinasse seu rancho? Ambos desejavam a mesma coisa e estavam usando 
um ao outro para conseguir o que queriam. Desde que ningum sasse machucado, que mal poderia haver?
    
    Se Ken queria ficar ali ou no, de qualquer maneira ele a ajudava. E ela no estava em condies de dispensar essa ajuda. Mas por que Ken Caulder? Por que no 
algum menos atraente e menos detestvel? Mas quem? Como lhe dissera no dia anterior, no havia ningum para ajudar uma pobre menina cega. No que sentisse pena 
de si mesma, porque no era o caso. Era apenas um fato concreto. Ningum queria ajud-la.
    
    Jamais tivera nenhuma iluso sobre sua vida. Sempre fora sozinha para lutar contra as prprias dificuldades. Agora, era uma questo de honra manter aquele rancho, 
no importava de quem e de onde vinha a ajuda. E culpar Ken pela sua raiva no era justo. 
    
    A confuso e o conflito que aquele homem criara dentro dela avivava a raiva que sentia de si mesma e o temor pelo que aquilo poderia significar. Seu pai nunca 
chegara em casa com um cheiro to agradvel quanto Ken, depois de passar um dia trabalhando com o gado. E aquela voz grave e sensual, at mesmo quando ele estava 
irritado, fazia-a sentir arrepios na espinha.
    
    O que estava acontecendo com ela? No desejava todos esses sentimentos. Queria odi-lo. Seria bem mais simples e mais fcil. Ento, por que no era capaz?
    
    Seus pensamentos vagueavam e no conseguia deixar de pensar em Ken, enquanto realizava as tarefas domsticas e a ordenha da vaca.
    
    Os sentimentos do filho de Bill a seu respeito no eram segredo. Era fcil perceber o ressentimento e a antipatia que nutria por ela. Como se fosse a culpada 
pelo pai ter morrido e, consequentemente, transformado a vida de Ken num inferno. No tinha inteno, mas tudo que dizia ou fazia parecia afet-lo nesse sentido. 
Seria mesmo culpada? Ken Caulder seria to sensvel? Todos os homens seriam to insensatos ou apenas aquele em particular? Ou ela estaria sendo insensata?
    
    Ela o odiava. Era isso! Qualquer um que a confundisse daquela maneira merecia ser odiado. O problema era ser capaz. Fingir indiferena em sua mente era fcil, 
mas fisicamente no podia ignorar as batidas aceleradas do corao e a emoo estranha que a acometia toda vez que ouvia a voz dele ou sentia seu toque.
    
    Estaria destinada a passar o resto da vida sob o feitio e poder daquele homem? Inexperiente para lidar com os sentimentos fortes que a invadiam, Shelby sentiu-se 
mais confusa do que nunca.
    
    O estmago de Ken roncou lembrando-o de que partira naquela manh sem tomar o desjejum. Ainda era cedo, mas decidiu voltar para casa, esperando que Shelby estivesse 
de bom humor.
    
    Quando abriu a porta, um estampido forte ecoou no ar. De imediato, ele se abaixou, tirou a arma do coldre e apontou.
    
    - Shelby? Onde voc est?
    
    - Ken? - Ela saiu de trs da porta do quarto. - O que est fazendo aqui a esta hora do dia?
    
    Ele ergueu-se lentamente, mas no relaxou. Em vez disso, entrou no quarto de Ed e olhou ao redor, ento verificou o restante da casa.
    
    - Est tentando me matar s porque voltei um pouco mais cedo?
    
    - Claro que no. - Shelby deixou o quarto ainda segurando o revlver. - No sabia que era voc. Se tivesse colocado o seu cavalo no celeiro onde deveria, eu 
saberia de quem se tratava.
    
    Colocando a arma de volta no coldre, Ken resmungou:
    
    - Provocava um tiroteio toda vez que seu pai voltava para casa mais cedo?
    
    - Papai nunca voltava mais cedo para casa. - Ela ps o revlver sobre a mesa, tentando se aclamar por um momento, antes de girar ao redor e virar-se para ele 
com uma expresso determinada. - Quero que me ensine a atirar.
    
    - O qu? - Ken no pde se conter e caiu na risada.
    
    - Ento, talvez conhea algum que possa me ensinar. - O tom era determinado.
    
    - No pode estar falando srio.
    
    - Estou.
    
    - No!
    
    - Muito bem, se voc no me ensinar e no achar outra pessoa, terei de aprender sozinha.
    
    - Voc acabaria se matando.
    
    - Ento, suponho que deva me ensinar. Isto , se voc for capaz. - Um sorriso mordaz curvou os lbios femininos. - Ou est com medo?
    
    - Medo de qu? - Droga, o que ela estava querendo agora, com aquele sorriso devastador e um brilho travesso nos olhos?
    
    - Medo de que eu possa me defender e no precisar mais t-lo por perto.
    
    Contrariado, Ken meneou a cabea, ento percebeu que era perda de tempo, pois Shelby no podia v-lo.
    
    - No. Tenho receio de que acabe atirando em mim. E no me convenceria se dissesse que foi um acidente.
    
    - Excelente idia! Gostaria de ter pensado nisso antes, mas, infelizmente, no me ocorreu.
    
    - Ah... sei... - Quem voc pensou que eu era? - A face dela empalideceu, e ele repetiu a pergunta num tom exigente: - Quem, Shelby?
    
    - Pensei que pudesse ser o homem que atirou em meu pai. Ken puxou uma cadeira e sentou-se.
    
    - Por que pensou isso? Provavelmente, esse sujeito deve estar bem longe daqui, sabendo que a polcia o est procurando. Entendo a sua ansiedade. Mas se eu a 
ensinar a atirar, o que acontecer quando meu pai ou minha me ou qualquer um dos seus amigos vierem visit-la? No atiraria em um deles acidentalmente?
    
    - Isso no vai acontecer. As nicas pessoas que vm me ver so Bill e Sarah, e eu j conheo o som dos passos deles. Assim como daqui a algum tempo vou conhecer 
os seus.
    
    - E quanto aos outros amigos? Eles no vm visit-la?
    
    - No tenho nenhum outro amigo. Ningum quer ter amizade com uma moa cega.
    
    Ken ergueu-se e caminhou at a porta. De repente, tudo ficou claro. Shelby sempre levara uma vida solitria.
    
    - Vamos fazer um trato. - Ele a fitou por sobre o ombro. - Vou ensin-la a atirar se prometer esperar at saber em quem est atirando.
    
    - Prometo - respondeu ela com um sorriso de satisfao.
    
    - Amanh  tarde, depois que o trabalho terminar.
    
    Ken meneou a cabea, esperando no estar cometendo um grande erro.
    
    Guiando a mo de Shelby sobre o pequeno revlver, Ken tratou de familiariz-la com a arma.
    
    - Vamos dar apenas dois tiros. Ento, certifique-se de os contar. Sinta isto,  a bala.
    
    Ela rolou o projtil entre os dedos.
    
    - No  muito grande. Como a coloco na arma?
    
    - Elas se ajustam no cilindro, eu j lhe mostrei como se faz. Agora, ponha ambas a dentro. Aqui est a outra.
    
    Shelby encontrou e abriu o cilindro, tentando ignorar o homem a seu lado e as estranhas ondas de calor que lhe percorriam o corpo.
    
    - E agora?
    
    - Agora, feche.
    
    Ela obedeceu. Um sorriso vitorioso desenhou-se em seus lbios.
    
    - Como me sa?
    
    - Muito bem. Mas nunca mire algo em que no for atirar. Agora, est pronta para disparar. - Ken posicionou-se, passando os braos ao redor dos ombros de Shelby, 
suas mos ajudaram-na a segurar o revlver.
    
    Ela sentiu o corpo inteiro vibrar em resposta quele contato. O que estava lhe acontecendo? O calor provocado por aquele fsico msculo a deixava zonza. Desejava 
se aproximar e se afastar a um s tempo.
    
    Ken largou-a e se afastou, levando consigo o calor reconfortante que a envolvia. Shelby no sabia se ficava aliviada ou desapontada.
    
    - Deixarei que atire sozinha.
    
    - Em que devo atirar? - Ela foi pega de surpresa ao perceber que a voz de Ken soou distante. Ento, lutou contra o desejo opressivo de se aproximar dele novamente. 
Um ardor incandescente a aquecia por dentro, e nada tinha a ver com o sol forte que brilhava no cu.
    
    Com as mos trmulas, apertou o ao frio da arma, temendo deix-la cair caso no conseguisse controlar suas emoes. Confusa, no percebeu que armara o gatilho. 
De repente, a exploso de um disparo ecoou pelos ares. Shelby gritou, saltou para trs e caiu sentada no cho.
    
    - Santo Deus! - gritou Ken, correndo em sua direo. - Voc est bem?
    
    - Acho que sim... - Ela se ergueu, sacudindo a poeira da saia, e ento ajoelhou-se e encontrou a arma.
    
    - Agora est pronta para deixar esta tolice de lado? 
    
    Shelby respirou fundo, procurando se acalmar. O calor que a consumia momentos antes dissipou-se pela rispidez das palavras dele.
    
    - No, no desistirei. Voc me prometeu! Est voltando atrs na promessa que fez?
    
    - No. Mas se insistir nessa bobagem, precisa prestar mais ateno ao que est fazendo. - A pequena arma foi arrancada de suas mos. - Precisamos de algo que 
faa barulho quando acertar o alvo.
    
    - Eu j sei! - Shelby esticou um brao e se dirigiu ao celeiro. Ken a alcanou.
    
    - Aonde voc vai?
    
    - Ao celeiro. H alguns sinos de vaca no alojamento.
    
    - Espere aqui - disse ele, segurando-a pelo brao. - Eu vou peg-los.
    
    Ken se afastou. Precisava de um tempo para manter o corpo traioeiro sob controle. O suave perfume floral que Shelby exalava flutuava ao seu redor, deixando-o 
atordoado. Seu sangue corria apressado nas veias, com a proximidade dela. Tinha que sair dali.
    
    Uma vez no celeiro, comeou a procurar os sinos.
    
    Por fim, encontrou um sino de vaca enferrujado. Respirou fundo e caminhou, relutante, ao encontro de Shelby.
    
    - Isto deve funcionar. Vou pendur-lo em um galho e amarrar a uma corda. Ento me posicionarei atrs de voc e posso acionar o sino. Desse modo, quando ouvir 
o som, saber onde est o alvo.
    
    - Ken ajustou o objeto pesado na altura de seu trax. - Muito bem, aqui vamos ns - informou, dando um puxo na corda. Um tinido estridente quebrou o silncio 
que pairava no ar. Ele largou a ponta da corda e correu at Shelby. - Quero que pratique at identificar o alvo, antes de comear a atirar. - Segurando-a pelos ombros, 
girou-a com a inteno de desorient-la, embora tudo que realmente desejava era tom-la nos braos e deliciar-se com a suavidade daquela pele acetinada. - Agora, 
quando eu tocar o sino, fique de frente para aquela direo e aponte a arma.
    
    Ele sacou a arma do bolso, colocou mais algumas balas no cilindro e a passou s mos dela. 
    
    - Pronta?
    
    Shelby assentiu com a cabea.
    
    Ao ouvir o som do sino, ela girou e apontou.
    
    - Muito bom! - Ken a elogiou. - Tentemos novamente. - Ao v-la acertar a direo do alvo repetidas vezes, Ken disse: - Certo, agora quero que se mova mais rpido.
    
    Ele admirou a determinao de Shelby para aprender. Ela se virou e apontou vrias vezes, at ficar encharcada de suor.
    
    - Por favor, chega. Estou ficando tonta - pediu ou ouvi-lo dizer para continuar. Largou a arma e sentou-se no cho. - No pensei que fosse to cansativo.
    
    Agachando-se a seu lado, Ken falou num tom suave:
    
    - Voc  quem quis aprender a atirar. Qualquer um pode descarregar uma arma, mas atirar com preciso  algo que exige uma enorme concentrao. - Ento agarrou-a 
pelo brao e colocou-a de p. - Se um homem tentar agredi-la e voc no for rpida o suficiente, no pode pedir ao sujeito que faa mais barulho para acert-lo da 
segunda vez.
    
    Shelby suspirou e esperou que ele a girasse novamente.
    
    - Entendi.
    
    - Quando eu tocar o sino desta vez, descarregue a arma na direo do som. - Ken acionou a corda.
    
    Imediatamente, ela disparou.
    
    - Acertei?
    
    - Tirou um lasca grossa da rvore.
    
    - Oh! - Shelby se queixou, fazendo beicinho. - Toque de novo.
    
    O sino tocou mais uma vez. Ela atirou. Dessa vez o sino soou em resposta.
    
    - Acertei! Acertei! - Shelby gritou, excitada, agarrando-se ao brao dele.
    
    Ken sorriu, tentando manter o equilbrio.
    
    - A nica coisa que atingiu o sino foi a ma que voc conseguiu acertar.
    
    - Verdade? - ela perguntou, decepcionada.
    
    - Verdade - respondeu ele, dando-lhe mais munio. Banindo os pensamentos libidinosos, Ken tentou se concentrar apenas na lio que estava lhe ensinando. Mas 
seu corpo parecia no concordar, reagindo a todo movimento das curvas femininas. Os dedos formigavam, vidos por tocar a sedosidade daquela pele alva. Sem se dar 
conta, umedeceu os lbios, desejando saber se a boca de Shelby era to macia quanto parecia. Quando um desejo incontrolvel ameaou domin-lo, percebeu que era hora 
de parar.
    
    - J  o bastante pr hoje.
    
    - Podemos praticar mais amanh?
    
    - Talvez.
    
    - Por favor. Ainda h muito para eu aprender.
    
    - No sei, Shelby. Tenho muito trabalho a fazer. 
    
    Ela largou os braos ao longo do corpo.
    
    - Voc est bravo comigo?
    
    - Devo admitir que se saiu muito bem hoje, mas a razo pela qual estou aqui  gerir o rancho, e no atender aos seus caprichos. - Dito isso, ele se virou. - 
Vai praticar quando eu tiver tempo.
    
    - Se est to ocupado assim, podemos achar outra pessoa para me ensinar?
    
    - De jeito nenhum! - retrucou Ken, quase gritando. Qualquer homem que ficasse prximo daquela mulher teria a mesma reao que ele. Ser que Shelby tinha noo 
dos sentimentos que despertava no sexo oposto? - Bem... quero dizer, vou tentar arranjar tempo. Mas o rancho tem que vir em primeiro lugar.
    
    - No tive inteno de dizer o contrrio. Apenas pensei... - Shelby encolheu os ombros, e Ken podia jurar que ela no entendeu sua sbita mudana de comportamento. 
Mas, droga, se nem ele mesmo entendia, como esperava que Shelby entendesse?
    
    
    
    
   Captulo III
   
    Ken puxou as rdeas e estacou no alto de uma elevao. As pegadas que vinha seguindo desapareciam na lama ao lado do riacho. Os ladres de gado eram espertos, 
levando s algumas reses de cada vez para no serem descobertos.
    
    Estava na hora de contratar mo-de-obra nova. At mesmo Ed teria sido obrigado a empregar ajudantes com aqueles bandidos soltos por ali.
    
    Se estavam roubando o Rancho Raines, que era uma propriedade pequena em comparao a Caulderwood, seu pai tambm devia estar tendo problemas com o gado, como 
os outros rancheiros locais.
    
    Ken decidiu ir visitar sua famlia, e como no pretendia voltar antes do anoitecer, o mais aconselhvel seria levar Shelby consigo.
    
    Minutos mais tarde, deixou o cavalo no ptio, tirou o chapu e inspirou o aroma delicioso de torta de ma que vinha da porta aberta.
    
    - Shelby, no atire, sou eu, Ken - gritou antes de entrar. Caminhou com cuidado sobre o piso de madeira, pendurou o chapu em um gancho e passou os dedos nos 
cabelos suados.
    
    - Gostaria de um copo de suco de ma? - ofereceu ela.
    
    - Oh, cairia muito bem - ele aceitou e puxou uma cadeira para se sentar.
    
    A bebida desceu refrescando-lhe a garganta.
    
    - Venha, sente-se, precisamos conversar. - O corpo de Shelby enrijeceu. Ken fez uma carranca ao perceber que ela sempre ficava na defensiva. - Dei falta de vrias 
cabeas de gado esta manh.
    
    - Quantas?
    
    Ele estreitou o olhar e a estudou. No parecia surpresa, era como se j esperasse por algo assim.
    
    - De oito a dez.
    
    - Santo Deus, meu rebanho j  to pequeno! Acha que voltaro para roubar mais?
    
    - Seu rebanho no  to pequeno. Voc tem mais de duas mil cabeas.
    
    Shelby retorceu os lbios.
    
    - Isso  impossvel. Sozinho, meu pai no conseguiria lidar com todos esses animais. Tem certeza de que o rebanho de Caulderwood no se misturou ao meu?
    
    - So todos seus. - Ken curvou-se para a frente e apoiou os braos sobre a mesa. - Vou trazer alguns homens de Caulderwood para nos ajudar, pelo menos at conseguirmos 
controlar a ao dos ladres - Ele tomou o resto do suco. - Nesse meio tempo, quero ter certeza de que ter aquele revlver sempre a seu lado. - Embora no estivesse 
disposto a admitir aquilo em voz alta, Shelby tinha razo sobre precisar aprender a manejar uma arma.
    
    - Mas...
    
    - Escute, Shelby. At descobrimos o que est acontecendo, fique sempre alerta. Agora vamos para Caulderwood. Quero falar com meu pai sobre isso. Eu a colocarei 
sobre a sela daquela pequena gua, assim poder me mostrar suas habilidades equestres.
    
    - Minhas o qu? - Ela riu.
    
    O riso de Shelby era como msica suave aos ouvidos de Ken. Por que ela no ria com mais frequncia?, ele pensou.
    
    - Suas habilidades equestres - repetiu, sorridente. -  uma palavra relativa  equitao.
    
    - Oh!
    
    - O que me diz?
    
    - Eu no sei cavalgar.
    
    Ken deu de ombros, que outra opo lhe restava?
    
    - Bem... Acho que se a ensinei a atirar, tambm posso ensin-la a montar.
    
    Meia hora depois, encontravam-se em Caulderwood sentados  mesa de jantar da me de Ken. Ele no se surpreendeu ao saber que o pai tambm perdera algumas reses.
    
    - Contamos com cerca de duas mil cabeas no Rancho Raines, e antes que esses bandidos as roubem todas, gostaria de pedir emprestado alguns dos seus vaqueiros 
para vigiar o rancho.
    
    Bill comeu um pedao de torta em meio a um murmrio de espanto.
    
    - Eu no sabia que Ed tinha tantas cabeas de gado assim.
    
    - Vamos l vocs dois. J chega desse assunto - disse Sarah, segurando a mo de Shelby. - No h necessidade de preocupar, a menina dessa maneira.
    
    - Deixe-os falar. Trata-se da minha terra e do meu gado. Prometi a papai que no permitiria que nada de mau acontecesse ao rancho e pretendo manter a promessa.
    
    - Eu ficarei bem. V em frente e mostre a Slim e Chuck o que precisa ser feito - Shelby disse para Ken, na manh seguinte.
    
    - Isso vai levar o dia inteiro.
    
    O som do couro estirado chegou aos ouvidos dela, fazendo-a saber que Ken estava amarrando o cinto da arma  cintura.
    
    Guardou o ltimo dos pratos que havia lavado, secou as mos e virou-se de frente.
    
    - No se preocupe comigo. Eu estava acostumada a ficar sozinha o dia todo, quando papai era vivo.
    
    - Voltarei para o jantar.
    
    Shelby ficou parada na porta at no ouvir mais o tropel dos cavalos.
    
    Contando os passos at o celeiro, correu a mo ao longo da parede externa, at encontrar o galinheiro. Ento, abriu a portinhola e espalhou milho no cho para 
atrair as galinhas.
    
    De volta  parede do celeiro, seguiu at o curral, localizado na metade do caminho, e abriu a cancela de madeira. O sino ao redor do pescoo de Pimenta tilintou 
quando a vaca-leiteira se aproximou com um suave mugido. 
    
    Mas havia algo mais alm do som do sino, um zunido nefasto que se intensificava  medida que outras abelhas se juntavam  primeira.
    
    Assustada, Shelby virou-se para fugir e acabou batendo na grade do cercado. Procurou ignorar o ombro contundido e, dando um grito de pnico, passou pela porteira 
aberta e sacudiu as mos, tentando manter os insetos distantes. Quando sentiu uma picada no brao, girou em crculos, e a saia do vestido enroscou-se ao redor de 
suas pernas, fazendo-a tropear e espatifar-se no cho.
    
    Amedrontada, permaneceu deitada. No ouvindo mais o zumbido das abelhas, deixou escapar o ar que retinha nos pulmes. Em seguida, ergueu-se, desorientada e confusa. 
Ficou parada por alguns momentos apertando o brao ferido, ento ouviu o barulho familiar do rancho. Com um suspiro de alvio, ouviu tambm o sino ao redor do pescoo 
de Pimenta e caminhou na direo do som.
    
     medida que avanava, esticava a mo, esperando tocar a cerca do curral. Porm no achou nada alm do vazio. Quando o solo tornou-se irregular e algumas pedras 
rolaram sob seus ps, alarmou-se. Se ficasse parada, o vento poderia lhe trazer o som das galinhas, dos porcos ou de algo que pudesse lhe indicar que direo tomar. 
Porm o nico som audvel e constante era o tilintar do sino.
    
    O pnico ameaou domin-la, e Shelby procurou se tranquilizar. Precisava se manter atenta ao sino de Pimenta, pois o animal, provavelmente, faria o trajeto de 
volta para casa.
    
    O sol forte queimava-lhe a cabea descoberta.
    
    Obstinada, Shelby continuou caminhando, enquanto o sol lhe drenava as foras. Ser que algum conseguiria encontr-la? Ken demoraria a voltar. At l, poderia 
estar morta. Sua esperana escoou junto com sua energia.
    
    Cansada demais para prosseguir, desmoronou sobre o solo spero e pedregoso. O som do sino no pescoo de Pimenta ficou mais distante.
    
    Quando o vento se acalmou, aumentando o calor a um grau insuportvel, Shelby desabotoou o corpete do vestido numa tentativa de esfriar a pele suada. Estava sedenta. 
O ar era to pesado e seco que at respirar se tornava difcil.
    
    De repente, ouviu o som do sino da vaca se intensificar. Como Pimenta podia correr com aquele calor?, perguntou-se. Respirando fundo, tentou encher os pulmes 
de ar. Algo estava diferente. Inspirou, tentando identificar o novo cheiro. gua! Forando os msculos fatigados, ergueu-se. Mesmo tropeando vrias vezes, correu 
em direo ao cheiro.
    
    O odor ficou mais forte, e ela ouviu o som preguioso de gua rolando entre as pedras. O riacho!
    
    Ao se aproximar, a sombra dos lamos a encobriu, trazendo uma brisa bem-vinda. Shelby suspirou, aliviada. Embora a temperatura sob as rvores no fosse muito 
diferente, sentia como se estivesse no cu.
    
    Pisando com cautela, seguiu adiante com um brao esticado, at o cho sob seus ps ficar mais macio. Agachou-se e procurou a gua. O barro morno escoou por entre 
seus dedos. Ela avanou lentamente at sentir o alvio refrescante da gua envolver-lhe a cintura. Ento, mergulhou no riacho o rosto queimado pelo sol.
    
    Aps saciar a sede, Shelby virou-se de costas e deixou o corpo cansado relaxar.
    
    Ken dirigiu-se ao celeiro, enquanto os ltimos raios do sol enfraqueciam no horizonte. A lua j surgia no cu quando apeou do cavalo. Desencilhou o animal e 
o conduziu  estrebaria.
    
    - Que estranho! - proferiu em voz alta ao ver a cancela da vaca aberta. -  muito tarde para Shelby estar ordenhando.
    
    Apressou-se at a cabana e abriu a porta.
    
    - Shelby, voc est aqui? - No houve resposta, e ele ficou apreensivo.
    
    Saiu da casa e procurou no poro. Ningum! Ela no estava em parte alguma. Aflito, voou at a cabana, pegou uma lanterna e saiu para o curral. A cancela aberta 
havia sido a primeira advertncia. O pulso de Ken se acelerou com o medo, enquanto procurava no cho ao redor do curral. Por fim, encontrou o que estava procurando. 
Rastros. Sob a luz tnue da lanterna, seguiu as pegadas. As marcas dos sapatos de Shelby se dirigiam para Pimenta. 
    
    Ele as seguiu at a extremidade que rodeava o cercado da vaca. Olhando para a pradaria, Ken sentiu um aperto no peito. Shelby estava l fora, na escurido e 
no frio. Perdida em algum lugar daquele inferno que a natureza inspita reservara s terras do Texas.
    
    Shelby espreguiou-se, relaxando a rigidez dos msculos. Uma brisa fria aoitou-lhe os braos, fazendo sua mente nebulosa despertar. De imediato, se deu conta 
de onde estava. Sentou-se e apurou os ouvidos, tentando ouvir o sino no pescoo de Pimenta. Porm os nicos barulhos audveis eram o da gua do riacho e o do coaxar 
de rs. 
    
    Ao longe, grilos comeavam a trilar, anunciando a chegada da noite. Ela dormira a tarde toda. Amedrontada, rastejou com cautela sob os ramos de um arbusto. Tateando 
o cho primeiro, estendeu um brao no ar  procura de obstculos. Gravetos pontudos espetaram-lhe os dedos. Fez fora para conter as lgrimas, quando uma pedra pontiaguda 
feriu-lhe a pele delicada do joelho; sentou-se novamente para esfregar a perna, que latejava.
    
    De repente, ouviu vozes. Havia algum nas proximidades. Shelby gelou. Endireitou a cabea, esperou e escutou. O som de passos vinha em sua direo.
    
    Estava a ponto de chamar, quando ouviu um assobio familiar. A melodia Clementine. Vrios minutos se passaram, antes de ela ter coragem de se mover. Ento, lentamente, 
procurou se ocultar entre o emaranhado de galhos, sem saber se o esconderijo a deixava fora de viso. Manteve-se atenta  voz. Mais ntida agora.
    
    Era Dutch! O que estaria fazendo ali? No podia permitir que ele a encontrasse.
    
    Alm do assobio, podia ouvir o esguicho de gua e o tinido frio de metal contra as rochas. Dutch enchia uma panela ou talvez uma cafeteira. Havia uns trs homens, 
talvez mais. As vozes eram muito baixas para Shelby distinguir quantos exatamente.
    
    Ento, uma risada alta ecoou por entre os lamos, e a voz familiar disparou:
    
    - Calem-se! Querem que algum nos encontre ?
    
    - Ora, no h ningum neste fim de mundo.
    
    As mos de Shelby tremeram, o corao disparou. Neste fim de mundo? O quanto havia se afastado do rancho? Ser que Ken j chegara em casa e percebera sua ausncia?
    
    - Quantas cabeas temos agora? - A pergunta chamou a ateno dela.
    
    - No o bastante. Nem cheguei perto do que me  devido. - Houve uma pausa e Shelby pensou que Dutch no ia dizer mais nada, at que ouviu sua risada malvola. 
- Estou s comeando a minha vingana.
    
    - Sobre que vingana est falando, chefe? - algum perguntou.
    
    - Se eu quisesse que vocs soubessem, j lhes teria dito.
    
    - Est certo. Mas no gosto de me meter em algo que no  da minha conta - resmungou outro.
    
    - Vo ter a parte de vocs, no  mesmo? - rugiu Dutch.
    
    - No recebi nada at agora. Estou cansado de esperar voc decidir quando ser o bastante - retrucou um dos homens.
    
    - Pois eu vou lhe dizer, Turk, no o farei esperar mais. 
    
    Um tiro explodiu no ar, seguido de um silncio mortal. Shelby abafou um grito, tampando a boca com as mos. Ento ouviu a voz de Dutch novamente:
    
    - Mais algum de vocs est cansado do meu modo de agir? 
    
    Ningum falou nada.
    
    A pele de Shelby arrepiou-se de dio, enquanto a voz odiosa lhe chegava aos ouvidos. Dutch no s matara o pai dela, como tambm estava lhe roubando o gado.
    
    - E se o sujeito que est trabalhando para ela aparecer? - perguntou um dos ladres.
    
    - No se preocupe com isso. Eu cuidarei dele. - A raiva na voz de Dutch soava clara. - Ele est me devendo.
    
    Um calafrio percorreu a espinha de Shelby. O que Ken devia quele ser repulsivo? O que Dutch pretendia fazer com ele? O facnora tambm havia lhe dito que o 
pai dela estava lhe devendo. O horror a atingiu como um punho na boca do estmago. Aquele miservel tambm estava planejando matar Ken.
    
    Shelby sentiu a cabea latejar e pensou que ficaria maluca de tanto especular que tipo de ligao o filho de Bill teria com aquele assassino e por qu.
    
    Por razes que no podia explicar sequer a si mesma, no queria perder Ken tambm. Esse simples pensamento atingiu-lhe o corao como uma flecha.
    
    Se contasse algo sobre Dutch, conhecendo Ken como conhecia, sabia que ele iria procurar o bandido. E como o pai dela, provavelmente acabaria morto. Nada pde 
fazer para proteger Ed, mas talvez pudesse fazer por Ken.
    
    Vrias horas depois que a gangue de ladres pegara no sono, Shelby continuava em alerta. No silncio da noite, podia ouvi-los roncar.
    
    Tranquila pelo ritmo constante do respirar dos homens, ergueu-se com cuidado para no fazer nenhum barulho. O ar estava frio e mido ao lado do riacho. Ela esfregou 
os braos devagar, tentando se aquecer.
    
    Quando o dia amanheceu, estava exausta. As pernas e os ps doam por Shelby haver passado o dia anterior caminhando e a maior parte da noite de p.
    
    O sol da manh dissipou o ar frio da noite espalhando um calor gostoso que a fez parar de tremer. Sentia-se inquieta, e os homens pareciam no ter nenhuma pressa 
para partir.
    
    O tempo ia passando e sua sede aumentava a cada minuto. Todavia seu desconforto foi esquecido quando ouviu os ladres levantando acampamento.
    
    Shelby esperou mais uma hora depois que eles partiram, antes de se aventurar at o riacho para beber um pouco de gua. Ento, retornou depressa ao local, onde 
os sons j eram conhecidos.
    
    Amedrontada demais para deixar seu abrigo provisrio, sentou-se e se encolheu como uma bola. Se os ladres de gado achavam que aquele acampamento era seguro, 
que esperana teria ela de que algum a encontrasse?
    
    Quando o sol surgiu no horizonte, Ken desligou a lanterna. Sabia que era loucura ter passado a noite procurando na escurido apenas com uma lanterna para iluminar 
o caminho. Mas que alternativa lhe restara? Precisava encontrar Shelby. No podia deix-la passar outro dia perdida naquele calor ou outra noite ao relento.
    
    Horas depois, seguindo as pegadas de Pimenta, encontrou uma tira do vestido de Shelby. Agachou-se ao lado do cavalo e observou. Seu corao encheu-se de expectativa. 
Era um sinal de que, at ali, ela ainda estava seguindo a vaca, j que seu peso era muito leve para imprimir marcas no solo duro e seco.
    
    O calor aumentava com a aproximao do meio-dia. Os rastros agora iam em direo ao sul. Ken estacou e se amaldioou em silncio por sua estupidez. O riacho! 
Por que no imaginou antes que Pimenta teria tomado a direo da gua?
    
    Ao alcanar o riacho, virou a montaria para oeste e seguiu o fluxo de gua,  procura de pegadas na lama macia. De repente, o cheiro de fumaa penetrou-lhe as 
narinas, ento avistou os restos de uma fogueira. Deteve o cavalo, deslizou da sela e tocou os pedaos de carvo mornos e imveis. Seu olhar esquadrinhou ao redor 
da pequena clareira. Naquele momento, uma mancha escura junto  fogueira chamou sua ateno. 
    
    Curvou-se e examinou-a. Uma pedra meio enterrada na sujeira estava manchada de vermelho. Com um dedo tocou o solo. Sangue! Seu corao acelerou. Vises de Shelby 
 merc de homens desconhecidos fez seu sangue gelar. Ken rezou em silncio para que o sangue no fosse dela.
    
    De volta ao lombo do cavalo, seguiu o curso da gua, com os olhos fixos no cho. Seu pulso acelerou quando viu rastros pequenos na lama. Desmontou, agachou-se 
e examinou as pegadas. Shelby estivera ali. Teria sido antes ou depois de os homens acamparem? Era impossvel dizer. E de quem seria aquele sangue?
    
    - Droga! Shelby, onde voc est? - A voz dele ecoou na pradaria ao redor.
    
    Ken!
    
    -  Ken? Ken, estou aqui - a voz soou fraca enquanto ela rastejava para fora dos ramos do arbusto.
    
    -  Oh, Deus, Shelby! Voc est bem? - sussurrou ele, tomando-a nos braos.
    
    Ao ouvir a voz de Ken e sentir o conforto dos braos msculos a envolvendo, Shelby enterrou a face no peito forte e morno e chorou aliviada.
    
    - Acho que sim.
    
    As mos dele correram ao longo dos braos dela.
    
    - Voc est bem mesmo? Nenhum osso quebrado? Nenhum corte?
    
    - Estou cansada e faminta. Meus ps esto doloridos, mas acho que no geral estou bem - assegurou Shelby, agarrando-se s mos de Ken. - Fiquei to assustada! 
Pensei que fosse morrer aqui antes de algum me encontrar. - As lgrimas desciam aos borbotes pela face queimada pelo sol.
    
    - O que aconteceu? Seu rosto est vermelho e arranhado. Algum bateu em voc? - Os dedos dele apertaram-lhe os ombros.
    
    - Ningum me bateu. Foram os galhos da rvore.
    
    Ken deixou escapar um suspirou de alvio, ento contornou a linha do queixo delicado com as costas da mo.
    
    - Sua pele est muito queimada. Vou lev-la para casa e colocar um pouco de unguento nisso.
    
    - Ken, espere. H um homem...
    
    - Que homem?
    
    - Ele est morto.
    
    - Morto? Onde e quem, Shelby?
    
    - No sei. S sei que eles atiraram em um homem e esconderam o corpo em algum lugar.
    
    - Certo. No vamos nos preocupar com isso agora. Vou falar com o xerife, e ele cuidara do caso. - Ken rodeou-lhe a cintura com firmeza e a conduziu at o cavalo.
    
    -  Shelby, foi por isso que no pediu ajuda s pessoas que acamparam aqui ontem  noite?
    
    - Era o mesmo homem que matou meu pai.
    
    - Tem certeza?
    
    - Sim. - Naquele instante, ela se lembrou que Dutch conhecia Ken. E se tambm ele fosse um fora-da-lei?
    
    - Como voc sabe? No importa, vamos para casa, pode me responder durante o trajeto.
    
    Ken a colocou com delicadeza sobre a sela e se acomodou na parte de trs. Shelby tentou no toc-lo, mas o trotar do cavalo, aliado  sua fadiga, minava-lhe 
a resistncia para lutar. Ento, relaxou e apoiou as costas contra o peito musculoso de Ken.
    
    - Shelby, tudo vai ficar bem. Eu prometo.
    
    Ela esperou que ele pudesse manter aquela promessa. Caso contrrio, ambos estariam em srias dificuldades.
    
    Ken estreitou-a nos braos e sorriu. Shelby estava dormindo, incapaz de resistir. Inclinou-se e beijou-lhe a testa. Depois de tudo que ela havia passado, ainda 
exalava uma suave fragrncia floral.
    
    Shelby Raines era sinnimo de encrenca, pensou enquanto a fitava. Toda vez que retornava para casa, deparava com um novo problema. Mas no era culpa dela. Ele 
jamais entendera as mulheres. Em especial aquela, que num minuto podia ser to vulnervel e no outro se transformar em uma fera.
    
    Com um sorriso nos lbios, puxou-a de encontro ao prprio corpo e sentiu-se aliviado quando avistou a cabana.
    
    - Graas a Deus! Pensei que teria de ir procur-la tambm.
    
    - O qu? O que ? - Shelby perguntou, despertando.
    
    - Pimenta encontrou o caminho de casa sozinha.
    
    - Eu sabia que ela conseguiria.
    
    Ken ergueu-a nos braos com facilidade e caminhou a passos largos em direo  casa.
    
    - Depois de limpa e alimentada, poder descansar. Ento, vai me contar tudo que aconteceu.
    
    Minutos mais tarde, ele arrastou uma tina at o quarto de Shelby. Em seguida, dirigiu-se  cozinha, onde fatiou um pouco de queijo e po, esperando que a gua 
para o banho dela esquentasse. Com os braos cruzados sobre o trax, observou-a devorar a refeio.
    
    - Depois de banhar-se, v descansar um pouco, antes de me contar a histria toda. - Ken empilhou os pratos sujos. - Vou lavar isto.
    
    Shelby hesitou por um momento antes de alcanar a porta do quarto.
    
    - Obrigada.
    
    - De qu?
    
    - Por salvar a minha vida. Acho que eu no ia durar muito tempo l fora.
    
    - Bem, agora est em casa. Ento, por que no toma um banho e vai dormir?
    
    - Voc soa cansado. Talvez tambm precise dormir.
    
    Ela curvou os lbios num sorriso, e Ken desejou poder tom-la nos braos e mostrar-lhe o quanto estava feliz por v-la finalmente em segurana.
    
    - Irei descansar assim que me certificar de que est tudo bem com voc.
    
    - Sinto-me bem agora que estou em casa. - Shelby se virou e desapareceu no interior do quarto.
    
    Fechando os olhos, Ken suspirou aliviado. No sabia o que seria dele se no a tivesse encontrado.
    
    Shelby mergulhou na gua morna e encolheu-se. Em poucos momentos, o lquido transparente aliviou as dores de seu corpo machucado, mas no surtiu o mesmo efeito 
em relao ao caos que reinava em sua mente. Desejou poder sair da tina e perguntar a Ken a respeito de Dutch, mas, se o fizesse, teria de lhe revelar a verdade 
sobre Ed. Tudo estava indo to bem entre eles... Pelo menos haviam parado de brigar.
    
    Ela sorriu e pensou na oferta de Ken de ensin-la a cavalgar, assim poderia acompanh-lo quando fosse a Caulderwood. Ele no se sentia envergonhado ao ser visto 
a seu lado.
    
    O que havia de errado com ela? Nas ltimas vinte e quatro horas, tivera srias dificuldades para respirar. Talvez dessa vez fosse porque seu corao batia de 
modo selvagem em sua garganta.
    
    Como um homem em quem no confiava podia faz-la sentir-se daquele modo? Estaria sob o efeito mgico de um feitio? O que quer que fosse, precisava ser cautelosa. 
Seguiria o conselho de Ken e carregaria o revlver sempre consigo, no caso de ele estar trabalhando com Dutch. No sabia o que dava mais trabalho, odi-lo ou desej-lo. 
No importava, porque ambos os sentimentos a angustiavam e no momento sentia-se exausta demais para se preocupar com esse assunto. Talvez em seus sonhos pudesse 
escapar de Ken Caulder.
    
    Ken sentou-se  mesa com uma xcara de caf, escutando o som da gua espirrar. Imaginou Shelby ensaboando-se, com gotinhas escorrendo sobre os seios macios, 
que se misturavam ao calor da gua que escondia sua nudez...
    
    Soltando uma imprecao, ergueu-se e saiu para a varanda. Aquilo era loucura. Estava ficando maluco. Jamais conhecera outra mulher capaz de afet-lo a ponto 
de vir-lo pelo avesso.
    
    Shelby era a ltima pessoa por quem deveria nutrir tais sentimentos. Por qu? Ele ignorou a vozinha interior e jurou esquecer todos os pensamentos loucos que 
lhe afligiam a mente, fingindo que no existiam.
    
    A atrao que sentia era apenas o resultado de estar havia meses sem uma mulher, convenceu a si mesmo. E Shelby era uma jovem atraente com cabelos loiros e longos 
que emolduravam uma face encantadora. O desenho sensual dos lbios carnudos perecia talhado para o beijo de um homem. 
    
    Mas, droga, precisava de uma mulher completa, algum para trabalhar a seu lado, gerar filhos. Maldio! Ele jogou o cigarro fora e observou o espiral de fumaa 
subir pelo ar. A quem estava tentando enganar? Shelby era a mulher mais completa que j conhecera. O fato de no poder enxergar no a diminua em nada em relao 
s outras. Era sincera. No tinha medo de dizer exatamente o que sentia e pensava.
    
    Mesmo assim, continuava achando que ela escondia algo. Um segredo que no estava pronta a compartilhar com qualquer um. Mas quando estivesse, ele estaria a seu 
lado para ouvi-la. Embora Shelby no admitisse, precisava dele e j no se ressentia tanto por isso.
    
    Shelby vestiu-se lentamente, desejando ir para a cama e permanecer l at que todas as dores e o cansao abandonassem seu corpo. Mas havia muito o que fazer.
    
    Tentando abotoar o vestido, gemeu ao sentir uma pontada de dor no brao que a impediu de mov-lo. E agora ali estava ela seminua, com apenas um homem a quem 
recorrer.
    
    A nica coisa a fazer era pedir-lhe ajuda.
    
    - Ken? Pode entrar aqui, por favor?
    
    - O que houve? Voc est bem? - perguntou ele, apressando-se at o quarto.
    
    - Sim... Quero dizer, no. No consigo fechar os botes.
    
    - Deixe isso comigo. - Ken a virou de modo a alcanar a parte de trs do vestido.
    
    O corao de Shelby falhou uma batida, ento comeou a pulsar descompassado, enquanto as mos fortes de Ken roavam suas costas desnudas. O calor daquele corpo 
ardente parecia marcar a ferro sua pele delicada. Ento, sua respirao parou completamente ao sentir a mo dele massagear-lhe a nuca. 
    
    Os dedos longos correram por seu pescoo e ergueram-lhe o queixo com delicadeza. Podia sentir o aroma masculino e selvagem que Ken exalava. O hlito morno, com 
uma leve sugesto de tabaco, tocava-lhe as maas do rosto. No instante seguinte, ele inclinou-se e beijou-lhe os lbios, num toque suave e gentil.
    
    Uma onda de medo a invadiu, mas logo foi suplantada por um calor reconfortante que se espalhou dentro dela.
    
    Ao perceber que Shelby no resistiu, Ken aprofundou o beijo, tornando-o mais ntimo. Um rugido alto ecoou em seus ouvidos, atordoando-lhe a cabea. Quando afastou 
os lbios, percebeu que o rugido era a prpria pulsao fazendo seu sangue correr apressado nas veias. Ele observou o movimento rpido do trax dela se expandindo 
e retraindo, o que fazia com que seus seios pressionassem o tecido fino do vestido.
    
     A face delicada ainda estava inclinada para cima,  espera de mais. A tentao de beij-la de novo o estava subjugando. Ento, curvou-se e tomou posse dos lbios 
femininos mais uma vez.
    
    Shelby gemeu e aconchegou-se, pressionando os seios rijos de encontro ao peito forte. Os braos de Ken envolveram-na pela cintura. Seus lbios moviam-se sobre 
os dela e a lngua explorava-lhe a boca com avidez, at cada nervo de seu corpo vibrar com intensidade. Como era possvel um simples beijo provocar-lhe tal reao? 
Porque o gosto dela era adocicado e inocente, pensou. Ao lembrar-se da inexperincia de Shelby, sentiu um aperto no corao.
    
    Ento se afastou abruptamente.
    
    - Sinto muito. Eu no deveria ter feito isso. No pretendia assust-la.
    
    - Voc no me assustou - sussurrou ela. - Eu  que estou assustada comigo mesma.
    
    -  melhor eu ir embora - sugeriu Ken, enquanto corria os dedos pelos lbios de Shelby, percebendo o que ela quisera dizer.
    
    Com os pensamentos tumultuados, correu para fora da cabana e se dirigiu ao poo. Levantou um balde de gua e mergulhou a cabea no lquido frio. Quase perdera 
o controle, e o pior era que Shelby parecia no se importar. Shelby o teria deixado fazer amor com ela ou o teria rechaado? A possibilidade enviou-lhe outra onda 
de desejo intenso, que aumentou a tenso de sua virilidade j excitada.
    
    
    
   Captulo IV
  
    O que acontecera na ltima semana?, Shelby perguntou-se. Os dias passaram voando. O tempo nada fizera para lhe apagar da memria o beijo de Ken, e a assustava 
pensar o quanto desfrutara daquele contato. O calor e a inquietao ainda lhe corroam o ntimo, fazendo seu corao bater mais rpido. Esperava manter esses sentimentos 
s para si e no permitir que o brilho que cintilava em seu interior se externasse.
    
    Tinha certeza de que, se Ken no passasse a maior parte do tempo nos arredores da casa e do celeiro, agora que Chuck e Slim estavam ali para ajud-los, poderia 
esquec-lo. Mas sua voz grave e a risada divertida eram lembranas constantes do beijo que haviam compartilhado.
    
    O filho de Bill no parecia o mesmo homem amargo que chegara ao rancho e que, depois, virara sua vida de cabea para baixo. Como podia ter algum tipo de ligao 
com Dutch? Esperava do fundo do corao estar errada sobre ele. Mas Ken no ajudava, mantendo os ltimos dez anos de sua vida em segredo. E esse mistrio apenas 
aumentava seu ceticismo.
    
    Com toda aquela desconfiana, como podia se sentir atrada por ele? No fazia sentido. Ou estava louca, ou todos aqueles anos de solido a faziam sonhar com 
coisas que s viriam a mago-la.
    
    Ela tambm escondia segredos de Ken. A nica diferena era que ele no sabia desse detalhe.
    
    Shelby sentou-se na varanda, pensativa, e escutou o barulho do martelo que vinha do celeiro. Ken lhe dissera que terminaria o novo curral antes do jantar. Tinha 
de admitir que ele estava fazendo um timo trabalho. E mantendo a promessa de coloc-la a par de todos os assuntos do rancho. Alm disso, ela jamais se sentira to 
feliz e alegre como nos ltimos dias. De uma hora para outra, a tenso e ansiedade que a afligiram durante anos se dissipara.
    
    Tudo era montono at Ken entrar em sua vida. Agora, no lhe parecia mais impossvel planejar e pensar, como toda jovem, em ter uma famlia, um marido e filhos. 
O fato de ser deficiente visual no significava que no fosse capaz de amar, dar  luz e segurar um beb em seus braos.
    
    Era possvel que algum pudesse am-la? Ken poderia? Pelo modo como a beijara... Bem, talvez milagres acontecessem, pensou. Mas isso provava que ele nutria algum 
sentimento em relao a ela? Talvez sentimentos que no estava disposto a admitir. De repente, seu futuro parecia brilhante e cheio de esperana.
    
    O medo de que Ken tentasse controlar e manipular sua vida, como Ed fazia, diminua a cada dia. Ken estava provando que ela se enganara a respeito dele. Tinha 
certeza de que Bill e Sarah ficariam orgulhosos do filho.
    
    Mas ainda faltava uma coisa para tudo ficar perfeito. Precisava saber o que Ken fizera durante os anos em que estivera fora. Havia uma parte de si que no podia 
confiar totalmente nele at descobrir toda a verdade sobre seu passado.
    
    - Sim, Sampson, acho que ficar contente com os planos que tenho em mente para voc, amigo - disse Ken, erguendo uma grade e prendendo-a a uma estaca. - Vai 
ganhar um pequeno harm que o manter feliz. Ento, far de Shelby uma das mulheres mais ricas e respeitadas por estas bandas. - No posso acreditar que Ed no tenha 
percebido a mina de ouro que ele tinha nas mos.
    
    Dando a ltima martelada, desejou ter tempo para tomar um banho no riacho. Talvez no dia seguinte conseguisse que Shelby preparasse um almoo para um piquenique, 
e eles poderiam passar a tarde juntos. No, recriminou-se. Isso poderia ser muito perigoso. Podia no se contentar com apenas um beijo da prxima vez e ceder s 
exigncia de seu corpo. Shelby no tinha ideia do que era capaz de provocar em um homem.
    
    E, para piorar a situao, estava se mostrando cordata e agradvel. No era mais a mesma mulher desconfiada que o fazia sentir-se um intruso como antes.
    
    Carregando um balde, Shelby saiu para o ptio. O vento revolveu-lhe a saia e libertou-lhe os cabelos da fita que os prendia. Ao erguer a face, respirou fundo, 
inalando o ar. Finalmente iria chover.
    
    O rugido forte de um trovo soou ao longe. Ela sorriu. Amava troves e relmpagos. Quando era criana, costumava sentar-se  janela do quarto e escutar o lado 
selvagem e furioso da natureza.
    
    Naquela noite, Ken estaria ali para lhe fazer companhia. Se o mau tempo persistisse, no poderia deix-lo dormir no celeiro. Havia goteiras no telhado que Ed 
jamais tivera tempo de consertar.
    
    Ele teria de dormir no quarto que fora do pai dela. O pensamento provocou-lhe um calafrio na espinha. O simples fato de Ken dormir sob o mesmo teto que ela seria 
o suficiente para faz-la perder o sono.
    
    Outro trovo explodiu, j no muito distante. Shelby retirou gua do poo e virou-se para voltar, quando ouviu o som de passos na sua direo.
    
    - Shelby! Deixe-me carregar o balde e v para dentro de casa. A tempestade est vindo. - Ela sentiu o balde sendo retirado de seus dedos e uma certa mo forte 
em suas costas empurrando-a para a frente.
    
    Antes mesmo de dar o primeiro passo, um grosso pingo de chuva atingiu-lhe o brao. Em seguida, teve a sensao de que Ken esvaziara o balde sobre a cabea dela. 
A chuva caiu forte, transformando-se rapidamente em um aguaceiro. Encharcada, Shelby correu para a casa, escutando o som de botas atrs de si.
    
    Ao se aproximar da varanda, ouviu o alerta de Ken:
    
    - Voc est na escada.
    
    Sem pensar duas vezes, Shelby subiu os degraus e atravessou a varanda. Nesse instante, outro trovo fez estremecer as madeiras do telhado. Ento, ela percebeu 
que se encontrava no interior da casa, mas podia jurar que continuava sentindo a chuva cair sobre sua cabea.
    
    Curvando o pescoo para trs, inclinou o rosto em direo ao teto. Uma grossa gota de gua atingiu-lhe a regio entre os olhos.
    
    - H um vazamento no telhado - anunciou Shelby. -  melhor eu ir buscar uma panela, antes que a sala fique inundada.
    
    - Quando a tempestade parar, vou reparar as telhas - disse Ken, colocando o balde sobre o contador.
    
    - Aproveite e faa o mesmo no celeiro. Se chover a noite toda, voc no poder ficar l. - Shelby secou o rosto, enrolou uma toalha ao redor dos cabelos e foi 
pegar mais panelas. - Vou aproveitar para coletar um pouco de gua da chuva. Poderemos us-la para tomar banho depois. - Ela saiu, colocou as panelas na beirada 
da varanda e retornou rapidamente.
    
    - Um banho soa muito bem, exceto...
    
    - Exceto o qu? - perguntou Shelby, tentando torcer a gua da saia.
    
    - Todas as minhas roupas limpas esto no celeiro. Embora voc no possa me ver, no iria querer que eu andasse nu pela casa.
    
    As faces dela coraram uma vez mais. Em sua imaginao, Ken era um deus. Alm do mais, no fazia a menor idia de como seria um homem nu. Tudo que sabia era que 
gostava de sentir aqueles msculos rijos em contato de suas mos e o cheiro msculo que ele exalava.
    
    - Pode usar o roupo de meu pai - murmurou ela, apressando-se para ir buscar as panelas.
    
    Uma hora mais tarde, vestida com uma camisola de flanela e um grosso roupo, Shelby tentou se concentrar nos biscoitos que estava preparando, e no nos sons 
que vinham do quarto de Ed.
    
    A confuso prevalecia em sua mente. Se ao menos soubesse o que estava almejando. Isso a ajudaria a aliviar aquele estranho desejo que a consumia? Saber de fato 
o que era se sentir mulher e conhecer o toque de um homem? Um beijo no podia ser tudo, caso contrrio no sentiria aquela inexplicvel e perturbadora necessidade.
    
    Desejou que a me tivesse sobrevivido para orient-la nesses assuntos.
    
    Ken precisaria ir at o riacho quando a chuva parasse e tomar outro banho. Se tivesse que circular por ali com o perfume de Shelby, enlouqueceria. Ser que ela 
no tinha outro sabonete, algo que no exalasse aquela suave fragrncia floral?
    
    Com aquele aroma impregnado em sua pele, seduzindo-o, ficaria completamente imprestvel.
    
    - Suponho que agora esteja pronto para jantar-disse Shelby, colocando uma travessa fumegante de macarro com galinha sobre a mesa.
    
    - Tenho fome a qualquer hora. - Ken puxou uma cadeira e sentou-se.
    
    Ela acomodou-se no lado oposto.
    
    - D para notar. Com todo o trabalho duro que vem fazendo por aqui,  compreensvel.
    
    - O qu? Voc disse que eu trabalho duro. Agora no pode mais voltar atrs!
    
    A risada de Shelby atingiu os ouvidos dele como uma brisa primaveril.
    
    - Se lembrar direito, eu disse que voc precisava me provar que era capaz de gerir o meu rancho. Bem, voc provou que . Alm do mais, foi o motivo pelo qual 
est aqui que eu contestei.
    
    - Acho que agora estamos entrando em um territrio perigoso - advertiu Ken.
    
    - Tem razo. H pouco, voc disse que tinha um assunto para conversar comigo. Do que se trata?
    
    Ele afastou um pouco a cadeira da mesa.
    
    - Quando fui  cidade esta manh, fiz uma sondagem e acho que posso conseguir algumas guas novas por um bom preo.
    
    - De quantas est falando? - perguntou Shelby.
    
    - Voc tem seis, suponho que mais vinte seria um nmero razovel para comearmos um rebanho. - Ken a observou, tentando avaliar sua reao. Deus, como era bonita! 
Para ser franco, preferia estar beijando-a a falar sobre cavalos.
    
    - Voc disse que papai comprou outros oitenta mil acres?  terra suficiente para suportar um rebanho de cavalos?
    
    - A terra  excelente para o pasto. - Ken admirou-lhe os cabelos, que caam como uma cascata sobre os ombros. De repente, sentiu vontade de toc-los para ver 
se eram to macios quanto pareciam.
    
    - E os bois? Est sugerindo que me dedique  criao de cavalos e esquea os bois?
    
    - No, no. Que tal se eu conseguir um contrato para vender carne de boi ao governo? Tenho contatos no Exrcito e posso obter um bom dinheiro com a venda de 
carne de boi e cavalos para equitao. - Ele se serviu de uma xcara de caf e observou o arfar do peito de Shelby.
    
    - Eu posso no entender muito de negcios, mas por que voc no consegue esses contratos para Caulderwood?
    
    - Papai j tem muitos contratos a cumprir. No pode assumir mais um.
    
    -  E se voc comprar todas essas guas e no conseguir o contrato?
    
    - J pensei nisso, tambm. Falarei com o meu contato para obter uma promessa verbal, antes de comprar qualquer coisa. Isso a deixa mais tranquila? - Ken sentiu 
os dedos clamando pelo contato com a suavidade daquele corpo feminino. Queria que ela o desejasse tanto quanto a desejava...
    
    - Isso soa como se voc pensasse em tudo. Oh sim, ele estava pensando em tudo...
    
    - Tentei antecipar todas as suas perguntas, assim pude elaborar todas as respostas. - Todas as respostas, exceto como seria fazer amor com ela, pensou.
    
    Shelby apoiou os braos na extremidade da mesa.
    
    - No posso deixar de admitir que  uma boa idia. Mas preciso pensar. Quando o seu trabalho terminar aqui e voc voltar para Caulderwood, o que vou fazer? - 
Ela encolheu os ombros. - Quem vai administrar tudo isso?
    
    - Conseguirei algum para ajud-la a manter o negcio lucrativo. Um capataz em quem voc possa confiar. E depois, no estarei assim to longe, se precisar de 
mim.
    
    O silncio se instalou entre os dois, enquanto uma expresso indecisa se assomava  face de Shelby.
    
    - Sei que levar algum tempo, antes de eu saber se fiz a escolha certa, e h vrias perguntas que ainda preciso lhe fazer, mas concordo com a sua idia. - Shelby 
assentiu com a cabea, com uma fisionomia determinada.
    
    - No vai se arrepender. Ser uma operao bem-sucedida, eu prometo.
    
    - Gostaria de ter essa mesma certeza.
    
    - No se preocupe, farei a coisa certa.
    
    Talvez pelo rancho sim, mas, e sobre Shelby? A necessidade de t-la nos braos crescia a cada instante. Conseguiria resistir e se manter afastado dela?
    
    Enquanto lavava a loua do jantar, Shelby desejou saber se tomara a deciso certa. E se os negcios do rancho se tornassem to grandiosos como Ken parecia pensar 
que se tornariam? O que faria quando o filho de Bill partisse e outra pessoa no fosse capaz de cumprir os contratos que ele estava certo que obteria?
    
    Secou o ltimo prato e colocou a pilha no armrio. A tempestade ainda caa to intensa quanto a tenso que se apoderava de seu peito. Isso significava que Ken 
teria de passar a noite na casa. E agora, o que ela faria? Ainda faltavam algumas horas para se recolherem. O que faziam um homem e uma mulher  noite? Com seu pai 
era fcil. Mas com Ken a situao era totalmente diferente. Jamais precisara entreter algum  noite. Em geral, gastava seu tempo preparando a massa de po para 
o dia seguinte.
    
    - Essa chuva vai ajudar o pasto e encher o riacho. - A voz de Ken veio da porta aberta da cozinha.
    
    - Mas o calor no diminuiu. - Shelby se juntou a ele, ouvindo a chuva cair sobre o telhado.
    
    - Tempestades de vero no fazem a temperatura cair.
    
    Ken soava to tenso quanto ela. Estavam a ss no abrigo reconfortante de uma casa, com a chuva caindo pesada l fora, e tudo que lhes restava era falar da prpria 
chuva.
    
    - Voc quer uma xcara de caf ou ch?
    
    - No, obrigado. Se voc no se importar, prefiro tomar um drinque.
    
    - Claro que no. - Shelby se acomodou na cadeira de balano. Depois de alguns minutos, ouviu Ken sentar-se na cadeira de couro favorita do pai dela.
    
    -  Voc est muito compenetrada. Em que est pensando, Shelby?
    
    A voz suave e cheia de interesse acalmou-lhe os nervos e a deixou  vontade. Embora soubesse que ele iria querer saber tudo que se passava na mente dela.
    
    - Oh, eu estava apenas me lembrando que quando chovia e ramos obrigados a ficar aqui dentro, papai lia alto para mim.
    
    - Quer que eu leia para voc? Quero dizer, no sou seu pai e no ser a mesma coisa, mas...
    
    - Oh, adoraria que lesse para mim. Mas voc quer? 
    
    Ken se ergueu.
    
    - O que quer que eu leia?
    
    - S temos um livro. Est l na estante.
    
    - Ivanhoe! - exclamou ele ao retornar com o velho exemplar nas mos.
    
    - Deve haver um marcador na ltima pgina que papai leu.
    
    - Achei.
    
    Ken leu com fluncia e suavidade, at Shelby no ouvir mais as palavras dele. Uma profunda e contagiante sensao de paz a envolveu. Sentia-se completamente 
relaxada pela doura aveludada daquela voz mscula. Jamais experimentara tais emoes at aquele homem vir cuidar de seu rancho. Desejou saber o que aquilo significava. 
De repente, a sala parecia repleta de tenso sexual.
    
    Seria por causa de Ken? Nem gostava tanto assim dele, gostava?
    
    Havia tantas perguntas a serem feitas... Embora as respostas no parecessem importantes naquele momento. No com ele sentando ali do seu lado. Na realidade, 
sentia como se fosse a coisa mais natural do mundo. Calor, segurana e satisfao a subjugaram.
    
    Talvez estivesse cansada de ficar sozinha, e Ken era a nica pessoa disponvel. Apesar do tratamento frio que Ed sempre lhe dispensara, pelo menos no ficava 
sozinha. Os pensamentos sobre o pai lhe trouxeram  memria Dutch e sua ligao com Ken. Decepo e animosidade perturbaram sua serenidade. Tentou evit-las. Aquela 
noite maravilhosa no podia ser arruinada por simples suspeitas.
    
    - Ken? - chamou-o, interrompendo a leitura. - Por que motivo concordou em me ensinar a atirar? Quero dizer, alm da minha insistncia,  claro.
    
    Houve um momento de silncio, e Shelby desejou saber o que ele iria responder.
    
    - Bem, acho que percebi o quanto significava para voc aprender. Alm do mais,  uma mulher teimosa, e eu sabia que, de uma maneira ou de outra, encontraria 
um modo de alcanar seu intento.
    
    Ela o ouviu fechar o livro e erguer-se. O rangido do assoalho de madeira deixava claro que Ken fora at a estante guardar o exemplar.
    
    - Deve entender bem sobre teimosia, j que tem uma boa dose em voc - declarou Shelby.
    
    - Posso ver que, a menos que mudemos de assunto, vamos ficar trocando elogios o resto da noite.
    
    - Parece que somos antagnicos, no  mesmo?
    
    - Estou comeando a pensar que isso lhe agrada - disse Ken. Ela deu uma risada.
    
    - Admito que  bem fcil deix-lo irritado.
    
    Shelby ergueu-se da cadeira e o seguiu at a cozinha. O perfume msculo e o calor do corpo dele pareciam atra-la. Sem pensar, colocou a mo no trax slido 
de Ken e se apoiou. Sua mo deslizou at sentir a face angulosa. Com a mente repleta dos pensamentos anteriores e a atmosfera tranquila e confortvel que os cercava, 
no resistiu ao desejo de explorar o rosto masculino. 
    
    A pele era rija. Os cabelos, macios e vastos. As pontas ondulavam ligeiramente na altura do colarinho. Com os dedos trmulos, traou-lhe a linha do queixo. Ento, 
afagou-lhe a maciez dos lbios, delineando o contorno sensual com um leve roar. A respirao morna de Ken tocou-lhe a palma da mo, enquanto ele lhe beijava os 
dedos, um por um.
    
    Erguendo-se na ponta dos ps, Shelby enlaou-lhe o pescoo e puxou-o com delicadeza, para que suas bocas se unissem. De imediato, Ken respondeu quele convite 
corajoso e impulsivo.
    
    Os braos msculos a envolveram e puxaram de encontro ao peito musculoso. Um sbito desejo a invadiu, enfraquecendo-lhe os joelhos, e logo todos os nervos de 
seu corpo pareciam formigar de prazer. As reaes que aquele homem lhe provocava eram arrebatadoras. A imaginao era nada comparada  realidade, pensou Shelby, 
extasiada.
    
    Quando pareciam prestes a sucumbir quela tentao, Ken a repeliu. O calor foi substitudo pela realidade fria de seu ato.
    
    - Vou ver os animais no celeiro - disse ele, ofegante, afastando-se a passos largos.
    
    Ao ouvir a porta bater, Shelby percebeu o impacto do que acabara de fazer. Para sua surpresa, no se sentia embaraada ou culpada. Tudo que experimentava era 
uma enorme decepo por haver sido rejeitada.
    
    Por que o deixava exercer aquele poder sobre ela?
    
    Do alto de uma colina, Dutch estreitou os olhos para observar melhor Ken Caulder selar seu cavalo. O dio profundo que o invadia crescia a cada minuto. Jamais 
desprezara um ser humano com tamanha intensidade. Mat-lo simplesmente seria frustrante. Queria que Caulder sofresse como ele vinha sofrendo todos aqueles meses. 
Ningum matava um membro de sua famlia e escapava impune. Sua vingana seria lenta e dolorosa.
    
    Sem pestanejar, focalizou o olhar na moa cega, enquanto Ken caminhava at ela. O agente secreto roou a mo suavemente ao longo da face da jovem. Naquele instante, 
Dutch percebeu o que poderia fazer para atormentar-lhe a vida. At mesmo um cego era capaz de enxergar o que Caulder sentia pela filha de Ed.
    
    Havia tempo, ficara pasmo ao descobrir que Ken Caulder era de fato Shaw Conners, um agente secreto a servio do exrcito do Texas.
    
    Ao v-lo partir, deixando a moa mais uma vez sozinha, saiu de trs da rvore que o ocultava.
    
    Ento, montou em seu cavalo e observou.
    
    Acho que vou me divertir um pouco com essa belezinha, pensou com um brilho lascivo no olhar.
    
    Em vez de se dirigir a Caulderwood, Dutch Trent soltou as rdeas e desceu a colina. Ken jamais imaginaria que o assassino do pai da mocinha voltasse  cena do 
crime.
    
    No tinha pressa. Caulder devia demorar algum tempo para retornar.
    
    Ao observar Shelby executar as tarefas matutinas, percebeu o exato momento em que ela o ouviu apear do cavalo. Correndo ao redor do celeiro, Shelby desapareceu 
atrs do galinheiro. Ser que a pobre criatura realmente achava que podia se esconder dele?
    
    - Muito bem, doura, pode sair. Sei que est a. - Dutch caminhou em direo  casa, espiou o interior, antes de voltar ao celeiro. Deixaria que ela pensasse 
que o estava enganando, no fim ele ganharia de qualquer maneira. - Doura? - chamou mais uma vez com uma risadinha maquiavlica. - Onde est? Tenho algo para voc 
- zombou com um sorriso sarcstico, esfregando a regio da virilha.
    
    Shelby avanou lentamente e retirou o revlver do bolso do vestido. Deslizando a mo ao longo da madeira spera, encolheu-se atrs do canto mais afastado do 
galinheiro e esperou. Ao ouvir o assobio de Dutch, seu corao deu um salto. Suas mos trmulas quase perderam o controle sobre a arma. Como odiava aquela cano!
    
    Sem ousar mover um msculo, prendeu a respirao. Esperou e escutou.
    
    A voz sombria chegou at ela. Pde ouvi-lo caminhar at a casa e depois voltar ao celeiro.
    
    - Certo, voc ganhou desta vez - disse ele. - No estou com tempo para brincar de esconde-esconde. Tenho que fazer alguns planos para me livrar de Caulder. Acha 
que seu papai gostaria de companhia? - A risada malvola provocou um calafrio na espinha de Shelby. - Vou embora, mas voltarei.
    
    Esttica e apavorada, ela apurou bem os ouvidos. Como no o ouviu partir, de imediato percebeu que se tratava de um truque. Ficou onde estava, rezando para Ken 
no voltar. Caso contrrio, estaria selando a prpria morte, e ela nada poderia fazer para evitar que isso acontecesse.
    
    Meia hora se passou, antes que Shelby ouvisse a voz de Dutch novamente. Resmungando algumas imprecaes, o marginal, por fim, montou em seu cavalo e partiu. 
O som das patas do cavalo dele foi enfraquecendo  medida que se afastava. Ela esperou outra meia hora, antes de se certificar que de fato o facnora havia partido.
    
    Ao se sentir um pouco mais aliviada, caminhou devagar at a porta. Ao sair, a brisa morna pareceu acalmar-lhe o corpo quente e tenso. Sem esperar mais, correu, 
trpega, na direo da casa. Ao entrar, bateu a porta e girou o ferrolho a fim de tranc-la.
    
    Respirou fundo, numa tentativa de acalmar as mos e os membros trmulos. Seu corao batia como o de um coelho assustado. Pela segunda vez na vida, sentia-se 
vulnervel. Mas, pelo menos, dessa vez seria capaz de se defender caso fosse necessrio.
    
    Puxou uma cadeira, sentou-se e ps o revlver no colo. Em seguida, pousou as mos sobre a arma e esperou. O que, no sabia, mas estaria preparada. Com a porta 
fechada, o ar dentro da diminuta cabana tornou-se abafado. A parte de trs do vestido aderiu  sua pele encharcada de suor. Procurou ignorar o desconforto, preocupando-se 
apenas com as ltimas palavras que Dutch dissera antes de partir.
    
    Aquele miservel conhecia Ken e por algum motivo queria mat-lo. Ressentiu-se pelo fato daquela vingana exp-la ao perigo. Oh, meu Deus!, pensou, angustiada.
    
    Coincidncia ou no, aquele sujeito chegara  cidade ao mesmo tempo em que o filho de Bill voltara para o rancho do pai. Seriam cmplices? Dutch matara o pai 
dela, logo depois Ken Caulder mudou-se para o Rancho Raines, ento descobriu que ambos se conheciam, e, por ltimo, seu gado estava sendo roubado. Mas por qu?
    
     Por que Ken se envolveria em algo to srdido, quando sua famlia possua um dos maiores ranchos da regio? Por que correria um risco to grande se dinheiro 
no era problema para ele? A menos que... soubesse que o pai no o deixaria assumir Caulderwood, antes mesmo de ter voltado. Era isso, certamente. Armada de determinao, 
decidiu endireitar a reviravolta que Ken Caulder causara em sua vida e provar a si mesma que ainda detinha o controle de suas emoes. 
    
    Provaria que aquela aura de masculinidade que a fascinava s existia na sua imaginao. Ken conhecia a vulnerabilidade dela, e ento calculou todos os passos 
para conseguir o que desejava. Por certo, a julgava to infantil e ingnua a ponto de acreditar em tudo que ele lhe dizia. Mas naquela noite o faria sair do rancho 
e da vida dela tambm.
    
    Enquanto voltava para casa, Ken amaldioou sua falta de sorte. Por que o roubo de gado comeada aps ele assumir a direo do rancho? Apesar de os ladres subtrarem 
apenas dez a doze cabeas de cada vez, no levaria muito tempo para arruinarem a propriedade.
    
    Assim que abriu a porta da cabana, percebeu que havia algo errado. Foi como se um vento gelado perpassasse toda a extenso da sala e o atingisse no peito. Tremeu 
involuntariamente, apesar do calor que fazia.
    
    Shelby encontrava-se sentada na cadeira de balano, olhando para a frente. Podia perceber que as juntas dos dedos dela estavam brancas de tanto apertar o brao 
da cadeira. Um visvel sentimento de raiva flutuava como uma nvoa ao seu redor. O que fiz agora?, pensou Ken. Repassou na memria os ltimos dois dias, mas no 
se lembrou de nada que justificasse aquele tipo de recepo.
    
    - Resolveu todos os seus problemas? - A voz de Shelby soou fria e impessoal.
    
    - Falaremos sobre isso depois. Primeiro, conte-me o que houve. Aconteceu algo errado enquanto estive fora? - Percorreu a vista ao redor, ento caminhou lentamente 
para o interior da casa.
    
    Alguns passos  frente, avistou seu alforje no centro da sala. Por que ela havia empacotado algumas coisas dele?
    
    - Est tudo errado! - Uma risada nervosa escapou dos lbios de Shelby. - Os meus problemas comearam no dia em que voc apareceu  minha porta.
    
    - Do que est falando? - O choque inicial foi dando lugar a um sentimento de raiva. - No est sendo sensata, como sempre.
    
    Os lbios de Shelby se comprimiram e seus dedos apertaram ainda mais os braos da cadeira. Ken podia perceber que ela estava lutando para manter o controle. 
Mas, droga, ele tambm.
    
    - Desde que voc apareceu no meu rancho, acontece uma calamidade aps a outra. Fui atormentada e ameaada. Perdi-me no deserto e o meu gado est sendo roubado. 
Sem mencionar que quase quebrei o pescoo aqui nesta sala. - Shelby respirou fundo e continuou: - Estarei mais segura se ficar sozinha.
    
    Santo Deus! Aquela mulher perdera a cabea? Era certo que desde a sua vinda para o rancho, ela precisara lidar com um desafio aps o outro, quanto a isso tinha 
razo. Mas, por certo, era inteligente o suficiente para perceber que aquilo no fora culpa dele.
    
    - O nico motivo pelo qual estou aqui  porque seu pai foi assassinado. E eu no estava por perto quando isso aconteceu. - Ken avaliou-lhe a tenso do rosto. 
Ser que o culpava pela morte de Ed, tambm?
    
    - Por favor, v embora. - A voz feminina no passava de um sussurro cansado.
    
    Seria muito perigoso partir e deix-la sozinha agora. Mas talvez fosse uma boa oportunidade. Se sumisse por uns tempos, poderia ir ao encalo dos ladres, sem 
ter de explicar sua ausncia e o porqu de estar investigando por conta prpria em vez de deixar o xerife fazer esse trabalho.
    
    Olhando para Shelby, desejou saber o que aconteceu enquanto estivera fora naquela manh. Algum a teria importunado? Parecia perdida e solitria. E o que gostaria 
de fazer antes de partir era tom-la nos braos e dizer-lhe que tudo ficaria bem.
    
    - V! - gritou ela.
    
    - Eu vou, por ora - concordou Ken, pegando o alforje. - Tenho alguns negcios para resolver, mas prometo que voltarei.
    
    Confuso, ele afastou-se do rancho. O que teria acontecido para Shelby agir de maneira to intempestiva? Estavam se dando to bem. Como ela podia ser to imprevisvel? 
Justo quando ele comeava a relaxar e pensar que estavam se entendendo, Shelby explodia como um basto de dinamite.
    
    O rumo dos pensamentos de Ken estava inteiramente voltado, para o rancho. Algumas semanas antes, sentia vontade de estrangular aquela jovem arrogante, mas agora... 
Correndo a mo ao longo da face, suspirou fundo. Algo havia mudado. Ela estava diferente. Ele tambm. Pelo menos acreditava que Shelby mudara de opinio a seu respeito.
    
    No queria se aprofundar muito no assunto ou analisar seus sentimentos com medo do que poderia descobrir.
    
    - Droga! - proferiu em voz alta. - A quem estou tentando enganar? Eu a amo!
    
    Agora que admitira isso a si mesmo, sabia que tudo seria mais fcil. Primeiro, porm, precisava descobrir quem estava roubando o gado dela.
    
    Aps ter ficado dois dias acampado com o rebanho, Ken retornava ao Rancho Raines no muito seguro de como lidar com seus sentimentos em relao a Shelby. Enterrou 
os calcanhares nos flancos do cavalo, impelindo-o para a frente, quando uma nuvem de poeira seguindo o mesmo trajeto chamou sua ateno. Fosse quem fosse, estava 
vindo da cidade e com pressa.
    
    Sem despender muito esforo, galopou veloz a fim de alcanar o outro cavaleiro. Ao se aproximar, reconheceu o xerife.
    
    Ken puxou as rdeas e esperou at que Sam Daly emparelhasse a seu lado. Ento acenou com a cabea.
    
    - Sam. O que o traz aqui?
    
    Empurrando a aba do chapu para trs, o xerife o fitou com um olhar estranho. Ken pensou ter visto um brilho de admirao nos olhos do homem.
    
    - Recebi uma mensagem para voc. 
    
    As sobrancelhas de Ken se arquearam.
    
    - Uma mensagem para mim? De quem? 
    
    Sam puxou uma carta do bolso.
    
    - Aqui est. Pode ler.
    
    Ken desdobrou o papel e fez uma carranca ao ler o nome familiar. Por que agora? A ocasio no podia ser pior. Queria voltar ao rancho e se acertar com Shelby.
    
    - Como conseguiu isto?
    
    O xerife curvou-se sobre a sela.
    
    - Recebi uma carta hoje e estava dentro. No quiseram enviar um telegrama, com medo de revelar sua identidade.
    
    Ken amassou o papel com a mo, tirou o chapu e correu os dedos pelos cabelos.
    
    - Bem, agora voc j sabe. - Ele encarou o xerife. - Peo que no conte isso a ningum, especialmente aos meus pais.
    
    Sam meneou a cabea.
    
    -  Estou a par das condies que Bill lhe imps para gerir Caulderwood. No acha que se lhe contasse que  um agente secreto do Texas, mudaria tudo?
    
    - Fui um agente secreto - corrigiu Ken. - No sou mais. Erguendo as sobrancelhas, Sam Daly olhou para a carta amassada nas mos dele.
    
    - Tem certeza?
    
    Um msculo se contraiu no maxilar de Ken.
    
    - Este ltimo trabalho  pessoal.
    
    - O que vai dizer aos seus pais e a Shelby?
    
    Ignorando a pergunta do xerife, Ken recolocou o chapu na cabea.
    
    - Obrigado, Sam.
    
    - Tenha cuidado, rapaz. Pelo que est escrito na carta, ele  um homem perigoso.
    
    Ken acenou com a cabea e guiou o cavalo em direo a Caulderwood. Dessa vez no descansaria enquanto no prendesse ou matasse Dutch Trent.
    
    Sarah levou as mos  cintura com um semblante preocupado.
    
    - Por que no pode nos dizer para onde est indo? 
    
    Ken segurou-a pelos ombros com extrema suavidade.
    
    - No se preocupe. Vou tratar de negcios. No devo demorar muito. - Ele beijou a face da me e em seguida voltou a ateno para sua bagagem.
    
    - Quanto tempo? - perguntou Sarah, dobrando uma de suas camisas.
    
    - No estou bem certo. Espero poder resolver tudo e voltar dentro de algumas semanas, no mais tardar um ms. - Afivelou os alforjes e os colocou sobre os ombros. 
- Cuide de Shelby para mim. - Conduziu o cavalo para fora do celeiro e partiu.
    
    Num galope ligeiro, Ken rumou direto para o lugar combinado. No queria se envolver naquilo novamente. Logo agora que Shelby mais precisava dele. Porm as palavras 
de Nick o convenceram. Esperava poder capturar Dutch Trent e mand-lo para a priso o mais rpido possvel, assim poderia voltar para casa dentro de uma ou duas 
semanas.
    
    Dutch Trent! Aquele homem fora um dos motivos que o fizeram renunciar ao seu posto no Exrcito. Ken e Nick Summers haviam preparado uma armadilha para pegar 
Nathan Trent. Quando Dutch descobriu que Ken fora o autor do disparo que matara seu irmo, jurou se vingar. Na ocasio, Ken sentia-se seguro, pois ningum conhecia 
sua verdadeira identidade.
    
    Essa era a razo pela qual no podia contar nada a seus pais ou a Shelby sobre seu passado como agente secreto do Exrcito. No queria coloc-los em uma posio 
que os foraria a mentir. Alm do mais, no podia correr o risco caso cometessem um deslize e contassem a algum. As notcias se espalhavam depressa e Dutch Trent 
poderia descobri-lo. Se isso acontecesse, sua famlia estaria em perigo.
    
    Olho por olho, dente por dente. Esse era o lema de Trent. Apesar de toda a sua crueldade, a lealdade que devotava a seus parentes era admirvel.
    
    Ken enrijeceu sobre a sela da montaria. Um breve sorriso curvou-lhe os lbios e ele forou o corpo a relaxar, enquanto puxava as rdeas do cavalo para conseguir 
uma marcha mais lenta. Embora, parecesse  vontade, todos os seus sentidos estavam atentos ao que se passava ao redor. Um pouco adiante, com a velocidade de um raio, 
puxou a arma e atirou.
    
    Ento, observou o chapu de Nick Summers voar pelos ares.
    
    - Maldio! Ken, essa foi por pouco! - reclamou o amigo erguendo-se atrs de uma rocha. - Por meio centmetro no acertou a minha cabea.
    
    - Ainda bem que voc no se moveu - retrucou Ken com um sorriso convencido, colocando a arma de volta no coldre. - No deveria tentar se esconder do "melhor" 
- vangloriou-se.
    
    - Melhor? Voc? Deve estar enferrujado, isso sim! - Nick deu alguns passos e o conduziu at o acampamento que ele montara horas antes. - Disse  sua famlia 
para onde estava indo?
    
    - No. Falei apenas que tinha negcios para tratar. - Ken desmontou e afrouxou a cilha da sela. - Onde est Trent agora?
    
    - Tudo que sabemos com certeza  que ainda se encontra no Texas. - Nick pegou uma chaleira sobre um pequeno fogareiro e se serviu de uma xcara de caf. - Foi 
visto algum tempo atrs em Sweetwater. L tambm no sabem quem ele , o que faz, ningum quer falar nada. Foi por isso que ns o chamamos. Ningum sabe que voc 
trabalha para o Exrcito. J que no atuo mais sob disfarce, voc pode obter informaes que eu no posso.
    
    Ken lanou a sela sobre os ombros e caminhou at a fogueira.
    
    - Ento, suponho que eu devo ir para Sweetwater.
    
    - Foi o ltimo lugar onde ele foi visto. Parece o lugar mais lgico para se comear. - Fazendo uma careta desgostosa, Nick lanou o resto do caf no cho. - 
Maldio! At hoje no aprendi a fazer caf.
    
    Ken sorriu e encheu uma xcara para si.
    
    -  Voc tem algum plano para descobrir o esconderijo de Trent?
    
    Nick o fitou, ento abriu uma garrafa de rum e tomou um gole.
    
    - Sim, mas voc no vai gostar.
    
    - Deixe que eu decida isso, est bem? - Ken olhou para o amigo e, pela cara dele, concluiu que, de fato, no iria gostar.
    
    - Bem, o que voc descobriu, Weasel? - Dutch pegou uma camisa suja no espaldar de uma cadeira e espanou uma mancha de poeira sobre a mesa.
    
    O outro homem deu uma olhada ao redor da cabana sombria e imunda.
    
    - Voc no costuma limpar a casa?
    
    Dutch Trent soltou uma gargalhada estridente.
    
    -  Ora, essa  boa! Um porco como voc preocupado com limpeza? Alm do mais, no vou ficar aqui o bastante para me preocupar em limpar esta espelunca. - Ele 
caminhou at a cozinha, encheu dois copos de usque e ofereceu um ao outro homem.
    
    - Preciso da sua ajuda. - Embora Dutch no confiasse no sujeito, sabia que Weasel tinha medo dele, logo podia intimid-lo.
    
    - Minha ajuda? Por que eu? O que voc quer? - perguntou, cruzando os braos sobre o trax.
    
    - Quero que fique de olho nos homens em Wyndham e me conte tudo que se passa por l.
    
    - O que devo procurar?
    
    Dutch encarou o homem  sua frente, imaginando se ele ainda no se dera conta do que estava acontecendo. Ningum traa Dutch Trent... ningum.
    
    
   Captulo V
   
    Ken j estivera uma vez na pequena cidade de Sweetwater, Texas, quando trabalhava como agente secreto do Exrcito. No apreciara o local na ocasio e tampouco 
agora. Dando uma olhada ao redor, concluiu que aquela regio inspita, cuja populao consistia, em sua maioria, de fazendeiros imundos, desordeiros e criminosos, 
adequava-se muito bem a Dutch Trent.
    Fazia uma semana que havia chegado. Montado em seu cavalo, com a barba por fazer e uma arma no coldre, ajustava-se com perfeio ao ambiente rido e hostil. 
Ningum lhe dirigia um segundo olhar. Aceitavam-no pelo que parecia ser, Shaw Conners, um fora-da-lei. Podia se movimentar com tranquilidade pelas ruas empoeiradas 
sem ser importunado. Aparentemente, ningum se lembrava do recm-chegado que estivera ali trs anos antes  procura de um ladro de banco que se refugiara na cidade.
    
    Pegou um copo sobre a superfcie arranhada do balco do bar, virou-se e apoiou as costas na madeira spera. De imediato, reconheceu vrios homens que tinham 
seus rostos estampados em cartazes de "procura-se". A maioria deles, quando no estava jogando pquer ou se embebedando, roubava gado ou assaltava bancos.
    
    Enfadado e ansioso por voltar para casa, Ken amaldioou Nick, mas estava determinado a obter as informaes que precisava e sair dali. Com um suspiro resignado, 
voltou-se e fitou o garom, que lavava alguns copos vagarosamente.
    
    - Conhece um sujeito chamado Dutch Trent?
    
    - Quem est perguntando? - indagou o homem, sem tirar os olhos do que estava fazendo.
    
    - Shaw Conners. Fiquei de encontr-lo aqui trs meses atrs, mas no foi possvel.
    
    O garom virou-se e pegou um pano para secar os copos.
    
    - No, no conheo. Ento, no posso ajud-lo.
    
    - Conhece algum que possa? - perguntou Ken, fazendo sinal para que ele enchesse seu copo outra vez.
    
    - Ningum. - O garom fez o que ele pediu e se afastou sem dizer mais nada.
    
    Ken desfiou uma srie de imprecaes em voz baixa, tomou toda a bebida de um s gole e caminhou para fora do saloon. Precisava ir embora daquele lugar imundo 
e ftido, j que no conseguiria encontrar o que de fato viera procurar.
    
    Sem olhar para trs, atravessou a rua em direo ao hotel e foi diretamente para o quarto arrumar seus pertences. Quando colocava a ltima camisa dentro do alforje, 
algum bateu na porta.
    
    A reao dele foi instantnea. Ergueu-se num salto, sacou a arma e preparou-se para abrir.
    
    - Entre.
    
    A porta rangeu lentamente e se abriu. Ken puxou a maaneta e a escancarou. Num movimento rpido, tampou a boca do intruso e conferiu o corredor para se certificar 
de que no se tratava de uma emboscada. Ao perceber o corredor vazio, fechou a porta com o p. Ento, libertou a garganta de uma jovem apavorada e a conduziu at 
a nica cadeira existente no quarto.
    
    -  O que est havendo? Quem  voc? - perguntou Ken, dirigindo-se  janela e puxando a cortina com o cano do revlver.
    
    A mulher parecia abatida e cansada.
    
    - Beth Ann Wilson.
    
    - Bem, Beth Ann Wilson, o que est fazendo aqui? - Ele caminhou at ela, colocou um p na cadeira ao seu lado e apoiou um brao na perna.
    
    - Eu... Voc  o homem que est procurando Dutch Trent?
    
    - E se for?
    
    -  amigo dele? - perguntou a mulher, torcendo as mos com vigor.
    
    - Voc ? - redarguiu Ken, chegando mais perto do rosto dela.
    
    - No... eu... - A jovem o fitou com os lbios trmulos. - No aparenta ser amigo daquele animal.
    
    - O que voc quer, afinal? - Ken endireitou-se, cruzou os braos e a encarou. A moa aparentava ter a mesma idade de Shelby, tinha os cabelos castanho-claros 
presos por uma fita e usava um vestido esfarrapado, mas limpo.
    
    - Ele esteve aqui em Sweetwater h aproximadamente trs meses. - Beth Ann puxou as pontas do manto ao redor dos ombros. - O maldito virou a cidade de pernas 
para o ar, provocando toda sorte de distrbios.
    
    - No soa muito diferente do comportamento de outros arruaceiros que moram neste lugar.
    
    - Mas nenhum outro me estuprou - disse a jovem num fio de voz.
    
    - O qu? - Ken inclinou-se para ouvi-la melhor.
    
    - Ele me estuprou. - A voz de Beth Ann tremeu e as lgrimas de vergonha inundaram-lhe a face.
    
    - Maldio! - Os olhos de Ken se estreitaram ao fit-la. - Voc falou com o xerife?
    
    - Em Sweetwater? - Com uma gargalhada amargurada, ela se levantou e caminhou at a janela. - Esta  uma comunidade pobre, senhor. No podemos pagar muito ao 
xerife. E a lei fica sempre do lado dos poderosos.
    
    - Por que veio me procurar? - Ele se apoiou no batente da porta e cruzou os braos sobre o peito.
    
    - Eu sei para onde ele foi. - A moa se virou de frente. - Para uma cidade ao norte daqui, chamada Willow. Disse que se vingaria de algum que estava lhe devendo.
    
    Ken enrijeceu.
    
    - Willow? Tem certeza?
    
    - Sim. Dutch disse algo sobre acertar as contas com um agente secreto. - Beth caminhou at a porta e parou. - Espero que o encontre e o mate. No quero que meu 
filho saiba quem  o pai dele - acrescentou, levando a mo ao ventre.
    
    -  No se preocupe, eu o pegarei. Voc vai ficar bem? - perguntou Ken pousando uma das mos sobre o ombro dela. - Tem familiares que possam ajud-la?
    
    - No. - Beth Ann afastou-se, orgulhosa.
    
    Ele caminhou at o centro do aposento. Ao ouvir a maaneta girar, gritou:
    
    - Espere. - Ken alcanou seu alforje e retirou um mao de notas. - Pegue isto, arranje um quarto limpo e fique por l. Quando eu prender Trent, virei busc-la.
    
    Beth olhou para o dinheiro.
    
    - Por que est fazendo isso por mim?
    
    - Trabalho para o exrcito do Texas e fui eu quem matou o irmo de Dutch. Sou o agente secreto a quem ele se referiu. De certo modo, devo isso a voc. Ele abriu 
a porta e conferiu o corredor. - Est vazio. Agora, faa o que eu mandei. Estarei de volta assim que tiver capturado Trent.
    
    - Obrigada, senhor.
    
    Ken pde perceber, pela expresso de dvida na face da jovem, que ela no acreditava nele.
    
    - Meu nome  Ken e lhe prometo que voltarei.
    
    Depois que Beth Ann desapareceu ao longo do corredor, ele fechou a porta, caminhou at a janela e a observou deixar o hotel e atravessar para o outro lado da 
rua.
    
    Colocou o alforje sobre o ombro, desceu os degraus pela parte dos fundos e correu para os estbulos. Dutch Trent em Willow? Como esse marginal descobriu quem 
eu sou e onde vivo? Sua famlia e Shelby estavam correndo perigo e no tinham conhecimento. Fora um tolo em esconder dos pais sua ligao com o servio secreto do 
Exrcito. Pelo menos, poderia avis-los a tempo sobre Trent para que tomassem as devidas precaues. Se algo acontecesse a qualquer um deles, no se perdoaria jamais.
    
    Ken voltara e partira outra vez havia quase duas semanas sem trocar uma palavra com ela. Shelby desejou poder correr atrs dele e confessar-lhe que estava arrependida, 
que no quisera culp-lo por seus infortnios, que queria que ele permanecesse no rancho. Mas tivera medo. Queria contar-lhe sobre suas suspeitas e v-lo rir, daquele 
modo que fazia seu corao cantar de alegria e declarar que ela cometera um terrvel engano. Queria ouvi-lo dizer que no conhecia nenhum sujeito chamado Dutch Trent.
    
    Depois que Ken partira pela primeira vez, Shelby percebera por que ele a perturbava tanto. Admitiu, pelo menos para si mesma, que o amava. Que estava completamente 
apaixonada por aquele homem. Como podia acreditar que estivesse envolvido com Dutch? No tinha provas, a no ser suas prprias concluses fantasiosas. Ou era apenas 
seu amor por Ken tentando racionalizar as informaes que havia descoberto?
    
    - Srta. Raines? - A voz de Chuck interrompeu seus pensamentos.
    
    - Oh, sinto muito. O que voc estava dizendo?
    
    - Preciso levar algumas coisas para Slim, que est com o rebanho. Desde que o sr. Caulder partiu, os ladres tm nos mantido muito ocupados. A senhorita ficar 
bem aqui at eu voltar?
    
    - Claro! Sarah no deve demorar muito tempo. - Shelby sorriu. - Pode ir.
    
    - Voltarei logo. - Chuck saiu, montou em seu cavalo e partiu.
    
    Shelby fechou a porta e passou o ferrolho. Era a primeira vez que ficava sozinha desde a visita de Dutch. De alguma maneira, o marginal sabia desse detalhe no 
dia em que viera importun-la. Talvez agora soubesse tambm. As mos dela comearam a tremer. Alcanando o bolso do vestido, sentiu um certo alvio ao tocar o ao 
frio do cano do revlver. Ento, dirigiu-se  cadeira de balano e sentou-se, incapaz de tirar a mo da pequena arma. Jamais se sentira to sozinha quanto naquele 
momento. No havia ningum para ajud-la se ela precisasse. Ningum a quem pedir ajuda.
    
    Para aumentar seus temores, ouviu o som de um cavalo se aproximando. Apertou a arma com fora, e seu corao disparou dentro do peito. Assaltada por um medo 
terrvel, respirou fundo, tentando acalmar os nervos. Mas sua respirao pareceu congelar nos pulmes. Ento, ouviu o rangido de uma carroa de duas rodas e percebeu 
que era Sarah voltando da cidade. Ergueu-se, caminhou at a porta fechada e a abriu.
    
    - Sarah? - Shelby chamou.
    
    - Sim, querida, sou eu.
    
    Shelby ouviu a mulher emitir um som, como se tivesse erguido algo pesado.
    
    - O que voc tem a, Sarah? - perguntou, afastando-se e segurando a porta aberta para deix-la passar.
    
    -  No sei.  algo para Ken. - Sarah ergueu o fardo e o colocou sobre a mesa. - Se eu soubesse que era assim to pesado, teria deixado na cidade at ele voltar. 
- Sarah retornou  carroa e trouxe outro pacote, mais leve, com produtos que havia comprado.
    
    - Fui ao telgrafo ver se Ken tinha enviado um telegrama, mas no havia nada.
    
    - Sarah, voc pode guardar isso para mim? Preciso colher alguns legumes para o guisado de hoje  noite. - Dito isso, Shelby saiu sem esperar resposta.
    
    Caminhou rapidamente em direo ao pomar, at que tropeou e caiu. Claro que Ken no podia enviar um telegrama, ainda estava em Willow... ajudando a roubar o 
gado dela. Mas no suspeitara disso desde o incio? Por que, ento, fora se apaixonar por ele? Tinha comeado a pensar que os sentimentos de Ken estavam mudando. 
Que ele poderia se apaixonar por ela e faz-la feliz como seu pai havia lhe dito. Pensou que Ken tivesse desfrutado tanto quanto ela o beijo que haviam compartilhado.
    
    O que estou fazendo?, pensou, deitando a cabea sobre os braos dobrados. Aqueles dois, provavelmente, deviam estar zombando e rindo  custa dela, e no podia 
fazer nada para evitar isso. Faria alguma diferena se pudesse enxergar? Como saber?
    
    - Sarah, est chegando algum.
    
    - Vou ver quem .
    
    Perdida em pensamentos, Shelby no ouviu ningum entrar na casa, at que a presena intensa e magntica do homem a quem ela amava dominou o ambiente. Nervosa, 
endireitou-se e contorceu os dedos.
    
    - Ento, est de volta? - Precisou fazer um grande esforo para manter a voz firme e controlada, apesar de suas emoes conflitantes. Uma parte de si desejava 
se atirar nos braos fortes de Ken e se perder em seu abrao morno e aconchegante; a outra queria arrancar-lhe os olhos. Quase riu em voz alta do prprio pensamento. 
- Terminou seu negcio?
    
    - Negcio? - indagou ele, aproximando-se devagar.
    
    Shelby sentiu suas defesas desaparecerem, mas estava determinada a no permitir que Ken a intimidasse. Ele fizera sua escolha, e ela no iria interferir nisso. 
Afinal, Ken no sabia dos seus sentimentos por ele.
    
    - O negcio que voc tinha a tratar, lembra? - Sentiu-se orgulhosa de sua habilidade para controlar o tremor da voz.
    
    - O nego... Oh, sim. Ainda no terminei totalmente - disse Ken aproximando-se ainda mais. - No vamos falar de negcio agora.
    
    - Onde est Sarah? - No confiava em si mesma, ficando sozinha com ele.
    
    - No jardim.
    
    De repente, em uma atitude inesperada, Ken tomou-a nos braos e seus lbios ardentes e possessivos cobriram os dela. Atordoada, Shelby no teve tempo para det-lo, 
antes de comear a se derreter de encontro quele peito largo. Segundos depois, perdeu o controle sobre as prprias mos, que exploravam com avidez a robustez do 
trax, a nuca e os cabelos de Ken, Sentia-se tonta e inebriada. Sua cabea rodava com o efeito devastador daquele contato.
    
    Vagarosamente, ele deslizou a mo para dentro do decote de Shelby e envolveu-lhe um dos seios. O mamilo rosado enrijeceu sob o toque dos dedos geis, que o friccionavam 
num ritmo lento e torturante. Uma sensao indescritvel a dominou, lanando labaredas de desejo por todo o seu corpo. Uma dor urgente e maravilhosa apossou-se de 
seu ventre quando a outra mo de Ken ergueu-lhe a barra da saia e tocou-a entre as coxas.
    
    - Oh, Shelby, eu quero voc - sussurrou ele, beijando-lhe os cantos da boca. - Pensei em voc todos os minutos em que estive fora. - Seus lbios se uniram outra 
vez num beijo ardente.
    
    O que estava fazendo?, Shelby perguntou-se.
    
    Ela no o conhecia realmente. Queria confiar em Ken, mas como podia, se desconfiava que estivesse envolvido na morte de seu pai?
    
    To rpido quanto respondera s carcias dele, Shelby enrijeceu e se afastou.
    
    - Por que voc voltou? - perguntou, movendo-se para trs da cadeira e puxando a saia para baixo.
    
    - Fiquei preocupado com voc. Queria ter certeza de que estava bem.
    
    - E por que eu no estaria? E por que agora, depois de um ms? Por acaso teve um ataque de conscincia a meu respeito? - Ela apertou o espaldar da cadeira at 
seus dedos doerem, desejando que a excitao que a consumia se dissipasse.
    
    - Acredite, eu no posso explicar isso por enquanto. - Ken caminhou at a porta e parou. - Estou partindo novamente. Assim que resolver essa situao, voltarei.
    
    - Por que no some e me deixa em paz? - disse Shelby cruzando os braos sobre o peito.
    
    - No se preocupe, mocinha, quando eu voltar, ser apenas para cuidar do rancho, nada mais. - Ele virou-se e saiu.
    
    A cada passo que Ken dava, Shelby podia sentir seu corao partindo-se em milhes de pedaos. Ao ouvir a batida forte da porta, deslizou at o cho e deixou 
escapar um suspiro angustiado. Na volta de Ken, no haveria mais nada para ele tomar conta. Ela cuidaria disso.
    
    Quando Ken entrara na cabana, Shelby estava to bonita ou mais do que antes. E quando a beijara, tivera a sensao de estar flutuando. No havia sido apenas 
pelo beijo e pelo modo como ela correspondera. Ao pux-la para junto de si, sentira o corao de Shelby acelerar, e soubera que ela estava experimentando tanto prazer 
quanto ele.
    
    Droga, ficara to contente ao v-la! No sabia por qu. Sim, sabia. Sentira terrivelmente a falta de Shelby... Do rosto delicado, do sorriso encantador e do 
som de sua risada. Maldio, sentira falta at mesmo de sua teimosia. Mas, de alguma maneira, uma vez mais, se comportara de modo desagradvel e pusera tudo a perder.
    
    Com aquela investigao mantendo-o afastado de Shelby e do rancho, no era de admirar que ela ficasse brava e no compreendesse a ausncia dele. Como podia, 
em s conscincia, esperar que Shelby lhe desse as boas-vindas? Por certo, esperava algum tipo de explicao.
    
    Pensativo, Ken reduziu a marcha da montaria. Precisava fazer alguma coisa. Quanto mais tempo ficasse afastado, mais difcil seria reparar o dano que j havia 
causado.
    
    Uma vez na cidade, caminhou ao longo da ruela empoeirada, at chegar ao lugar onde Nick o encontraria. No precisou esperar muito tempo, antes de ver o amigo 
virar a esquina e tirar um cigarro do bolso da camisa.
    
    - Descobriu alguma coisa? - perguntou Ken, aceitando o cigarro que Nick lhe ofereceu.
    
    - Nada importante. H dois estranhos na cidade, mas no penso que algum deles seja Trent.
    
    Ken tragou o cigarro e olhou ao longo da ruela.
    
    - Acha que podem estar trabalhando para ele?
    
    - Parecem ser do tipo. Dizem que so empregados em um dos ranchos locais, mas na maioria do tempo so vistos no bar bebendo. - Nick jogou a bituca do cigarro 
no cho e o pisou com a ponta da bota. - Vou fazer algumas incurses ao p das colinas e ver se encontro algum sinal de um acampamento.
    
    - Vou com voc. Se no encontrarmos nada no prazo de uma semana, voltamos e esperamos que ele venha at ns.
    
    - Como estava a mocinha esta manh?
    
    - No quero falar sobre esse assunto. Shelby no  mais problema meu. Sou responsvel apenas pelo rancho dela. - Ken endireitou-se da fria parede de pedra onde 
se encontrava apoiado. - Vou buscar outro cavalo e poderemos partir.
    
    Nick sorriu enquanto o observava se afastar. Mal conseguia esperar para conhecer essa tal de Shelby. Para afetar Ken Caulder daquela maneira, devia ser uma mulher 
muito especial.
    
    Quando Shelby ouvira a porta bater, foi como se seu mundo desmoronasse. Ken levara consigo o frescor das flores e o calor do sol, roubando-lhe todo o ar dos 
pulmes. Tudo que restou era um grande vazio. Desde que ele chegara ao rancho, revirou sua vida de ponta-cabea.
    
    Como pudera permitir que Ken penetrasse em sua alma e a enchesse de nsia e desejo? Aquele homem a fizera acreditar que tudo era possvel. Como deixara aquilo 
acontecer? Talvez porque no tivesse foras para det-lo.
    
    - Shelby? - Sarah irrompeu pela porta. - Para onde foi Ken? Por que partiu to cedo? No me disse sequer adeus.
    
    Ela se afastou de Sarah, fingindo interesse na cesta de roupas que estava costurando.
    
    - Ele disse que no havia terminado seu trabalho ainda, mas que voltaria to logo o conclusse.
    
    - Sem se despedir? - insistiu a me de Ken.
    
    -  Ken estava com pressa e pediu que eu lhe explicasse o motivo da sua sbita partida. - Shelby detestava mentir e odiou Ken por obrig-la a faz-lo.
    
    - Quanto tempo ficar fora?
    
    - No sei - respondeu Shelby, evasiva, jogando a blusa que costurava para o lado. - Estou precisando de ar fresco. - Ergueu-se e, apressada, contou os passos 
em direo  porta.
    
    L fora, tomou a direo do curral e recostou-se na cerca, ouvindo o som familiar do sino da vaca-leiteira.
    
    - Oh, Pimenta, o que vou fazer? Eu o amo muito. Como poderei conviver com ele dia aps dia, nutrindo essas terrveis suspeitas sobre o seu carter? - Fungou, 
limpando as lgrimas que rolavam pela face. - Sei que preciso de algum que me ajude a tocar o rancho. E quem mais alm de Ken?
    
    Shelby limpou as lgrimas na manga da blusa, desejando que secassem e levassem com elas toda a sua angstia.
    
    - Gostaria que me dissesse o que fazer, mas sei que terei de resolver isso sozinha. Preciso deixar de lado o corao e seguir com a minha vida. Se Ken soubesse 
dos meus sentimentos por ele, acharia que estou louca. - E com um sorriso triste acrescentou: - Por certo se me visse aqui parada, conversando com uma vaca, teria 
certeza disso.
    
    Sentia o peito oprimido pelo medo e angstia. Se o roubo do gado no a destrusse, os segredos e as dvidas o fariam.
    
    Ken rastejou pelo cho em direo ao vozerio que vinha de trs das rvores. Os ps descalos pisavam as folhas secas e pedras do caminho. Arrastou-se at um 
toco. Ergueu a cabea e perscrutou o cenrio. Tudo que viu foi um grupo de homens sentados em torno de uma fogueira, tomando caf.
    
    Soltou uma imprecao. Era apenas um grupo de vaqueiros descansando.                           
    
    Esperando que Nick tivesse tido mais sorte do que ele, refez o caminho de volta. Quando chegou ao local onde deixara suas botas, calou-as, montou no cavalo 
e disparou pelo campo.
    
    Ao alcanar o local onde estavam acampados, encontrou o amigo sentado com uma caneca de caf na mo e um coelho assando no fogo que ele mesmo acendera. Pela 
expresso de seu rosto, tambm no lograra xito.
    
    - Presumo que tambm no conseguiu nada - disse Ken, observando o semblante desanimado do parceiro.
    
    Nick meneou a cabea em negativa.
    
    - Nada - declarou, atirando contra as chamas o resto de caf que estava na caneca. Em seguida, se ergueu e caminhou at o assado para vir-lo. - Acha que Dutch 
saiu da cidade?
    
    - No sem antes conseguir seu intento: matar-me. - Ken desarreou o cavalo e colocou a sela prximo  fogueira.
    
    - J estamos aqui h uma semana e nem sinal dele ou dos seus homens - disse Nick. - Por quanto tempo ainda rondaremos por estes campos?
    
    - No mais - respondeu Ken, sentando-se no cho, ao lado da sela. - Amanh pela manh rumaremos para o Rancho Raines e esperaremos que Dutch venha ao nosso encontro.
    
    - E se ele no o fizer? - perguntou o amigo, oferecendo-lhe uma caneca de caf com uma boa dose de usque.
    
    - Dutch vir. Eu matei o irmo dele, lembra-se? - Ken tomou um grande gole da bebida. - Dutch se mantm informado dos meus movimentos durante todo o tempo.
    
    - E quanto a Shelby? Ela corre perigo.
    
    - Por isso quero que voc me acompanhe. Para que possamos mant-la sob as nossas vistas. - Ken o fitou por sob a aba do chapu. - Na verdade, se ele quisesse 
feri-la, j o teria feito.
    
    - Vai contar a ela quem somos?
    
    - No. Shelby sabe que frequentei a faculdade. Direi que  de l que nos conhecemos.
    
    Enquanto Nick se ocupava do assado, Ken recostou-se na sela, fitando o firmamento.
    
    O que Shelby estaria fazendo naquele momento? Se bem a conhecia, estaria amassando po ou costurando roupa.
    
    Quando entrara na cabana, antes de partir, e a vira sentada ali, parecendo-lhe mais bonita do que nunca, tudo em que pensou foi torn-la nos braos, experimentar 
a doura daqueles lbios e senti-la fundir-se ao seu corpo. E ela correspondera com todo o ardor.
    
    Ento, por que se mostrara to furiosa no momento seguinte? Pensou em todas as possibilidades, detendo-se em uma. E se Dutch Trent a tivesse usando, sob ameaa, 
como isca para chegar a ele? No, Shelby teria dado um jeito de preveni-lo. Suspirou, exasperado. Aquele era um mistrio que teria de esperar para descobrir.
    
    Voltou o olhar para o amigo e notou que ele o fitava de um modo estranho. Assim que Nick conhecesse Shelby, iria compreender a situao. Descobriria a mulher 
extraordinria que ela era e entenderia seu humor.
    
    Nas primeiras horas da manh, dirigiram-se ao rancho. Quando l chegaram, Ken avistou Shelby absorta em suas tarefas dirias e percebeu que ela ouvira o trote 
dos cavalos.
    
    Observando as faces rosadas e os cabelos loiros caindo em cascata por sobre os ombros delicados, ele imaginou o que Shelby estaria escondendo a respeito da morte 
do pai. Parecia muito inocente para ser uma assassina. Tampouco agia como tal.
    
    - Vejo que se trata de uma beldade - declarou Nick alternando o olhar entre os dois.
    
    - Mas teimosa como uma mula - retrucou Ken com sarcasmo, sem desviar o olhar de Shelby.
    
    - Finalmente est de volta! - gritou Sarah do porto.
    
    - Ol, mame. Como esto as coisas por aqui? - indagou Ken enquanto desmontava.
    
    - Est tudo bem, querido. -- Mas a ateno da me estava focada em seu parceiro.
    
    - Deixe-me apresent-la a um amigo de faculdade. Nick Summers.
    
    Sarah ergueu os olhos para o filho.
    
    - Nunca mencionou nenhum amigo da poca de estudante - disse Sarah, caminhando em direo ao soldado. - Sr. Summers.  um prazer conhecer um dos amigos de meu 
filho - cumprimentou-o, estendendo-lhe a mo. - Ele  sempre muito reservado quanto  sua vida pessoal.
    
    - Sra. Caulder. - Sorrindo, Nick aceitou o cumprimento. - O prazer  todo meu.
    
    - Shelby! - chamou Sarah. - Venha conhecer um amigo de Ken, o sr. Summers. - Dirigiu-se at ela, tomou-lhe o brao e a guiou at Nick.
    
    - Como vai, sr. Summers? - cumprimentou Shelby, estendendo a mo.
    
    - Srta. Raines - retribuiu Nick.
    
    S ento Ken se deu conta, ao notar os olhos arregalados do amigo, de que deveria t-lo prevenido a respeito da deficincia visual de Shelby. Por vezes esquecia 
desse detalhe.
    
    - Suponho que seu amigo no lhe contou que sou cega - disse ela ao perceber o silncio constrangedor.
    
    - No... Na verdade... no - gaguejou ele, tomado de surpresa. - Falou-me muito sobre a senhorita, mas no mencionou o fato.
    
    - Acho que j me acostumei com a sua cegueira - interveio Ken. - E esqueo que isso pode causar surpresa aos outros. - Estava sendo sincero. Nunca pensava na 
deficincia de Shelby como algo que deveria ser mencionado s pessoas.
    
    - Ele no lhe contou por que est me ajudando no rancho? Ken desejava no conhec-la to bem. Podia perceber, por seu semblante tenso, que Shelby estava interpretando 
seu constrangimento como vergonha de revelar que ela era cega.
    
    - Apenas que seu pai faleceu e estava precisando de ajuda para tocar o rancho.
    
    - Foi o que imaginei. - Ela ofereceu-lhe o brao. - J tomou seu desjejum, sr. Summers? Quando vocs chegaram, estava prestes a preparar o caf da manh - disse 
Shelby, colocando um ponto final no assunto constrangedor. Parecia ignorar a presena de Ken.
    
    Ele lanou um olhar furioso ao amigo, mas Nick estava to encantado com a beleza de Shelby que se lhe atirasse pedras ele no perceberia. Danao! Shelby lhe 
pertencia. No importava se a relao entre ambos estava estremecida. Ele a amava e no permitiria que ningum se interpusesse em seu caminho.
    
    Dutch Trent lanou um olhar glido para Weasel, que se encontrava parado no meio da sala.
    
    - Que diabo quer dizer com isso?
    
    - Sa para verificar o que eles estavam fazendo e descobri que foram embora.
    
    - Para onde?
    
    - No sei, chefe. J tinham partido quando cheguei. O rebanho permanecia no local, mas os homens no.
    
    Dutch caminhou at a porta e observou a paisagem. Sabia onde os dois se encontravam. Em breve descobririam o que significava cruzar seu caminho.
    
    Duas semanas depois, Ken estava sentado  cabeceira da mesa, observando Shelby e Nick conversarem como velhos conhecidos. Empurrou o prato para o lado com mais 
fora do que o necessrio.
    
    - Vocs parecem dispor de tempo para ficar conversando o dia todo, mas eu tenho muito trabalho a fazer.
    
    - Ainda no terminamos o desjejum - Shelby declarou em tom seco.
    
    - O que seria impossvel, j que no param de falar. - Ergueu-se num impulso, disparou pela cozinha e bateu a porta atrs de si.
    
    Os dois ficaram surpresos.
    
    - Ken est certo - disse Shelby. - Tambm tenho muito a fazer. - Dizendo isso, se levantou e levou os pratos sujos para a pia.
    
    Ken estava selando o cavalo quando Nick se juntou a ele.
    
    - Que cena emocionante acabei de presenciar! - provocou-o o amigo com sarcasmo. - Eu e Shelby ficamos amigos. Ela  uma mulher extraordinria.
    
    - E teimosa, detestvel e...
    
    - E voc a ama.
    
    Ken lanou-lhe um olhar furioso.
    
    - Fique longe dela.
    
    -  S se a dama me pedir - retrucou Nick, montando no cavalo que Ken acabara de selar.
    
    Depois que ele se afastou, Ken ficou pensativo alguns instantes e ento disparou a passos largos em direo  casa. Escancarou a porta e perscrutou a sala  
procura de Shelby.
    
    - O que houve? - A voz abafada vinha do quarto.
    
    Ken dirigiu-se ao aposento, irrompendo pela porta sem ao menos bater.
    
    - O que pensa que est fazendo? - inquiriu Shelby, encostando um vestido limpo ao peito desnudo.
    
    Ele cobriu a distncia que os separava.
    
    - Eu  que lhe pergunto.
    
    - No est vendo? Derrubei a jarra de suco na minha saia e estou trocando de roupa.
    
    - No se faa de inocente! Quero saber o que est fazendo com Nick - vociferou entre dentes. - Diga-me o que fazem quando no estou presente.
    
    - Saia daqui agora mesmo! - ordenou Shelby com os olhos rasos d'gua.
    
    Mas Ken no obedeceu.
    
    - Por acaso ele a beija assim? - Puxou-a para si e roou os lbios nos dela. - Ele a faz sentir o mesmo que sente quando eu a toco? - Sua mo se apossou de um 
seio.
    
    No momento em que o mamilo enrijeceu ao contato, Ken percebeu que havia cometido um erro, mas sabia que era tarde demais para recuar. Estava perdido na urgncia 
de possu-la. Como se dotados de vontade prpria, os dedos longos e firmes desataram o lao que prendia a saia de Shelby, fazendo a pea deslizar para o cho. A 
pele suave como ptala de rosa parecia incendiar-se com suas carcias.
    
    Um gemido rouco que emergiu da garganta de Shelby elevou o estado de excitao de Ken a um ponto insuportvel.
    
    O corao dela batia descompassado enquanto os dedos msculos traavam uma linha de fogo ao longo de sua espinha. O corpo feminino tremia contra a mo que o 
explorava. Cada centmetro da pele de Shelby estava vivo e ansiando por mais.
    
    Perdida na excitao provocada pelas carcias de Ken, ela desejou explorar o corpo viril da mesma forma que ele a estava explorando.
    
    Deslizando as mos pela pele quente de Ken, memorizou cada grupamento muscular e os filamentos nervosos que se encrespavam sob as mos delicadas. Os batimentos 
cardacos acelerados e a respirao ofegante dele a faziam ansiar por um contato mais ntimo.
    
    Ken apertou-a contra o prprio corpo excitado, fazendo-a ciente da ereo vigorosa. Shelby desejava que as sensaes que aquela proximidade provocava se prolongassem 
para sempre.
    
    No momento seguinte, sentiu-se erguida no ar e carregada at a cama. Ken a colocou sobre o lenol e em seguida deitou-se a seu lado, puxando-a para si. Shelby 
aconchegou-se ao corpo msculo, temendo perder o contato com a fonte de seu prazer. Toc-lo parecia to certo e natural...
    
    A entrega de Shelby acendeu uma chama de desejo que Ken nunca experimentara antes de conhec-la. Os beijos sedentos lhe imploravam por mais, e ele estava disposto 
a lhe dar o que ela necessitava. A pele alva e quente parecia suplicar por seu toque. Quando circundou com o dedo o contorno do mamilo rijo, Shelby arqueou o corpo 
em sua direo. Inclinando os lbios sobre o seio farto, Ken sugou-o com avidez. As mos fortes sempre se movendo, explorando cada milmetro do corpo feminino.
    
    Escorregou a mo pelo ventre macio, porm se deteve, sentindo a prpria excitao crescer a um nvel intolervel. Contraiu a mandbula, temendo perder o controle. 
No queria apressar a primeira vez de Shelby, embora ela se mostrasse pronta para receb-lo. Com um movimento lento, Ken moveu-se para se postar entre as coxas trmulas 
enquanto continuava a beij-la no pescoo, colo e seios.
    
    A resposta de Shelby foi imediata. Ao sentir o membro rijo tentar abrir caminho  procura de suas profundezas, afastou as pernas num convite sensual.
    
    Ken ergueu a cabea para encar-la.
    
    - Tem certeza de que  isso que deseja?
    
    - No pare - suplicou ela. - Por favor, no pare agora.
    
    Ele tomou-lhe os lbios num beijo profundo e exigente. Controlar o prprio desejo era a coisa mais difcil que fizera na vida. Com movimentos vagarosos e delicados, 
penetrou no calor da intimidade feminina, rompendo-lhe a virgindade. Um beijo apaixonado abafou o gemido de dor que Shelby emitiu. Quando ela comeou a mover os 
quadris, Ken acompanhou-lhe os movimentos, deixando que Shelby ditasse o ritmo.
    
    Ela nunca experimentara uma sensao to maravilhosa. Nem a dor momentnea dirimiu o desejo que a consumia. Queria perpetuar aquele momento... mas, ainda assim, 
ansiava por mais. Era como se almejasse algo ainda mais prazeroso, embora no soubesse o que era. S tinha certeza de uma coisa: apenas Ken poderia lhe proporcionar 
o que quer que fosse que ela necessitava.
    
    Como se atendesse  sua nsia, ele comeou a intensificar os movimentos, ao mesmo tempo em que lhe sugava e massageava os mamilos. Surpresa, Shelby sentiu perder 
o controle do prprio corpo, que agora se movimentava num ritmo frentico at ser sacudido por espasmos de prazer. Com um grito abafado, cravou as unhas nos ombros 
largos, entregando-se  sensao alucinante.
    
    Ento sentiu que Ken tambm se abandonara ao prprio prazer.
    
    Lgrimas de emoo banharam-lhe a face.
    
    - Shelby?
    
    - Nunca experimentei algo to maravilhoso - ela sussurrou com um fio de voz.
    
    - Eu no tinha a inteno de que isso acontecesse...
    
    - Mas aconteceu e no me arrependo - declarou Shelby, acariciando-lhe o queixo largo. Podia sentir a tenso da mandbula de Ken sob a palma da mo. O silncio 
que se seguiu lhe revelou mais do que mil palavras. Dor e raiva comearam a ditar os movimentos de Shelby, que o afastou com um empurro.
    
    - Saia agora - murmurou, virando-se para o lado e puxando o lenol para se cobrir.
    
    - Shelby, eu...
    
    - No diga nada. V embora - suplicou, rezando para que a angstia que sentia no transparecesse em sua voz.
    
    - Eu no posso sair e deix-la desse jeito.
    
    - Por favor. Preciso ficar sozinha.
    
    Ouviu os movimentos de Ken enquanto se vestia e depois os passos se afastarem.
    
    - Estarei l fora, se precisar de mim - disse ele, estacando quando alcanou a porta.
    
    Ken no percebia que ela precisava dele naquele momento? Que desejava ouvi-lo dizer que fazer amor com ela havia sido maravilhoso?
    
    Quando fechou a porta, Ken sentiu a dor e a humilhao envolv-lo inexoravelmente. Nunca permitira que o corao ditasse suas aes. Mas tampouco conhecera algum 
como Shelby antes. Aquela mulher tinha o poder de faz-lo perder a razo. Tudo que conseguira fora tirar vantagem de uma doce e inocente menina. Como poderia viver 
com aquele sentimento de culpa?
    
    
   Captulo VI
   
    Ken deteve-se no topo da colina, observando Nick encostado na cerca do curral. Esperava que o amigo nunca ficasse sabendo que acusara Shelby de estar tendo um 
caso com ele. Tampouco o que acontecera depois. Era estranho como quase jogara anos de amizade pela janela por puro cime. Nick sabia de seus sentimentos pela dona 
do rancho e jamais tomaria qualquer liberdade com ela.
    
    O que fizera havia sido injustificvel. Deixara-se levar pelo cime. Nos ltimos dias, Shelby o ignorara por completo e sempre que podia evitava sua presena. 
Passava a maior parte do tempo conversando com Nick.
    
    Ao olhar para o amigo recostado na cerca do curral, fumando um cigarro, percebeu o comportamento ridculo que tivera ao amea-lo caso se aproximasse de Shelby. 
Primeiro, exigira que ele se afastasse dela, e logo depois lhe pedira para que a vigiasse. Parecia estar perdendo o controle de suas aes. Ele mesmo se sentia confuso 
com toda aquela situao. O simples pensar em Shelby deixava-lhe o corpo excitado e a mente em turbilho.
    
    Soltou uma imprecao. Naquele momento tinha outras coisas com que se preocupar. Desceu a colina a galope, encaminhando-se para o curral. Quando o avistou, Nick 
jogou o cigarro fora e lanou-lhe um olhar srio.
    
    Ken desmontou com um movimento brusco e informou:
    
    - O gado de Shelby continua desaparecendo. 
    
    O amigo se empertigou.
    
    - Descobriu alguma coisa?
    
    - No. Os bandidos so espertos. Roubam poucas cabeas de cada vez. Conseguem passar com os animais sem serem vistos. - Tirou o chapu e passou as mos pelos 
cabelos. - Ou eles carregam o gado j abatido, ou algum vai atrs apagando os rastros.
    
    - Vou selar um cavalo para procurarmos enquanto  possvel que haja sinais recentes. - Nick abriu a cerca e assoviou para o seu cavalo.
    
    - Obrigado. Vou at a casa avisar Shelby que vamos sair por um tempo. - Ken colocou o chapu na cabea e saiu pisando fundo. Se tinha de encar-la, que fosse 
o mais rpido possvel.
    
    Quando entrou na sala, quase perdeu o equilbrio ao ser atingido pelo impacto da beleza de Shelby. No conseguia desviar o olhar das curvas perfeitas. Sentiu 
o corao pulsar na garganta e um calor intenso se irradiar pela virilha, at que o frio tom de voz feminino cortasse o ar como uma faca.
    
    Shelby tensionou o corpo quando percebeu os passos que reverberavam no cho de madeira. A fragrncia almiscarada que seguia Ken inundou-lhe as narinas. Podia 
sentir os olhos dele pousados nos seus. Apesar da dor e da raiva, o corpo insistia em lhe trair as emoes. O corao batia descompassado e um misto de prazer e 
agonia dividia-lhe a alma. Mas no cederia aos encantos daquele homem. J o havia deixado ir longe demais.
    
    Ergueu o queixo em atitude desafiadora, levando as mos  cintura.
    
    - O que voc quer? - No instante que proferiu as palavras, Shelby desejou engoli-las de volta. No queria que ele percebesse o quanto a afetava. - O que o trouxe 
aqui no meio do dia? - perguntou, dando-lhe as costas, sem esperar por resposta.
    
    Mas, de repente, sentiu os dedos msculos lhe segurarem o brao e, uma frao de segundo depois, o calor dos lbios macios de Ken nos seus.
    
    O beijo era profundo e exigente. A boca mida e quente exigia uma resposta. Sem pensar nas consequncias, Shelby se rendeu ao poder que Ken exercia sobre ela. 
O sangue lhe corria apressado nas veias, lanando fagulhas por todo o seu corpo. Envolta no sabor daquele homem magnfico, no se deu conta de que ele havia interrompido 
o beijo.
    
    Uma sensao de impotncia misturada a uma profunda irritao tomou conta de Shelby. Como permitira que aquilo acontecesse de novo? Cerrou o punho e desferiu 
um soco no estmago de Ken. Ouviu o gemido dele.
    
    - Oh... Deus... que fora voc tem!
    
    Shelby moveu-se ligeira em torno da mesa, colocando o mvel entre eles.
    
    - Nunca mais se atreva a fazer isso!
    
    Ken continuava a gemer. Ela contornou a mesa outra vez, caminhando em sua direo.
    
    Ele se afastou com um movimento brusco.
    
    - Voc est ferido? No tive a inteno de machuc-lo.
    
    - O que deu em voc? - perguntou Ken, furioso.
    
    - Tem coragem de me perguntar isso depois do que fez?
    
    - Pelo que me lembro, voc correspondeu com grande satisfao.
    
    - Saia. Quero ficar sozinha.
    
    - Shelby...
    
    - Por favor.
    
    Ela se curvou sobre a mesa quando ouviu o som da porta se fechando atrs de si. Grossas lgrimas lhe desciam pela face rubra. Por que o mandara embora daquela 
maneira? Ansiava por seu abrao aconchegante, seu beijo sensual e possessivo. Queria fazer amor com aquele homem at que ambos ficassem exauridos. Ento, por que 
motivo insistia em afast-lo? Por que no podia aceitar o que ele tinha para oferecer?
    
    Porque a dor de perd-lo seria insuportvel. E aquilo era um fato. Os planos de Ken para o futuro no a incluam. O silncio que a envolvia era o mais solitrio 
que j sentira.
    
    - Onde foi que se meteu? - perguntou Ken, quando Nick se materializou a seu lado no bar.
    
    - Estava verificando se o cartaz anunciando a procura de Dutch j havia chegado.
    
    - E?
    
    - Nada.
    
    Ken soltou uma imprecao.           
    
    Percebendo a expresso exasperada do amigo, Nick lhe bateu nas costas.
    
    - Vejo que voc e Shelby andaram discutindo.
    
    - Foi mais do que uma discusso. Eu diria uma verdadeira guerra - afirmou Ken, e tomou um gole da cerveja que estava  sua frente. Detestava o modo com que se 
portara. Por outro lado, a imagem de Shelby nua em seus braos no lhe abandonava a mente. Nunca desejara tanto uma mulher.
    
    - Ento pare de agir como um troglodita quando est com ela - sugeriu o amigo, tomando um gole da prpria bebida.
    
    Ken ficou em silncio. Nick tinha razo. Toda vez que se aproximava de Shelby, parecia perder a razo. Seus pensamentos se voltaram para o imenso embrulho pousado 
sobre a mesa. O presente que comprara para ela.
    
    - Comprei isso para Shelby.
    
    - timo - afirmou o amigo. - Pode lhe entregar assim que chegarmos.
    
    - No. Quero que voc o faa por mim.
    
    Nick dirigiu um olhar perplexo ao amigo.
    
    - Eu? Por qu?
    
    - Ela gosta de voc.
    
    - Mas ama voc.
    
    Ken meneou a cabea em negativa.
    
    - Acho que voc ficou no sol por muito tempo e queimou os miolos. Shelby Raines  uma mulher teimosa. Tudo o que quer  que eu suma da vida dela.
    
    - Est completamente enganado - argumentou Nick. - Mas se  isso que deseja, assim farei.
    
    - Obrigado - agradeceu Ken e esvaziou o copo.
    
    
    
    Shelby largou a tina vazia e esfregou as costas. A saia mida pesava na cintura e colava em seus ps. A lama formada pela terra molhada aderia ao tecido.
    
    Aquele era o tipo de trabalho para o qual necessitava de ajuda. Cada viagem que fazia at o pomar com a tina cheia de gua lhe custava um grande esforo. Como 
sempre, Ken no estava presente quando ela mais precisava. Nos ltimos dias necessitava dele com muita frequncia, mas aquilo no tinha nada a ver com suas tarefas 
domsticas...
    
    Esticou as costas, desejando no estar to temerosa das novas emoes que estava experimentando. No tinha com quem dividi-las, ou mesmo se aconselhar, e ao 
que parecia, seus instintos no a estavam ajudando a obter respostas para os sentimentos contraditrios que lhe iam no ntimo. Quando Ken estava presente, ela queria 
que se afastasse e se aproximasse ao mesmo tempo. E quando ele partia, ansiava por v-lo retornar.
    
    Empertigou o corpo ao ouvir o tropel dos cavalos, mas logo relaxou ao reconhecer as vozes familiares dos dois amigos. Pendurou a tina em uma cavilha prxima 
 casa e sacudiu a lama dos ps, enquanto se apressava em direo  voz que a chamava.
    
    - Shelby, onde... Oh, a est voc! - disse Nick, caminhando em sua direo. - Venha. Tenho algo para lhe dar.
    
    - O que ?
    
    - Surpresa.
    
    Ela se deixou levar pelo soldado sem dizer mais nada. Quando entraram na casa, Shelby estacou.
    
    - Espere. Minha roupa est imunda. Preciso troc-la.
    
    - Est bem, mas se apresse - pediu Nick, soltando-lhe a mo.
    
    Ela sorriu. Era melhor lhe fazer a vontade. Pela animao na voz do amigo de Ken, a surpresa devia ser boa. Disparou em direo ao prprio quarto e voltou cinco 
minutos mais tarde.
    
    - Fui rpida o bastante?
    
    - Perfeita. Sente-se aqui - sugeriu Nick, empurrando uma cadeira para perto dela.
    
    Shelby obedeceu e cruzou os braos sobre o colo.
    
    - Onde est Ken?
    
    - L fora, cuidando de algumas tarefas.
    
    - Oh. - No sabia dizer se o que sentia era alvio ou desapontamento.
    
    - Est pronta? - perguntou Nick, tomando-lhe a mo e pousando-a sobre a grande caixa que se encontrava no cho ao lado da cadeira.
    
    - O que ?
    
    - Vamos abrir e ento saber.
    
    Juntos desembrulharam a embalagem. Shelby introduziu a mo dentro da caixa e ergueu um pesado livro. Tentou disfarar sua decepo na expresso da face delicada, 
mas o tom de voz a traa.
    
    - Um livro. Mas eu no posso ler - pousou-o na mesa. - Desculpe-me, porm no vejo como este presente possa ser til para mim.
    
    Nick sorriu.
    
    - Mas este  um livro especial. - Abriu o volume e colocou-o sobre o colo de Shelby. - Passe a mo pela folha e sinta.
    
    - Um livro com pequenos relevos!
    
    - Esses sinais chamam-se alfabeto braile - informou ele. - Desenvolvido por um homem chamado Louis Braiile para ensinar os cegos a ler.
    
    Ela pareceu congelar. Com um toque hesitante, passou a mo pela folha do livro mais uma vez.
    
    - Est querendo dizer que poderei ler? Como? No consigo entender.
    
    - No se preocupe. Eu a ensinarei. - Nick enfiou a mo na caixa e pegou outros volumes. - Aqui esto outros livros que vo ajud-la a aprender.
    
    Shelby estendeu a mo para pegar o exemplar.
    
    - Quando? Podemos comear agora? 
    
    O soldado deu uma gargalhada.
    
    - Acho que sim.
    
    Duas horas mais tarde, Nick se ergueu e espreguiou-se.
    
    - Acho que basta por hoje, no?
    
    - Oh... que pena! - reclamou Shelby. Depois se levantou num impulso. - Deus! Esqueci que preciso preparar o jantar.
    
    - Posso ajud-la? - ele se ofereceu, juntando os livros num canto da mesa.
    
    - Por que no vai avisar Ken que o jantar ficar pronto em uma hora? - Dito isso, colocou o avental e dirigiu-se ao fogo.
    
    Shelby no se lembrava da ltima vez em que se sentira to feliz com alguma coisa. Mostraria a Ken e a todos que conhecia que seria capaz de aprender rpido 
e em pouco tempo estaria lendo livros e jornais. De repente, sua alegria acabou. De que adiantaria aprender se s poderia ler o que estivesse naqueles livros?
    
    Da janela, Ken sorriu ao ver a felicidade estampada no rosto de Shelby. Aprender a ler abriria as portas de um novo mundo para ela. Alm disso, a manteria ocupada 
enquanto ele estivesse tentando encontrar Dutch.
    
    Quando Nick comeou a ensinar o mtodo de leitura para Shelby, Ken saiu da janela e dirigiu-se ao celeiro, desejando estar no lugar do amigo. Mas no confiava 
em si mesmo. Se estivesse l, estaria lhe ensinando outra coisa...
    
    Algumas horas mais tarde, ele ouviu a porta da casa se abrir e fechar.
    
    - Est precisando de ajuda? - indagou Nick, aparecendo na porta do celeiro.
    
    - Como foi com a leitura? - quis saber Ken, ignorando a pergunta do amigo.
    
    -  Shelby  uma pessoa extraordinria. Estou certo de que aprender rpido. - Recostou-se na porta. - Mas ainda acho que deveria dizer que o presente foi seu.
    
    -  Ela no estaria to entusiasmada se soubesse que fui eu quem lhe deu os livros - retrucou Ken, sem interromper o trabalho que realizava. Shelby no teria 
o mesmo progresso se o professor fosse ele, j que no conseguira tirar as mos daquele corpo talhado para o prazer.
    
    - Voc no passa de um tolo, meu amigo. - Nick meneou a cabea num gesto de reprovao. - Ela mandou lhe dizer que o jantar estar pronto em uma hora. - Virou-se 
e saiu, deixando Ken afogado na prpria agonia.
    
    Nick estava dizendo aquilo porque desconhecia o que acontecera entre os dois. E o perigo que Shelby corria se ficasse a ss com ele.
    
    Ela o mandara embora mais de uma vez. Teria sido melhor se tivesse lhe obedecido. Agora era tarde demais. No conseguiria deix-la.
    
    Com Nick, Shelby estaria segura. No s em relao a ele, Kent, mas tambm a Dutch Trent. Aquele assassino faria de tudo para se vingar. Inclusive atingir as 
pessoas que lhe eram caras.
    
    Isso o fez lembrar de algo que precisava fazer o mais rpido possvel. Contaria a seus pais o que fizera durante os dez anos que estivera fora. Afinal, eles 
possuam um rancho cheio de homens capazes de os proteger caso seu inimigo tentasse atingi-los.
    
    Os trs sentaram-se em torno da mesa de jantar em silncio. Nick fitava Ken com um olhar inquisitivo. Talvez estivesse pensando o que causara a sbita mudana 
no humor de Shelby. Ela parecia bastante taciturna para quem estivera to animada algumas horas antes.
    
    Sua simples presena a deixava incomodada, pensou Ken.  
    
    - Nick... - Shelby falou, hesitante, mexendo-se no assento.
    
    - Sim?
    
    Ela cruzou os braos sobre o colo.
    
    - Ser uma perda de tempo me ensinar a ler.
    
    - No diga bobagens - interveio Ken. Nick lanou um olhar de reprovao ao amigo.
    
    - Por qu? H pouco estava to entusiasmada com a perspectiva de aprender a leitura.
    
    - Sim, mas depois me dei conta de que no ter utilidade para mim - argumentou Shelby, voltando o olhar para o soldado. - Sou muito grata pelo presente, mas 
no poderei utiliz-lo.
    
    - A que est se referindo? - perguntou Ken, recostando-se na cadeira. Embora surpreso com a reao dela, sentia-se aliviado pelo motivo da sbita mudana de 
humor no estar relacionada com ele.
    
    - Aprenderei o mtodo braile e depois no terei nada para ler - declarou Shelby, no conseguindo esconder o desapontamento.
    
    Os dois homens se entreolharam, sorrindo. Nick clareou a garganta e se levantou da mesa.
    
    - Estou entendo o seu ponto de vista. Mas talvez eu possa ajud-la. - Afastou o prato de Shelby e colocou um grande livro no lugar. - Aqui est algo que por 
certo ir interess-la.
    
    Ela passou a mo sobre a capa de couro.
    
    - Um livro escrito em braile?
    
    - Sim - concordou Nick. - E se intitula Ivanhoe. Shelby ofegou, arregalando os olhos. Os dedos delicados pareciam acariciar a capa do exemplar.
    
    - Meu pai costumava l-lo para min.
    
    - Agora vai poder faz-lo sozinha. - Nick lhe tocou a mo. Ela se ergueu e atirou-se nos braos do soldado.
    
    - Oh, Nick... muito obrigada! - Seus olhos encheram-se de lgrimas. - Nunca esquecerei o seu gesto.
    
    O rosto dele se iluminou num sorriso.
    
    - De onde veio este ainda h muitos outros. Eles a mantero ocupada por um bom tempo.
    
    Ken observava a cena com o corao contrito, pois sabia que estava empurrando Shelby para o amigo. O corao lhe pedia para pr um fim quele tormento, mas a 
razo o aconselhava a deixar as coisas como estavam. Seria melhor para ela.
    
    Isso, porm, no significava que devesse ficar ali, assistindo ao enlevo dos dois.
    
    Ergueu-se num impulso, puxando a cadeira para trs com um forte rudo.
    
    - Vou deix-los a ss. Tenho algo importante a fazer. Quando chegou ao celeiro, maldisse a si mesmo. Acabara de jogar Shelby nos braos de Nick. Em uma coisa 
o amigo tinha razo. Ele a amava. No tinha mais como negar a verdade.
    
    Ken entrou no escritrio do pai como um autmato, seus pensamentos dirigidos a Shelby. Esperava que no fosse tarde para eles quando a questo com Trent fosse 
resolvida.
    
    Bill pousou o jornal que estava lendo.
    
    - O que o traz aqui a esta hora da noite?
    
    - Tenho algo importante para lhe dizer. - Ken serviu-se de um drinque e ofereceu outro ao pai, que declinou. Em seguida tomou assento em uma cadeira em frente 
 mesa de Bill.
    
    - Minha inteno era contar para o senhor e a mame juntos, mas acho melhor que decida se deve contar a ela.
    
    Bill inclinou-se para a frente, cruzando as mos sobre a mesa com um olhar tenso.
    
    - O que houve? Est tudo bem com Shelby? 
    
    Ken fitou o pai com determinao.
    
    - Ela est bem. - Limpou a garganta e passou as mos pelos cabelos. - Mas o que vou lhe contar pode afet-la.
    
    - Est me deixando preocupado, filho.
    
    - No sem motivo. - Ken tomou um gole do usque. - Todos esses anos em que estive fora no mantive contato por medo de que algum descobrisse a identidade de 
vocs e isso os expusesse ao perigo. Tambm no podia escrever, pois temia que tomassem conhecimento do endereo de meus pais. No queria envolv-los nos meus problemas.
    
    - Pelo rumo que esta conversa est tomando, aceitarei o drinque que me ofereceu.
    
    O prprio Bill se serviu de uma dose e voltou ao seu lugar.
    
    - Acho que sei o que ir revelar. - Encarou o filho, suspirando fundo. - Voc  um caador de recompensas. No  isso?
    
    Um sorriso cnico curvou os lbios de Ken.
    
    - Ento mame lhe contou? - Bill anuiu, e Ken continuou: - Coloquei um cartaz com o rosto de um bandido procurado e algemas no meu ba para que ela pensasse 
dessa forma. Pelo menos por enquanto. - Arqueou uma sobrancelha, analisando o semblante do pai. - Na verdade eu sou, ou pelo menos era, um soldado do exrcito do 
Texas durante todos esses anos.
    
    Demorou alguns instantes para que Bill absorvesse a informa-co. Quando, por fim, compreendeu a magnitude da revelao do filho, recostou-se na cadeira. Os olhos 
radiantes de orgulho iluminavam o rosto cansado.
    
    - Um soldado do Texas! - repetiu em tom pomposo. - Que notcia maravilhosa!
    
    - Pai, escute. No pode contar a ningum sobre isso. - Ken ergueu-se e pegou os copos para tornar a ench-los.
    
    - Mas por qu? Isso  motivo de orgulho para mim e para sua me - declarou o pai, parecendo confuso.
    
    - Ainda no lhe revelei tudo - disse Ken, oferecendo o copo a Bill e tomando um gole do seu. - Trabalhei disfarado. Eu era um agente secreto. Apenas Nick e 
o nosso superior imediato conhecem o meu nome de batismo. Para todo o mundo, eu me chamava Shaw Conners.
    
    Bill o escutava atento. Ken podia notar a expresso de arrependimento no rosto do pai. Sabia que ele estava pensando nas condies que lhe impusera para que 
tomasse conta de Caulderwood.
    
    - Quando voltei para c, j estava afastado do Exrcito. Porm h algumas semanas Nick apareceu com uma mensagem. Eu fui convocado para uma ltima misso. - 
Sentou-se e estendeu as pernas  frente, tentando relaxar. - Prender um bandido chamado Dutch Trent, cujo irmo eu matei num tiroteio entre ns e a quadrilha deles.
    
    - E onde est esse homem? - indagou Bill, sorvendo o ltimo gole do usque. - Ele sabe do seu paradeiro?
    
    - Na verdade, sim. Est aqui em Willow.
    
    - Isso no quer dizer que saiba que voc mora aqui.
    
    - Por que outro motivo Trent estaria trabalhando nessas paragens? Ele tem certeza de que eu estou aqui. S no sei se Dutch tem conhecimento da identidade de 
vocs. - Ken encarou o olhar preocupado de Bill. - E por isso que resolvi lhe contar a verdade. Quero que tome precaues caso ele descubra quem so vocs.
    
    - E quanto a Shelby? Ao que parece, ela  quem est correndo mais perigo.
    
    Ken cerrou as plpebras, tomando flego.
    
    - Ela me contou algo, quando a encontrei naquele dia em que ficou perdida na floresta. O ladro do gado  a mesma pessoa que matou Ed. Mas Shelby no sabe da 
minha conexo com Trent.
    
    - Diabo, Ken! Voc precisa contar tudo a ela. - Vociferou Bill, batendo com o punho na mesa.
    
    - Acha que eu deixaria que alguma coisa de ruim acontecesse com Shelby? Ela est segura com Nick. - Passou a mo pelos cabelos. - Em que isso iria ajud-la? 
No h nada que Shelby possa fazer se souber a verdade.
    
    - Desculpe, filho. Acho que tem razo. No h motivo para alarm-la. - Bill suspirou fundo. - Mas acho que sua me deveria saber.
    
    - Deixarei isso por sua conta. - Ken se ergueu e colocou o chapu. - Preciso voltar para o rancho.
    
    - Est certo - concordou seu pai, levantando-se e batendo de leve nas costas do filho. - Tome cuidado.
    
    
    
    Shelby suspirou, deleitada.
    
    - Eu posso ler, Nick.
    
    O soldado sorriu de seu entusiasmo.
    
    - Bem, pelo menos o alfabeto. Ler palavras inteiras  um pouco mais complicado, mas com tanta perseverana e inteligncia, aprender em pouco tempo - dizendo 
isso, ergueu-se, empurrando a cadeira para o lado. - Estamos estudando h horas. No podemos fazer um intervalo?
    
    - Tem razo - concordou ela. Arrumou os livros para um lado da mesa. - Tenho negligenciado minhas tarefas domsticas devido ao estudo. - Arregaou as mangas 
da blusa e se encaminhou  cozinha. Instantes depois, retornou com uma tina vazia em uma das mos.
    
    - Vou fazer uma torta de mas para a sobremesa do jantar. Nick lhe tomou a tina das mos e ambos se dirigiram ao pomar. Shelby ouviu o som de marteladas vindo 
do curral e sentiu a pulsao acelerar.
    
    Com o peito desnudo, Ken ajoelhou-se em frente ao portal de entrada do curral. Desviou o olhar do que estava fazendo quando ouviu as risadas alegres de Nick 
e Shelby. Era difcil testemunhar a camaradagem dos dois crescer a cada dia.
    
    De forma displicente, desceu o martelo sobre o prego que fixava no portal e acabou por acertar o prprio dedo.
    
    Com uma imprecao, levou o dedo  boca, enquanto observava Shelby e Nick colherem mas.
    
    Dirigiu-se ao poo e encheu uma tina com gua. Derramou parte do contedo sobre a cabea e mergulhou o dedo machucado na gua, na tentativa de abrandar a dor.
    
    - Como conseguiu fazer isso? - a voz de Nick soou atrs dele.
    
    Ken retirou o dedo da tina, suspirando, exasperado.
    
    - No foi nada. - O amigo se recostou no poo.
    
    - Por que no vai falar com ela? Quase explode de raiva ao ver-nos juntos e, no entanto, toda essa situao foi idia sua.
    
    Ken deu alguns passos  frente, postando-se ao lado do amigo, mas mantendo os olhos fixos em Shelby.
    
    - Ela no me quer aqui. E se soubesse no que estou metido, me expulsaria  bala - afirmou, sorrindo. - Sabe que a ensinei a atirar?
    
    Nick o fitou, incrdulo.
    
    - Como assim?
    
    - Por meio da audio, Shelby pode atirar em qualquer coisa que se mova. Depois da morte de Ed, concordamos que ela precisava fazer algo para se proteger. Eu 
no intencionava lhe ensinar a manusear uma arma, mas Shelby no se conformou com menos.
    
    - E como ela sabe que no est atirando na pessoa errada? 
    
    Ken sorriu, orgulhoso, enquanto voltava  tarefa inacabada com o amigo em seu encalo.
    
    - Da prxima vez que se aproximar de Shelby, faa-o em silncio e ver.
    
    Quando ele a conhecera, tinha o mesmo ceticismo de Nick, mas o perdera depois de algum tempo de convvio.
    
    - Como vo as aulas de leitura? - perguntou Ken, mudando de assunto.
    
    - timas. Ela  inteligente e perspicaz. Aprender rpido. - Ken se ajoelhou e pegou o martelo que largara no cho.
    
    - Shelby  perseverante em tudo que faz. - Nick observou-a no pomar.
    
    - Meu instinto diz que h algo de estranho se passando com ela. Parece estar sempre sobressaltada, esperando que alguma coisa acontea.
    
    - Ficou bastante traumatizada com a morte do pai.  natural que se sinta assim.
    
    - Tem razo - ponderou Nick.
    
    - Shelby sabe que o mesmo homem que matou o pai est lhe roubando o gado - informou Ken.
    
    - Pense bem - comeou Nick, com expresso pensativa. - Por que Trent viria at aqui matar Ed a sangue-frio? Ns dois sabemos que Dutch mata por vingana ou mesmo 
por traio, mas nunca por pura diverso.
    
    - Acha que ele conhecia Ed Raines?
    
    - Isso explicaria muita coisa, no  mesmo? Ela pode estar escondendo algo de ns.
    
    Ken se voltou para fitar Shelby.
    
    - Sim. - Fechou os olhos, inspirando fundo. - Se Dutch  o assassino de Ed, ento ela est correndo grande perigo. Nunca me senti to frustrado com um caso nem 
to emocionalmente envolvido, mas...
    
    - Voc a ama - completou Nick.
    
    Ken o fitou com expresso preocupada e depois voltou ao trabalho.
    
    Em todos os anos que estivera no Exrcito, nunca enfrentara uma situao como aquela. Sua segurana sempre dependera de si mesmo. Mas agora a vida das pessoas 
que amava estava em suas mos. Se ao menos pudesse se concentrar na misso que precisava executar e parar de pensar na tarde de amor que tivera com Shelby...
    
    Sentia-se desapontado consigo mesmo por deixar as emoes porem em risco a segurana de todos.
    
    
    Shelby suspeitava de que os dois homens estivessem conversando sobre ela. Estaria Ken contando ao amigo o que acontecera entre eles? Que estava arrependido de 
ter feito amor com ela? Por outro lado, o que esperava que Ken fizesse? Que lhe jurasse amor eterno e lhe propusesse casamento? Como fora tola! Desde o incio ele 
deixara claro que no tinha a inteno de permanecer ali.
    
    Ouviu o som de passos se aproximando.
    
    - Por que est to calado, Nick? - Shelby indagou, sorrindo.
    
    - Como sabia que era eu? - Ele pegou a tina repleta de mas.
    
    Os dois se dirigiram  casa, caminhando lado a lado.
    
    - Cada pessoa tem seu jeito prprio de andar e seu odor caracterstico.
    
    - Nunca prestei ateno a esse fato.
    
    - Porque nunca precisou. Ns, cegos, temos que nos concentrar nessas caractersticas para reconhecer as pessoas.
    
    Quando entraram na casa, Shelby dirigiu-se  cozinha.
    
    - Coloque a tina sobre a mesa. - Em seguida, virou-se para a pia e deu um grito ao ouvir o som de um copo de vidro se quebrando.
    
    Nick correu para acudi-la.
    
    - Deixe-me cuidar disso.
    
    - No h necessidade. Fui eu quem deixou o copo no lugar errado. - Ajoelhou-se, estendendo a mo para a frente  procura dos cacos. Sentiu uma dor aguda no dedo 
ao esbarrar num estilhao do copo.- Ai!
    
    -  O que foi? - perguntou Nick, tomando-lhe a mo machucada.
    
    - Tudo bem. Eu deveria ser mais cuidadosa.
    
    - Por Deus, Shelby! O que aconteceu? - gritou Ken, enquanto entrava na casa, correndo em sua direo. - Ouvi voc gritar. - Segurou-a pelo brao e a ergueu. 
Em seguida, puxou uma cadeira para que ela se sentasse.
    
    - A culpa foi minha - manifestou-se Nick.
    
    -  Foi apenas um copo que quebrou - assegurou Shelby, constrangida por estar sendo o centro das atenes.
    
    - Voc no viu o bendito copo? - vociferou Ken. Shelby no podia crer que ele fizera semelhante pergunta.
    
    - Claro que no. O que voc acha?
    
    - No estou me referindo a voc - retrucou Ken, furioso.
    
    - Se eu tivesse visto, teria evitado o que aconteceu - retrucou o amigo no mesmo tom de voz.
    
    - No v que a est assustando?
    
    Como podia acusar Nick quando fora ele que entrara na casa rugindo como um leo? Exatamente como seu pai no dia em que fora assassinado. Shelby cerrou as plpebras, 
levando a mo ao revlver, que estava no bolso de seu avental.
    
    - Agora sou eu quem a est aborrecendo? Foi voc que entrou aqui gritando e gesticulando como um louco.
    
    Os dois homens gritavam, ignorando a presena de Shelby. Ela apontou a arma para o telhado e disparou. O estampido forte foi seguido de uma chuva de reboco.
    
    - Calem-se os dois! - ordenou, apontando o revlver para cima. - O corte no meu dedo foi um acidente. No foi culpa de ningum. Agora saiam daqui para que eu 
possa preparar o jantar.
    
    Shelby permaneceu imvel at ouvir o som dos passos se afastando.
    
    Como fora capaz de atirar no teto de novo? Que papel vergonhoso fizera!
    
    Suspirou fundo, tentando relaxar. Quando ouviu o tropel do cavalo de Ken se afastando da propriedade, correu at a porta e percebeu Nick se aproximando.
    
    - Aonde ele foi?
    
    - Tinha um servio a fazer, mas disse que voltar a tempo de jantar - informou o soldado.
    
    - Ken ficou zangado comigo? - indagou Shelby, sentindo-se uma idiota por ter disparado o revlver.
    
    - Por que ele estaria aborrecido com voc?
    
    - Pelo modo como me comportei. Agora Ken ter de consertar o telhado de novo.
    
    - No diga bobagens. Ns dois bem que merecemos aquilo. Shelby virou-se para entrar na casa com Nick em seu encalo.
    
    - Agora que tudo passou, estou achando at engraado - declarou ele, sorrindo.
    
    Shelby o fitou com ternura. Aquele quase desconhecido estava sendo to bom para ela!
    
    - Voc se importaria de colher os ovos para mim, j que estou to atrasada com o jantar?
    
    Quando Nick saiu para fazer o que ela pedira, Shelby suspirou, entristecida. Sabia que sua reao fora intempestiva e infantil, mas no a pudera evitar. Quando 
os dois homens comearam a gritar, sua mente voltou no tempo, nas inmeras vezes em que seu pai gritava, chamando-a de estpida e incapaz. Embora agora soubesse 
que ele s desejava seu bem, as lembranas ainda a machucavam. Se tivesse algum com quem conversar e perguntar que atitude deveria tomar... No, pensou. Seria muito 
arriscado. Sabia que todas as aes de Ed tinham como objetivo proteg-la. Assim como faria com a memria dele.
    
    Enquanto se afastava do rancho a cavalo, Ken pensava no que acabara de acontecer. Tudo que conseguira com sua atitude grosseira fora assustar Shelby e ter de 
consertar o telhado de novo.
    
    Tudo que desejava era am-la e ser amado por ela, mas, pelo rumo dos acontecimentos, acabaria baleado por aquela mulher intempestiva.
    
    Ao atravessar os portes de Caulderwood, observou um grupo de homens reunidos em frente ao curral. Alguns lhe eram estranhos. Nunca os vira por aquelas redondezas.
    
    A porta da frente da casa se abriu e Sarah saiu com um sorriso luminoso estampado no rosto. Em seguida, atirou-se nos braos do filho. Enquanto entravam, a me 
no parava de falar.
    
    - Estou to feliz que tenha vindo. Seu pai me contou sobre o seu trabalho no Exrcito. Sinto-me muito orgulhosa de voc.
    
    Ken sorriu, depositando um beijo na testa de Sarah.
    
    - Obrigado, mas tenho algo importante a dizer a vocs. Onde est papai?
    
    - No escritrio.
    
    Bill se encontrava inclinado sobre a mesa, absorto diante de alguns papis.
    
    - Veja quem est aqui! - anunciou Sarah.
    
    -  Ol, filho - cumprimentou Bill, erguendo o olhar para fit-lo.
    
    - Vou providenciar um caf para vocs - disse a me desaparecendo pela porta.
    
    - Algo errado? - perguntou Ken, observando a expresso preocupada com que o pai analisava os papis  sua frente.
    
    - Mais cem cabeas de gado foram roubadas - informou Hill, passando as mos pelos cabelos. - Tenho mantido vigias junto ao rebanho o tempo todo. Contratei at 
alguns homens para reforar a guarda.
    
    - Quando cheguei, notei alguns deles prximos ao curral - disse Ken em tom casual. As olheiras profundas denunciavam o cansao e o abatimento de seu pai. Tinha 
de resolver aquela questo com Trent o mais rpido possvel, pensou Ken, consternado. - E os vizinhos no viram nada?
    
    Bill apoiou os cotovelos sobre a superfcie lisa da mesa.
    
    - A  que reside o mistrio. Ningum percebeu nenhum movimento estranho.
    
    Ken levantou-se e enfiou as mos nos bolsos.
    
    - Parece o modo de agir de Trent. Mas mesmo ele no seria capaz de roubar o gado debaixo do nariz dos vigias. Acha possvel que tenha colocado algum comparsa 
aqui dentro? Talvez um desses homens que contratou?
    
    O pai o encarou com olhar srio.
    
    - Pode ser. Os dois homens que empreguei por ltimo so novos nas redondezas.
    
    Ken caminhou at a lareira e pousou o brao sobre a cornija.
    
    - No deixe transparecer que desconfia de alguma coisa. Pelo menos por enquanto. Vou traar um plano para acabar com essa histria de uma vez por todas.
    
    - Esto discutindo negcios? - Sarah entrou no escritrio trazendo uma bandeja com caf e bolo de chocolate. Pousou-a sobre a mesa e serviu uma xcara ao filho.
    
    -  Vim at aqui para preveni-los do pior - declarou Ken, aceitando a bebida que lhe fora oferecida. - Agora que sabem da minha ligao com o Exrcito, temo que 
estejam correndo perigo. - Pousou a xcara sem tocar no caf. - Algo me diz que as coisas vo piorar enquanto no prendermos Trent.
    
    - Quem  esse? - perguntou Sarah, franzindo o cenho. Com um longo suspiro, Ken tomou assento em uma cadeira e inteirou a me de toda a histria.
    
    
    
    Ken dirigiu-se ao curral e fez um gesto para que Nick o seguisse.
    
    -  Surgiram mais problemas - declarou, desmontando de modo que o cavalo ficasse postado entre eles e Shelby. - Mais cem cabeas de gado foram roubadas. - Olhou 
por sobre o ombro para ver se ela estava prxima o bastante para escutar. No havia necessidade de assust-la. Esperaria at que ele e Nick resolvessem o problema 
e a poria a par do que acontecera. - Temos que traar um plano de ao. - disse, entrando no curral com o amigo a seu lado.
    
    - J pensou em alguma estratgia? - indagou Nick.
    
    - No. - Ken suspirou, sentindo-se frustrado.
    
    - Acho que vou at a cidade beber algo e ver se penso em alguma soluo - disse o amigo.
    
    - Est bem.
    
    - Enquanto estou fora, procure agir de modo civilizado com Shelby.
    
    Ken sorriu, meneando a cabea. Em seguida ajudou o amigo a montar e o observou afastar-se.
    
    Shelby continuava absorta em sua tarefa. Retirava as peas de roupa ensaboadas de uma tina e as mergulhava em outra com gua limpa.
    
    Ergueu os olhos assim que Ken estacou a seu lado.
    
    - Voltou cedo - disse ela, quebrando o silncio.
    
    Ele se recostou no poo, prximo de onde estavam as tinas. Sorriu, observando o rosto afogueado de traos perfeitos.
    
    - Deixe-me ajud-la.
    
    Shelby no desviou o olhar da camisa que estava esfregando.
    
    - Para onde foi Nick?
    
    - Dar uma volta na cidade. - Ken mergulhou as mos na gua com sabo. Quando as ergueu, agradeceu o fato de Shelby no enxergar.
    
    Sentiu um rubor intenso lhe aflorar  face. Entre os dedos segurava uma pea ntima feminina.
    
    - Desistiu de me ajudar? - questionou ela, diante do silncio constrangedor de Ken.
    
    - Eu... claro que no. - Mergulhou a pea com tanta fora de volta  tina que acabou por espalhar gua para todos os lados.
    
    -  Ken! - exclamou Shelby, dando um salto. Em seguida irrompeu em uma gargalhada. - No precisa ser to rude. As roupas j esto lavadas,  s enxaguar.
    
    O fogo que lhe queimava a face se intensificou.
    
    - Desculpe - murmurou Ken, encabulado.
    
    No sabia o que estava acontecendo com ele. O bravo soldado do exrcito do Texas, que enfrentara os mais perigosos bandidos, corava como um adolescente ao tocar 
uma pea ntima feminina.
    
    Enxaguou a lingerie e a colocou na outra tina.
    
    - Como vo as aulas de leitura? - perguntou ele, tentando desviar a mente dos pensamentos pecaminosos que o assaltavam.
    
    - Maravilhosas. - O rosto delicado se iluminou num sorriso encantador. - Nunca pensei que um dia pudesse ler - disse Shelby, enquanto esfregava os punhos de 
outra camisa de Ken. -  como se o mundo se descortinasse  minha frente. Tudo graas a Nick.
    Ken sentiu o corao flutuar de orgulho e contentamento. No importava a quem ela creditasse sua alegria. Tudo o que lhe interessava era a felicidade de Shelby.
    
    - Ele me contou que voc est aprendendo rpido. Deve ser difcil ler em braile.
    
    - Nick  um timo professor. Por que no se junta a ns na prxima aula?
    
    Observando o rosto animado de Shelby, Ken no pde deixar de conjeturar se existiria algo mais belo no mundo. A brisa suave roava-lhe os cabelos, cujo dourado 
se intensificava sob os raios do sol. Incapaz de conter o impulso, Ken estendeu a mo para toc-los. Os dedos longos encostaram na face corada. Deslizou a mo pela 
nuca desnuda, puxou Shelby para si e cobriu-lhe os lbios com um beijo suave e demorado.
    
    Shelby estava ciente do que viria a seguir, mas quando sentiu o roar da mo mscula em sua face, descobriu-se impotente diante da enxurrada de emoes que se 
mesclavam em seu ntimo.
    
    Sentiu o brao musculoso enlaar-lhe a cintura e capitulou, deixando-se levar pela excitao que aquela proximidade provocava.
    
    Um arrepio de puro xtase lhe perpassava a cabea e se movia como uma onda gigante at a ponta dos ps.
    
    Sentiu a temperatura do corpo se elevar, e um calor intenso foi se alojar no centro de sua feminilidade.
    
    Quando pensou que fosse explodir de paixo, sentiu o corpo trmulo alado e carregado para dentro da casa.
    
    Uma vez na intimidade do lar, Shelby arrancou os sapatos, enquanto ambos se encaminhavam, apressados, para o quarto. Ela estendeu a mo e puxou a camisa de Ken, 
arrebentando-lhe os botes. Em seguida, comeou a despir a prpria roupa.
    
    - Ajude-me - suplicou Shelby.
    
    No precisou falar mais nada para ouvir a respirao ofegante de Ken enquanto a despia com avidez.
    
    Quando se livrou da roupa, Shelby se encostou ao corpo viril desnudo, deleitando-se com o calor que dele emanava. Era como estar no Paraso. Sem mais delongas, 
deslizou as mos, que lhe serviam de viso, pelo peito musculoso, ao mesmo tempo em que ouvia o gemido gutural que emergia da garganta de Ken.
    
    Ele nunca sentira tanto desejo por uma mulher. Com um movimento suave, deitou-a sobre a cama e explorou o corpo delgado com as mos e os lbios. Saboreava cada 
centmetro de Shelby. Seus dedos pareciam estar por todo lugar, provocando-a at que ela ficasse pronta para receb-lo.
    
    Shelby cravou as unhas nas costas largas, abrindo-se num convite sensual. Desejava ser possuda por Ken, at que seus corpos se fundissem em um s.
    
    Parecendo adivinhar-lhe os pensamentos, ele se preparou para penetr-la.
    
    Shelby envolveu-lhe a nuca com as mos, puxando-o para si e sentindo os lbios sensuais de Ken lhe envolverem a boca num beijo explorador.
    
    Ela erguia os quadris com movimentos frenticos para lhe facilitar a penetrao. Em instantes, o ritmo que Ken imprimira comeou a se intensificar. Shelby pensou 
que fosse perder a sanidade, e uma onda de espasmos sacudiu seu corpo, levando-a ao clmax.
    
    Por fim, ela conseguiu normalizar a respirao. Sentiu as mos msculas ainda a lhe explorar o corpo, e ofegou quando Ken lhe tomou um dos mamilos com os lbios 
e o sugou com avidez.
    
    A onda de desejo que havia pouco a invadira voltou com fora redobrada. Dessa vez se amaram terna e lentamente. A cada palavra sussurrada, a cada carcia sensual, 
Shelby se sentia mais apaixonada por Ken.       
    
    
   Captulo VII
   
    - Acredita que Trent tem homens em Caulderwood? - Ken coou o queixo, pensativo. - Aqueles no parecem muito espertos.
    
    - Concordo - afirmou Nick, reclinando-se na cadeira encostada  parede e estendendo uma perna por sobre a cama de Ken. - Mas posso apostar minha vida que so 
homens dele. Acho que na nsia por vingana, Dutch est comeando a cometer erros.
    
    -  melhor no o subestimarmos. S porque seus homens cometeram alguns erros, no quer dizer que Trent os far. Minha maior preocupao no momento  com meus 
pais.
    
    - E Shelby?
    
    Ken empurrou o p do amigo e sentou-se na cama.
    
    - No acho que ela esteja correndo perigo. Ele no arriscar me procurar aqui. Est esperando que eu v ao seu encontro.
    
    Nick ergueu-se e se dirigiu  porta do pequeno aposento.
    
    - Preciso ir. Prometi continuar as lies de Shelby esta noite. Quer juntar-se a ns?
    
    Um sorriso amarelo curvou os lbios perfeitos de Ken.
    
    - No seria uma boa idia.
    
    O amigo meneou a cabea, sorrindo.
    
    - No consigo entend-lo. Mas faa como desejar. At logo.
    
    Depois que Nick partiu, Ken deteve-se a fitar a porta, pensativo. No podia contar para o parceiro o que acontecera entre ele e Shelby. A tarde de amor que tiveram 
nem o prazer que compartilharam. Era melhor que o amigo pensasse que eles apenas brigavam quando estavam a ss.
    
    Levantou-se e comeou a andar pelo quarto. Soltou uma imprecao. Ficar longe dela era uma tortura.
    
    Pegou o chapu e saiu para a brisa fresca da noite. Ouviu risos vindo da casa. Seus ps pareceram adquirir vida prpria, guiando-o em direo  voz da mulher 
amada. Parado na penumbra, perscrutou atravs da porta entreaberta. Sorriu ao vislumbrar a alegria de Shelby ao soletrar as palavras.
    
    De repente, ela estacou, reclinando-se na cadeira.
    
    - Por que no vem juntar-se a ns?
    
    Surpreso, Ken olhou em volta para se certificar de que Shelby no estava falando com outra pessoa. Hesitante, deu um passo  frente e parou.
    
    Ela se remexeu no assento.
    
    - Venha, Ken. Por favor.
    
    Nick comprimiu os olhos, alternando o olhar entre a escurido do lado de fora e Shelby. O amigo tinha muito que aprender sobre ela. No compreendia o sexto sentido 
que os deficientes visuais possuam.
    
    - Est bem. - Ken entrou na sala com passos vagarosos, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado deles.
    
    - Vamos mostrar a Ken seu progresso. - Nick pegou um dos livros em cima da mesa e o estendeu para Shelby.
    
    Ela abriu-o na primeira pgina e, passando as mos em cima, leu de forma lenta, mas precisa, as palavras que sentia com o tato.
    
    Ken desejou lhe dizer o quanto estava orgulhoso com seu progresso. A face delicada tinha uma expresso radiante, e ele podia jurar que divisava um certo rubor 
nela. Devia estar se lembrando da tarde que passaram juntos. O pensamento o fez remexer-se na cadeira.
    
    - Eu o estou entediando? - perguntou Shelby.
    
    - Claro que no. Gosto de ouvir o som da sua voz.
    
    - Na verdade, sou eu que estou cansada - declarou ela, fechando o livro. - Se no se importam, vou me deitar. Algum de vocs quer mais torta de ma?
    
    - No. - Ambos responderam quase em unssono.
    - Ento, boa noite. - Shelby dirigiu-se ao prprio quarto. Depois que ela saiu do aposento, Ken sorriu para o amigo.
    
    - Est fazendo um belo trabalho.
    
    - O mrito  todo de Shelby. Tem uma fora de vontade invejvel que a faz triunfar.
    
    Ken pegou um dos livros e o folheou.
    
    - Por que no lhe conta a verdade? - indagou o amigo. - Por que  to cabea-dura? Se no quer dizer o que sente por ela, no menos podia inform-la de que foi 
voc que lhe comprou estes livros.
    
    - No seja ridculo. No importa quem os deu. O primordial e que Shelby aprenda a ler.
    
    - Voc  um tolo! - afirmou Nick, erguendo-se e retirando-se em seguida.
    
    - Ken. - A voz de Shelby soou atrs dele.
    
    - Pensei que tivesse ido dormir.
    
    - Por que no me contou? - Ela se aproximou, fechando a distncia entre ambos. - Por que me deixou acreditar que os livros haviam sido presente de Nick?
    
    Ken passou as mos pelos cabelos, exasperado - Isso no tem a menor importncia. 
    
    - Para mim, tem - declarou Shelby, cruzando os braos sobre o peito, como se esperasse uma resposta mais consistente.
    
    - Achei que gostaria de aprender a ler e os comprei - disse ele, pegando o chapu sobre a mesa e colocando-o na cabea. - Apenas isso.
    
    - Por que teve um gesto to gentil para comigo depois do modo como o tratei? - indagou Shelby, aproximando-se mais ainda.
    
    Ken podia sentir o doce aroma de floral. Depois do que acontecera aquela tarde, seria melhor afastar-se dela, ou Nick acabaria descobrindo o que se passava entre 
eles.
    
    - Isso no tem importncia agora. Preciso ir. Amanh terei um longo dia pela frente.
    
    Shelby sorriu, radiante, depois que a porta se fechou. Ken no era o obstinado que queria parecer. Provara isso com aquele gesto.
    
    Deixou-se cair em uma cadeira. Por que era to difcil resistir ao amor? Ken tornara essa faanha ainda mais rdua, dando-lhe as palavras como presente. Se ele 
ao menos pudesse lhe dar a nica coisa que ela queria ouvir...
    
    Ele nunca lhe dissera que a amava. Naquela tarde, no fizera amor com ela. Apenas sexo.
    
    Suspirou, exasperada. Ela, Shelby Nicole Raines, se apaixonara por um homem que a estava usando e que em breve iria partir.
    
    
    
    - No admito traio! - Os olhos frios de Trent tinham um brilho metlico enquanto fitava os dois homens  sua frente.
    
    - Mas... chefe. Sabe que os traramos para voc. - Um deles tentava se defender.
    
    Dutch exibiu um sorriso sarcstico?
    
    -  mesmo? Quando?
    
    O outro se manifestou com voz trmula:
    
    - Esta noite. Quando no estivssemos montando guarda para os Caulder.
    
    O bandido coou o queixo.
    
    - No ser necessrio. - Deu alguns passos em direo aos homens. - Descobri onde vocs os tinham escondido e os levei para junto do resto do rebanho roubado.
    
    - Obrigado, chefe - disse um deles. - Poupou-nos o trabalho.
    
    - No h de qu - respondeu Dutch, que empunhou o revlver e disparou.
    
    
    
    Galopando lado a lado em direo ao rancho Caulderwood, Nick e Ken puxaram as rdeas dos cavalos, estacando ao mesmo tempo quando ouviram os disparos.
    
    Ken olhou em volta, tentando ouvir de onde vinham.
    
    - Que direo? - perguntou Nick.
    
    - Acho que dali - respondeu, apontando para o oeste. - Vamos.
    
    Os dois soldados puseram-se a galope. Nuvens de poeira erguiam-se sob os cascos dos animais. Um medo crescente tomou conta de Ken quando percebeu que os tiros 
vieram do rancho Caulderwood. Rezava para que Bill estivesse em segurana. Aproximando-se, divisou dois cavalos a distncia. Sentiu um certo alvio ao perceber que 
nenhum deles era o preferido de seu pai.
    
    Dois homens jaziam a alguns metros dos animais. Ken desmontou com um movimento rpido e constatou que o primeiro estava morto. Correu em direo ao outro e percebeu 
que ele ainda estava vivo.
    
    Nick apeou, apressado, juntando-se a Ken.
    
    - Esto mortos?
    
    - Este aqui no. Mas estar em breve. - Pegou um leno do bolso de sua camisa e pressionou o ferimento no peito do homem.
    
    - Pode me ouvir? Quem fez isso com voc?
    
    As ltimas palavras do moribundo saram num sussurro:
    
    - Du... tch Tre... nt. 
    
    Ken deitou o cadver sobre o solo.
    
    - Voc os conhece? - indagou Nick. 
    
    - No, mas os vi em Caulderwood algumas vezes.
    
    - So homens de Trent?
    
    - Aposto minha vida que sim - respondeu Ken, caminhando at os cavalos abandonados. - Vamos colocar esses corpos no lombo dos animais e lev-los para a casa 
de meu pai. Ele poder identific-los.
    
    Pouco depois, enquanto observavam os corpos que haviam sido transferidos para uma carroa, Bill confirmou as suspeitas do filho.
    
    - Eram os homens que contratei por ltimo. Os mesmos que perderam mais de cem cabeas de gado.
    
    - Talvez tenham trado Trent, desviado parte do gado que lhe deviam entregar. Dutch descobriu e os liquidou - disse Ken. Em seguida dirigiu-se a dois funcionrios 
que estavam prximos. - Levem os corpos at o xerife e ponham-no a par do que aconteceu. Digam-lhe tambm que ainda mais est por vir. - E voltando-se para o pai: 
- Quero que coloque homens vigiando a casa dia e noite. Trent se tornar mais perigoso se desconfiar que os comparsas o delataram.
    
    Aborrecido e exausto, Ken retornou a Caulderwood mais tarde. Bill e Nick o estavam esperando.
    
    - O que descobriu? - perguntou ele.
    
    -  No muito - informou Nick, sentando-se na escada de madeira.
    
    Bill acomodou-se em uma das cadeiras da varanda. Ken se aproximou e apoiou um p no primeiro degrau da escada.
    
    - Quantos homens sumiram?
    
    - Dois ao todo - disse Bill.
    
    Ken retirou o chapu da cabea e secou o suor da testa com a manga da camisa.
    
    -  Isso perfaz um total de quatro homens. Cinco, contando com Trent.
    
    Bill ergueu-se e deu um passo  frente.
    
    - Orientei meus homens para ficarem atentos ao mnimo movimento. Esto por toda a propriedade, montando guarda. Os ranchos vizinhos no perdem gado h duas semanas. 
Parece que os nicos que ainda esto sendo roubados so o nosso e o de Shelby.
    
    -  Foi o que descobri tambm - afirmou Ken. - Com o esquema de segurana que montou, parece que o nico rancho vulnervel  o Racho Raines. - Colocou o chapu 
na cabea e desceu os degraus de novo. - Vamos - disse, dirigindo-se ao amigo. - No podemos deixar Shelby sozinha. - Depois que montou o cavalo, falou com o pai: 
- No voltarei aqui por alguns dias, portanto cuide-se.
    
    - Fique tranquilo, filho. E tome cuidado - respondeu Bill, acenando quando eles se afastaram.
    
    - A primeira coisa que faremos pela manh ser ajudar Chuck e Slim a levar o gado at o pasto leste. L, a vegetao  cerrada c ajudar a nos mantermos escondidos 
- informou Ken, enquanto cavalgava ao lado de Nick.
    
    - Acha que Shelby estar segura enquanto estivermos fora? - perguntou o amigo.
    
    - Se Trent pensar que estamos com ela, no haver problema assegurou Ken. - Acho que est na hora de contarmos a verdade e tentarmos fazer com que Shelby nos 
revele o que guarda cm segredo.
    
    Os dois permaneceram em silncio pelo resto do trajeto, perdidos em seus prprios pensamentos. Ken arriscou um olhar para Nick, notando que estava temeroso com 
a segurana de Shelby. Mus no do mesmo modo que ele. Fora injusto quando acusara Nick de cortej-la. O cime era um inimigo poderoso. No o deixaria guiar suas 
aes dali para a frente.
    
    Ambos tinham o semblante sombrio ao entrarem na casa. Shelby as encontrou  porta.
    
    - Sentem-se e, enquanto jantam, podem me contar o que os est preocupando.
    
    Ken observava todos os movimentos de Shelby ao colocar a comida na mesa. Depois que terminou, ela sentou-se ao lado deles com as mos cruzadas sobre o colo.
    
    Ken respirou fundo e contou-lhe toda a histria. Desde sua entrada para o Exrcito at a situao atual. Shelby o escutava com expresso estupefata.
    
    -  por isso que ele quer mat-lo? - ela indagou, recordando a conversa que ouvira no riacho.
    
    - Ns no permitiremos que isso acontea - acalmou-a Nick. - Temos um plano para captur-lo.
    
    Estava na hora de Shelby revelar a verdade.
    
    - Voc disse que o homem que est roubando o gado era o mesmo que matou Ed. Seu pai o conhecia? - perguntou Ken, sem rodeios.
    
    Ela ficou em silncio por instantes, parecendo titubear.
    
    - Bem... papai o chamou pelo nome, e eu reconheci a voz dele quando estava escondida no riacho. Tenho certeza de que Dutch Trent  o homem que o matou.
    
    - Por favor, conte-nos tudo que sabe. E tente no esquecer de nenhum detalhe - pediu Ken, cruzando as mos sobre a mesa.
    
    - Eu temia contar a algum - comeou Shelby, remexendo-se na cadeira. - Mas parece que os dois se conheciam antes de meu pai vir para c e conhecer minha me. 
O nome dele no era Ed Raines, e sim Jack Browning. - Grossas lgrimas comearam a rolar pela face alva. Ken se adiantou e lhe segurou a mo. - Pelo que pude perceber 
eles eram parceiros em alguma coisa - Shelby continuou. - No consegui entender do que se tratava, mas pude depreender que era ilegal. Papai fugiu com uma quantia 
em dinheiro que eles haviam roubado e veio se estabelecer no Texas.
    
    - Ento foi por isso que Trent o matou? - indagou Nick. Ela virou a cabea na direo do soldado.
    
    - Sim, mas acho que ele no sabia que meu pai estava aqui. Dutch o viu na cidade e o seguiu. Quando descobriu que o ex-scio era dono das terras, ficou furioso. 
Disse que tomaria tudo que era dele.
    
    - Parece que todos ns estvamos guardando segredos - declarou Ken.
    
    - Ainda tem mais - prosseguiu Shelby. - Na noite em que eu estava perdida na floresta, ouvi Trent afirmar que queria mat-lo. Foi ento que pensei que voc tambm 
tinha sido scio dele. Certo dia, Dutch esteve aqui e eu temi pela sua vida, Ken, apesar de achar que estava envolvido com o bandido.
    
    - Por que no nos contou na ocasio?
    
    - Tive medo. No sabia qual era a sua ligao com Trent. Voc tambm podia ser um fora-da-lei.
    
    - Foi tudo culpa minha. Estava temeroso de lhe contar a verdade e coloc-la em perigo. - Ken suspirou, exasperado. - Acho que acabei expondo-a ainda mais.
    
    Agora, tudo fazia sentido, Ken pensou. Aquilo justificava os rompantes de Shelby. Ela no sabia se podia confiar nele.
    
    - Garanto-lhe que ningum alm de mim e Nick saber disso.
    
    - Obrigada, Ken - Shelby agradeceu. - Agora, ponha-me a par do plano de vocs.
    
    - Depois do que nos contou, acho que ser mais fcil do que pensvamos. Trent quer o seu gado em troca do dinheiro que Ed lhe devia. Planejamos usar os animais 
como isca. Pretendemos nos esconder e, quando ele vier roubar, o surpreenderemos.
    
    - No ser perigoso? - Shelby levantou-se e pegou a garrafa de caf. - No quero que se arrisquem por minha causa.
    
    - Obrigado - disse Nick, agradecendo a xcara que ela lhe estendeu. - Fique tranquila. H sempre um grau de perigo no nosso trabalho. Estamos acostumados.
    
    - Trent veio at aqui para me matar - interveio Ken. - O fato de ele ter encontrado seu pai foi pura coincidncia. No  culpa sua. - No havia motivo para Shelby 
se culpar pelo que estava acontecendo. - Alm disso, somos treinados para enfrentar esse tipo de situao.
    
    - E quando pretendem pr o plano em prtica?
    
    -  Amanh  noite - informou Ken, tomando um gole da bebida quente. - Quero que mantenha o revlver sempre com voc. Quando for dormir, coloque-o sob o travesseiro. 
Pelo menos at que isso termine. - Estendeu o brao e tomou-lhe a mos nas suas outra vez. - Quero ter certeza de que est segura. Pensamos em trazer minha me para 
c, mas Trent est nos vigiando. Por certo notaria algo estranho na nossa rotina e poderia fugir.
    
    Nick ergueu-se e pousou a xcara sobre a mesa.
    
    - Vou descansar um pouco. Vejo-os amanh de manh.
    
    - Boa noite - disse Shelby, sorrindo com ternura. Quando ficaram a ss, Ken se levantou e comeou a andar pela sala, pensando em uma forma de dizer o que o estava 
afligindo.
    
    - O que foi? H algo que queira me dizer? - Ela pressentiu. Ele suspirou fundo. Em seguida sentou-se a seu lado, tomando-lhe as mos delicadas.
    
    - Espero que entenda o que vou revelar. - Inspirou todo o ar que podia para os pulmes. - Quando cheguei aqui, no dia em que Ed foi assassinado, e a vi segurando 
o revlver... Bem... - Confessar-lhe sua desconfiana era mais difcil do que imaginara. - Fui treinado para me ater s evidncias, e isso me levou a suspeitar de 
que voc teria matado seu pai.
    
    Para sua surpresa, o choque inicial foi substitudo por uma risada.
    
    - Estava pensando assim at esta noite? Antes de voc me ensinar a atirar, eu no conseguia mirar em nada. Como pde achar que eu o mataria?
    
    - Encontrei uma boa soma de dinheiro no armrio de Ed, ento descartei a hiptese de assalto - Ken declarou, notando a angstia na expresso de Shelby. Sem poder 
conter o impulso puxou-a para si e a tomou nos braos. - Agora sei que voc  inocente.
    
    Ela relaxou na segurana dos braos fortes.
    
    - Deve ter sido difcil viver aqui com essa desconfiana. Ainda mais quando eu comecei a agir como uma louca, atirando no telhado.
    
    Ken ansiava por tomar-lhe os lbios num beijo apaixonado e confessar seu amor. Mas seria perigoso com Nick por perto. Sabia que no se conteria e acabariam por 
fazer amor outra vez. Pensando assim, afastou-se, puxando a cadeira para trs.
    
    - Acho que vou descansar tambm. - Dizendo isso, precipitou-se pela porta sem lhe dar tempo para alguma reao.
    
    O sono de Shelby foi interrompido pelo som de botas contra o cho de madeira. Havia algum dentro da casa.
    
    De imediato, ela deslizou a mo para baixo do travesseiro e tocou o metal frio. Sentou-se, apurando os ouvidos ao menor rudo.
    
    - Quem est a? - perguntou, apertando o revlver entre as mos ao sentir o odor repugnante de Dutch Trent.
    
    O colcho afundou quando ele se sentou na cama, e, antes que Shelby pudesse esboar uma reao, sentiu as mos fortes cobrir-lhe os lbios.
    
    O revlver escorregou das mos trmulas de Shelby e bateu no cho.
    
    - Pretendia atirar em mim, garota? - perguntou Dutch com sarcasmo. O hlito de tabaco impregnava a atmosfera sombria.
    
    - No seria necessrio. Nick e Ken se incumbiro de faz-lo quando voltarem.
    
    - Ser impossvel, j que no estaremos aqui - declarou ele, puxando-a em seguida para fora da casa.
    
    - Para onde est me levando? O que quer de mim? - gritou Shelby, tentando se desvencilhar das mos rudes.
    
    - Saber em breve.
    
    Trent a ergueu nos braos e a atirou sobre a sela do cavalo. Depois montou no animal e lhe amarrou as mos em volta de sua cintura.
    
    - Capturar voc ser o melhor modo de me vingar. Estou de posse de algo que  precioso para os dois homens que eu mais odeio: Jack Browning e Ken Caulder.
    
    - No sabe o que est dizendo. Meu pai est morto e Ken no se importar com isso. Est perdendo o seu tempo.
    
    - E voc o seu, mentindo para mim. - Dutch fustigou o cavalo e disparou pela estrada de terra.
    
    O corpo de Shelby era sacudido com violncia pelos movimentos do animal. Na escurido, no seria capaz de dizer sequer a direo que tomavam.
    
    Quando, por fim, chegaram a seu destino, ela sentia como se fosse desfalecer. Todos os ossos de seu corpo doam e os pulsos latejavam.
    
    Dutch desmontou e a retirou do lombo do animal.
    
    - Chegamos.
    
    Percebendo que o bandido desencilhava o cavalo, Shelby virou-se e, recorrendo s suas ltimas energias, correu o mais rpido que pde. Dez metros  frente, bateu 
contra o tronco de uma rvore e tombou com violncia no cho. Ouviu a risada estridente de Trent atrs de si.
    
    - Voc  bastante estpida! - gritou de onde estava. Em seguida caminhou com passos lentos em sua direo e a ergueu nos braos. Colocou-a de p e desferiu um 
soco no queixo delicado.
    
    - No se atreva a tentar isso de novo.
    
    Ainda tonta pelo impacto da agresso, Shelby sentiu seu corpo ser suspenso e jogado por sobre o ombro largo de seu algoz.
    
    Percebeu, pelos movimentos de Dutch, que ele subia alguns degraus de escada antes de entrar em um lugar impregnado de mofo e poeira.
    
    Instantes depois, foi atirada em uma cama de molas.
    
    - No se atreva sequer a piscar, ou serei obrigado a mat-la.
    
    Shelby ouviu os passos se afastarem. O barulho de couro a fez concluir que Trent terminava de desencilhar o animal.
    
    Minutos depois, ele retornou ao quarto. Ordenou que ela se levantasse e sentou-a em uma cadeira. Em seguida atou-lhe os braos atrs do encosto do assento e 
amarrou-lhe as pernas. Shelby nunca sentira tanto medo.
    
    - Eles me encontraro, e ento... - Antes que ela pudesse concluir, Dutch lhe aplicou uma mordaa nos lbios com uma tira de tecido suja.
    
    - Cale a boca, sua vadia! E no tente se mexer. Seno... 
    
    Shelby sentiu uma corda grossa ser passada sob seus braos e em seguida ouviu alguns sons desconexos.
    
    - Assim est bem - afirmou Trent. - H uma espingarda apontada para a sua cabea. Se tentar se mover, ela dispara.
    
    Shelby tensionou o corpo na cadeira, incapaz de mexer um msculo, enquanto ouvia a risada diablica de Dutch.
    
    - Muito bem, doura. Acho que agora posso tirar uma soneca.
    
    Muito tempo depois, ela ainda se encontrava na mesma posio, escutando o som dos roncos ensurdecedores do assassino, tudo que podia fazer era esperar.
    
    Os minutos pareciam congelar enquanto Shelby tremia de frio e medo.
    
    Quanto tempo passaria at que Ken percebesse sua ausncia? Se ao menos pudesse sentir seus braos seguros em torno de si mais uma vez... Confessaria seu amor 
e esperaria a reao dele. L fora, os sons da natureza anunciavam o amanhecer. Por mais que odiasse Dutch, desejava que ele acordasse para afrouxar suas amarras 
e amenizar a dor que lhe fustigava o corpo. Naquele instante, ouviu um bocejo vindo da cama contgua. 
    
    - Hum... - Era o nico som que Shelby conseguia emitir. 
    
    - Ainda est tentando falar? - perguntou Trent, meneando a cabea e pondo-se de p. Ele sentiu um puxo na corda que estava atada a seu corpo e, instantes depois, 
a presso em seus braos diminuiu. A mordaa foi arrancada; e suas mos, desatadas.
    
    Dutch saiu e retornou pouco depois com uma bacia de gua. Shelby ouviu o barulho da gua enquanto o bandido lavava o rosto, e sentiu o cheiro de fumaa, que 
indicava que ele havia acendido um cigarro.
    
    - Venha. Vou lev-la l fora para que possa fazer suas necessidades.
    
    Um misto de raiva e constrangimento invadiu o ntimo de Shelby, mas estava aliviada pela possibilidade de esticar o corpo tenso.
    
    - Onde? - indagou ela, quando saram para a brisa fresca da manh.
    
    - A mesmo.                        
    
    - No vai me deixar sozinha para que eu possa ter alguma privacidade?
    
    - E fugir? Acho que no  uma boa idia.
    
    Humilhada e exausta, Shelby se rendeu  necessidade fisiolgica. Quando terminou, Dutch a puxou com fora em direo  cabana.
    
    - Por favor, no me amarre de novo. Prometo me comportar - suplicou ela.
    
    - Estou certo que sim, caso contrrio ser uma mulher morta.
    
    - Pode me dar um pouco de gua? - perguntou em tom amistoso. No seria uma atitude inteligente antagoniz-lo, pensou Shelby, embora seu corao o quisesse ver 
morto.
    
    - Muito bem. Se continuar se comportando desse jeito, posso at lhe dar algo para comer.
    
    Instantes depois, Dutch voltou com um copo de gua e um prato contendo algo intragvel.
    
    - Onde ns estamos? - quis saber Shelby, sem tocar na comida.
    
    - Numa choupana velha situada no rancho dos Caulder. Depois que acabar de comer, pode dormir um pouco, se quiser.
    
    Ela no tentou mais question-lo. Resolveu fazer a refeio que ele lhe oferecera. Porm, aps algumas colheradas, colocou o prato de lado.
    
    - Estou muito cansada para comer. Posso me deitar um pouco?
    
    - Faa como quiser. Assim sobra mais comida para mim. 
    
    Shelby se deitou, rezando para que em breve Ken e Nick a encontrassem.
    
    A ltima coisa de que podia se lembrar era Dutch a sacudindo.
    
    - Levante-se. Est escurecendo e no tenho muito tempo. Ela afastou uma mexa de cabelos do rosto.
    
    - O qu?
    
    - Sente-se na cadeira. Vou sair por algum tempo - declarou ele, atando-lhe as mos. - E no confio em voc. - Aplicou-lhe a mordaa e lhe amarrou as pernas.
    
    Sem dizer mais nada, precipitou-se pela porta, deixando-a sozinha.
    
    Seria assim que ela acabaria? Presa como um animal? Devia ter contado a verdade a Ken desde o incio. Talvez tudo tivesse sido diferente.
    
    Pensar no homem amado s aumentava sua dor. A possibilidade de morrer sem lhe confessar seu amor era pior do que encarar a morte.
    
    
    
    Ken caminhava de um lado para outro, sacudindo a poeira da roupa. Estavam ali havia trs noites sem lograr xito. Tampouco algum reconhecera o rosto do bandido 
no cartaz que finalmente lhes fora enviado. Fitou o amigo, que estava sentado no cho jogando pacincia.
    
    - Gostaria de me ter como vizinho? - perguntou Nick, quando percebeu o olhar nervoso de Ken pousado nele.
    
    - O que quer dizer com isso?
    
    - Estive pensando em comprar meu prprio rancho depois que isso tudo acabar. Conviver com voc e Shelby me fez apreciar esse tipo de vida.
    
    - Est falando srio?
    
    - Sim. Chegou a hora de eu me afastar do Exrcito. 
    
    Ken sorriu, divertido.
    
    - Acho que a vida de rancheiro  contagiante. - Em seguida pegou o rifle e o pendurou no ombro.
    
    -  melhor irmos ver como os homens esto se saindo.
    
    Caminharam uma distncia entre a mata at chegarem  fogueira acesa no meio do acampamento. Chuck e Slim estavam sentados, atentos ao gado.
    
    - Fico imaginando quando Trent dar o primeiro passo - disse Nick, fitando os homens.
    
    -  Se Dutch no se manifestar nas prximas duas noites,  sinal de que partiu de Willow. Ou que ele quer que pensemos assim.
    
    A noite se passou sem nenhum indcio de Dutch. Quando o cu comeava a receber as primeiras nuanas de vermelho, Chuck e Slim levantaram-se e comearam a andar 
em volta do acampamento.
    
    Com um suspiro exasperado, Ken informou a Nick:
    
    - Acho que vou tirar uma soneca.
    
    -  o melhor que fazemos - concordou o amigo, estendendo os prprios lenis.
    
    De repente, alguns tiros ecoaram prximo dali. Ken ergueu-se num impulso, quase ao mesmo tempo em que Nick. Ambos se entreolharam e, sem dizer nada, correram 
em direo aos estampidos.
    
    Ken afastou os galhos de rvores para descobrir Chuck estendido ao lado da fogueira, com um filete de sangue escorrendo do peito. Os olhos treinados percorreram 
os arredores at localizar Slim escondido atrs de uma rocha.
    
    - Danao! Ele est atacando em plena luz do dia! - Ken correu por entre as rvores, margeando o escampado, sempre com Nick atrs de si. Quatro homens estavam 
rondando o gado.
    
    Oculto atrs de um arbusto, Ken fez pontaria, e o primeiro homem caiu ao cho com um baque surdo, ao mesmo tempo em que Nick acertava outro bandido. Sem esperar 
pela reao dos remanescentes, Ken atirou outra vez, liquidando um terceiro. Agora s restava um.
    
    O gado, at ento calmo, ao som dos tiros comeou a mugir e a se movimentar em crculos, levantando uma nuvem de poeira que atrapalhava a viso do outro homem.
    
    - Vamos pegar os cavalos-gritou Ken, enquanto Nick corria em sua direo.
    
    Quando montaram os animais, avistaram o ltimo bandido disparar pelo campo.
    
    - V ajudar Chuck e Slim -- gritou Nick por sobre o ombro. - Eu vou atrs dele.
    
    Ken assentiu e voltou ao acampamento. Constatou que Chuck estava morto e, com a ajuda de Slim, arrastou o corpo para trs da rocha.
    
    - Ele era um bom homem - disse o empregado.
    
    -  tudo culpa minha - lamentou-se Ken. - No devia ter pedido que arriscassem a vida dessa forma. Vou voltar ao rancho e trazer uma carroa para lev-lo para 
casa. Ser enterrado no jazigo da nossa famlia.
    
    - Estou certo de que ele apreciaria muito - declarou Slim, cobrindo o corpo com um lenol.
    
    Um tiro soou a distncia e um leve sorriso curvou os lbios de Ken. Estava certo de que o amigo havia eliminado o ltimo capanga de Trent. Imaginou onde o escroque 
estaria, enquanto aqueles homens executavam suas ordens.
    
    Alguns minutos depois, Nick irrompeu pelo acampamento.
    
    - Tenho novidades. Antes que eu pudesse acertar o sujeito, ele foi atingido por outro tiro.
    
    - Dutch! - exclamou Ken, batendo com o chapu contra a perna.
    
    - De alguma forma, ele sabia que o estvamos esperando. Acho que planejou tudo. Queria que ns matssemos seus homens para lhe poupar o trabalho - declarou Nick, 
desmontando.
    
    - Ento Dutch tem um informante. Mas quem? - Raiva e frustrao se misturavam na mente de Ken.
    
    Ouviu-se outro disparo. Dessa vez a bala passou rente  cabea de Ken.
    
    - Abaixem-se! - gritou ele. - Voc viu de onde veio o tiro? - perguntou para Nick.
    
    - Acho que do alto da montanha. Na direo do nosso acampamento. Dutch est nos tocaiando.        
    
    - No - disse Ken. - Posso apostar que j foi embora. Por alguma razo, ele no quis me matar.
    
    - O que quer dizer com isso?
    
    - Acho que Trent tem outros planos. - Bateu nas costas de Nick. - Vamos. Temos que remover Chuck e colocar os outros corpos nas suas montarias.
    
    Gastaram o resto do dia para levar os cadveres de volta a Caulderwood. Depois de despachar os corpos dos bandidos para serem identificados, ambos se dirigiram 
ao rancho de Shelby.
    
    J era noite quando Ken desmontou e levou o cavalo ao estbulo.
    
    - Depois que cuidarmos dos animais, colocarei Shelby a par do que aconteceu - disse Ken, escovando o cavalo.
    
    - Boa sorte. Vou tentar dormir um pouco. Estou exausto. - Quando acabaram a tarefa, o amigo se dirigiu ao quarto que ambos dividiam.
    
    Ken mal podia esperar para se encontrar com Shelby. Apontou a lanterna para o interior da casa e estacou, estupefato. A sala estava toda revirada. Os mveis 
tombados e uma cadeira quebrada.
    
    - Shelby! - gritou, o corao disparado. Em seguida correu para o quarto. A primeira coisa que avistou foi a arma dela jogada em cima da cama.
    
    Quando estava se virando para chamar Nick, avistou um bilhete em cima do travesseiro. Pegou o papel e leu.
    
    Finalmente obtive minha vingana. Como diz o ditado: "olho por olho, dente por dente ". Voc me tirou o irmo, e agora eu tomei sua mulher.
    
    Ken correu para o estbulo, gritando o nome de Nick. Acordou o amigo e lhe contou o que acontecera. Quando o soldado estava lendo o bilhete deixado por Trent, 
ouviram o barulho de tropel de cavalo no jardim. Ken empunhou a arma e saiu pela porta do estbulo.
    
    
    
    Shelby ouviu ao longe o som de um tropel. Seu corao se encheu de esperana at que reconheceu o trote cansado do cavalo de Trent.
    
    O bandido entrou na cabana e, ignorando-a, foi direto at a mesa se servir de usque. O barulho do lquido sendo ingerido lembrou Shelby da prpria sede. Mas 
no se atreveria a pedir o que ele estava bebendo.
    
    Instantes depois, a mordaa lhe foi arrancada.
    
    - Vamos partir amanh de manh - informou Dutch bem prximo dela. - Mas no poder viajar vestida desta maneira. Vou lhe emprestar algumas roupas minhas, at 
arranjar outras decentes para voc - afirmou, afrouxando-lhe as amarras dos braos.
    
    - Para onde vamos? - A pergunta lhe escapou dos lbios.
    
    - Para o Mxico, depois que eu pegar o meu dinheiro.
    
    - E Ken? Pensei que pretendia mat-lo - arriscou Shelby, temendo que ele lhe revelasse o pior. Seu amado no podia estar morto, do contrrio ela j teria pressentido.
    
    - Mudei de idia - disse Trent em tom casual, enquanto a puxava pelo brao, guiando-a para o lado de fora. - Decidi deix-lo vivo.
    
    Um alvio momentneo tomou conta de Shelby. Mas logo ela se deu conta de que algo no se encaixava. Dutch detestava Ken.
    
    -  Se eu o matasse, ele no sofreria. - Soltou uma risada sarcstica. - Ento, resolvi lhe roubar algo precioso, como Ken Caulder fez comigo.
    
    Shelby pensou por instantes e optou pelo silncio. Se revelasse que Ken no a amava, Dutch iria atrs de Bill ou Sarah. Pelo menos assim, Ken ficaria vivo e 
sempre haveria uma chance de ela escapar durante a viagem para o Mxico.
    
    Ken e Nick desmontaram e deixaram os cavalos escondidos dentro da floresta. Em seguida deitaram-se no cho e se arrastaram at a beirada da estrada de terra.
    
    Ken piscou vrias vezes, tentando divisar algo na completa escurido.
    
    O caminho pela floresta era cansativo, porm necessrio. Ken no queria arriscar a vida de Shelby. Seu trunfo era o elemento surpresa.
    
    Quando divisou a luz parca entre os arbustos, seus msculos tensionaram de preocupao e ansiedade. Ainda assim, se arrastou devagar, com Nick sempre em seu 
encalo, at chegar a poucos metros da cabana.
    
    - Tem alguma idia? - perguntou ao amigo.
    
    - No, mas acho que deveramos esperar at o amanhecer para no cometermos nenhum erro - sussurrou Nick.
    
    - Se no for tarde demais.
    
    Ken soltou uma imprecao para si mesmo. No tencionava apaixonar-se por Shelby, mas seu corao palpitava por ela. Agora corria o risco de perd-la sem ter 
a chance de lhe confessar seu amor.
    
    Observou o cu tornar-se escarlate com os primeiros raios de sol e voltou o olhar para a cabana, imaginando se Trent era o nico homem l dentro. Acreditava 
ser Weasel o ltimo comparsa vivo de Dutch, mas no podia arriscar.
    
    - Algum movimento estranho l dentro? - indagou Nick, arrastando-se para perto dele.
    
    - No. Eu tenho um plano - disse Ken. - Caso Trent seja o nico homem l dentro.
    
    Antes que o amigo pudesse det-lo, ele ergueu-se e correu em direo  cabana. Postou-se abaixo da janela e observou Nick que, empunhando a prpria arma, dava-lhe 
cobertura.
    
    Recostado  parede, arrastou-se at a porta e arriscou um olhar para o interior da residncia. Quando acostumou a viso  escurido, divisou Shelby atada a uma 
cadeira, e logo depois viu Trent dormindo na cama. Perscrutou o ambiente e constatou que eles eram os nicos ocupantes da cabana. Pelo menos Dutch no a levara para 
a cama com ele...
    
    Estava prestes a surpreender o bandido no prprio esconderijo, quando percebeu uma espingarda engatilhada e apontada para a cabea de Shelby. Se rendesse Trent, 
iria surpreend-los e, na comoo do momento, ela poderia fazer um movimento brusco e causar o disparo da arma.
    
    Pensando assim, fez o caminho de volta at onde se encontrava Nick. Ao chegar l, informou o amigo da situao.
    
    - Precisamos tirar Trent da cabana - declarou Nick.
    
    - Como pretende faz-lo?
    
    - Deixaremos que Weasel faa isso por ns.
    
    - Est maluco? - protestou Ken. - Ele  um comparsa de Dutch. No podemos confiar nele.
    
    - No se esquea de que Dutch matou o sobrinho de Weasel. Ele o quer tanto quanto ns.
    
    - E se Weasel estiver mentido? Pode ser um truque o fato de ele ter ido at ns denunci-lo - conjeturou, lanando um olhar ao homem diminuto e sujo que se encontrava 
amarrado a uma rvore e amordaado.
    
    - Ele me parece sincero. Alm do mais,  a nossa nica chance. 
    
    Ken suspirou, conformado.
    
    - Est bem.
    
    Os dois se encaminharam at o homem, desamarraram-no e lhe contaram o plano que tinham em mente.
    
    Meia hora depois ambos estavam postados atrs de arbustos. Um em cada lado da cabana, aguardando a chegada de Weasel.
    
    Um tropel de cavalo interrompeu a espera.
    
    - Dutch Trent! - gritou o homem. - Voc est a? O corao de Ken disparou ao ouvir o ranger da porta.
    
    - Voc ainda est vivo? Pensei que tivesse morrido junto com aquele bando de inteis - vociferou Trent do lado de dentro da cabana.
    
    - Eu sobrevivi, mas preciso da sua ajuda. Eles mataram meu sobrinho.
    
    - Quem?
    
    - Os Caulder.
    
    A porta se escancarou e Dutch saiu para cair na armadilha.
    
    Quando Trent se levantara para atender ao apelo do homem que o chamava, Shelby fingira dormir. Segurava uma pequena pedra afiada que havia achado quando tinha 
ido fazer suas necessidades. No era to afiada como uma faca, mas ela estava obtendo sucesso em seu intento.
    
    J conseguira livrar a mo direita, e a esquerda estava quase solta.
    
    Shelby esperou Dutch sair e, juntando todas as suas foras, acabou de cortar a corda. Desatou os ns que prendiam suas pernas. Quando a corda afrouxou, Shelby 
prendeu a respirao, esperando o disparo da espingarda apontada para a sua cabea. Mas nada aconteceu.
    
    Aliviada, estendeu as mos at tocar no metal frio da arma, que j estava engatilhada. Tudo o que precisava fazer era atirar.
    
    Levantou-se da cadeira com a espingarda na mo, rezando para que no pudesse ser vista da porta.
    
    Outra voz se juntou  de Trent e quela do homem que ele chamava de Weasel. Era Ken. Finalmente ele a encontrara! As mos de Shelby relaxaram na arma. A voz 
to querida e familiar se aproximava cada vez mais.
    
    E ento Dutch gritou:
    
    - Abaixe a arma, Caulder, ou eu matarei Weasel!
    
    - Acha que estou me importando com isso? Mate-o. De qualquer forma, voc  um homem morto.
    
    Trent soltou uma gargalhada estridente.
    
    - Voc est blefando. A tica de soldado do exrcito do Texas no permitir que voc o deixe morrer para me prender.
    
    - Solte a arma, Trent, e ningum ir se machucar.
    
    - Acha que sou estpido? Vou cravar uma bala entre os olhos dele antes que voc decida se vale a pena ou no deix-lo morrer.
    
    Shelby j escutara o bastante. Dutch estava certo. Ken no permitiria que um inocente morresse para capturar Dutch.
    
    Pensando assim, apontou a arma, sabendo que no seria capaz de mirar em Trent. Tudo que queria era distra-lo o suficiente para que Ken o pudesse pegar. Um segundo 
depois, disparou a arma. Sentiu-se arremessada para trs pelo recuo da espingarda. Desequilibrou-se e tombou no cho.
    
    Foi ento que ouviu a voz de Nick do lado de fora:
    
    - Meu Deus! Ken, voc est bem?
    
    Mas ningum respondeu. Shelby se ergueu com dificuldade e foi cambaleando at a porta.
    
    - Oh! Eu atirei em Ken - sussurrou. Mas ela no o deixaria morrer, pensou.
    
    
   Captulo VIII
    
    
    - Shelby, voc est bem? - perguntou Nick, precipitando-se em direo  cabana.
    
    Ela veio correndo ao seu encontro com as mos estendidas para a frente. Quando o alcanou, enterrou o rosto no peito do soldado.
    
    - Oh, Deus! Eu no tinha a inteno de atingir Ken. Eu o amo. Ele est...
    
    - No. Ken est vivo. Foi Trent que o baleou, no voc. Mas se no nos apressarmos, o pior pode acontecer.
    
    Shelby afastou-se, cambaleante.
    
    - Se Ken morrer... - A angstia era demasiada para permitir que continuasse. - Leve-me at ele.
    
    O soldado a levou at onde Ken jazia desfalecido.
    
    - Weasel, pegue os cavalos para nos pormos a caminho - ordenou Nick.
    
    - Eu tambm estou ferido.
    
    - Se no fizer o que estou mandando, ficar estendido na lama como o seu chefe.
    
    Enquanto Nick e Weasel tomavam as medidas necessrias  partida, Shelby sentou-se no cho com a cabea de Ken apoiada em seu colo. O cheiro de sangue, que ensopava 
a camisa dele, a rondava tal como no dia da morte de Ed. Se ela no o estancasse, por certo morreria. Cortou uma tira de pano da prpria camisola e amarrou-a em 
volta do ferimento. Em seguida correu os dedos trmulos pela face mscula.
    
    - Aguente firme - sussurrou. - Vamos lev-lo para casa. No vou deix-lo morrer. Prometo.
    
    As lagrimas se sucediam, banhando-lhe o rosto afogueado.
    
    - Preciso coloc-lo na maca que eu improvisei. Temos de nos apressar - disse Nick.
    
    Shelby se afastou para que o soldado pudesse trabalhar. Quando ele terminou, dirigiu-se outra vez a ela:
    
    - Ter de montar o cavalo de Ken, enquanto eu o removo. - E virando-se para Weasel: - Voc vai na frente. Procure um mdico e leve-o para a casa de Shelby. - 
Depois a ajudou a montar no cavalo e se puseram a caminho.
    
    O trajeto at o rancho parecia interminvel. Cada vez que passavam por uma rocha ou uma inclinao, Ken gemia, cortando o corao de Shelby.
    
    - Chegamos - anunciou Nick, pondo um fim ao desespero que ela sentia.
    
    - O mdico j chegou?
    
    - Ainda no. - O soldado apeou e a ajudou a fazer o mesmo. - Vou precisar da sua ajuda.
    
    - Tudo o que voc quiser - afirmou ela e correu para perto de Ken. Precisava toc-lo para se certificar de que ainda estava vivo.
    
    - Quero que prepare uma cama para ele. Em seguida esquente bastante gua e junte quantos panos limpos puder. - Dito isso, Nick guiou o cavalo para perto da entrada 
da casa, de modo que a maca ficasse no p da escada da varanda.
    
    - A cama de papai  mais prxima e maior.
    
    Shelby executava as tarefas com a rapidez e a preciso de uma pessoa que enxergava. Enquanto se movimentava, escutava com ateno todos os sons produzidos por 
Nick, que acomodava Ken na cama e lhe rasgava as vestes ensanguentadas.
    
    Por fim, o som que ela tanto ansiava de ouvir ecoou do lado de fora. O tropel apressado de cavalos no jardim. Com as mos repletas de panos, Shelby se precipitou 
para a porta.
    
    - Doutor, rpido. Venha. - Em seguida correu para o quarto. - O mdico chegou - anunciou, nervosa.
    
    Nick se ergueu quando o dr. Grant entrou no aposento.
    
    - V at Caulderwood e avise Sarah e Bill - ordenou o mdico a Weasel. - Depois se voltou para Nick: - Rapaz, vou precisar da sua ajuda. E voc, Shelby, ter 
de sair do quarto at terminarmos.
    
    - No. Deixe-me ficar com ele.
    
    - No ser nada agradvel. No quero que corra o risco de desmaiar. Estarei ocupado o bastante para socorr-la.
    
    - Eu no posso ver o que est fazendo. Alm do mais, nunca desmaiei. Deixe-me ficar.
    
    - Tudo bem. Mas fique fora do caminho.
    
    Nick colocou uma cadeira do lado da cama para que ela pudesse se sentar.
    
    - O ferimento  grave? - perguntou ele.
    
    - Sim. A bala est alojada perto do corao.
    
    Shelby virou o rosto, tentando esconder as lgrimas que lhe corriam pela face.
    
    Durante duas horas, ela segurou a mo de Ken, rezando para que Deus lhe poupasse a vida. Mal tomou conhecimento da presena de Sarah e Bill.
    
    Depois do que pareceu uma eternidade, o mdico suspirou, exausto.
    
    -  tudo que posso fazer por ele. Retirei a bala e estanquei a hemorragia. Agora  com Ken e Deus.
    
    Shelby se empertigou.
    
    - Quer dizer que ainda no tem certeza se ele ficar bem?
    
    - Levar algum tempo e muitos cuidados para que eu possa me certificar. O projtil estava muito perto do corao. No sei que tipo de dano pode ter causado. 
- Fechou a maleta. - Vou deixar um vidro de analgsicos para aliviar a dor. - Dirigiu-se  porta. - Virei visit-lo todos os dias at que ele esteja fora de perigo.
    
    Sarah se aproximou de Shelby e tocou-lhe o ombro.
    
    - Querida, precisa descansar um pouco. Passou por muita coisa nos ltimos dias.
    
    Ela segurou a mo da amiga.
    
    - No vou sair do lado de Ken enquanto no tiver certeza de que ele est bem - respondeu, deslizando os dedos sobre a testa suada do amado. Nada a faria arredar 
o p dali. Se ele morresse, ficaria a seu lado at o fim.
    
    Durante toda a noite, Shelby e Sarah se revezaram, aplicando compressas frias no corpo febril de Ken. Quando Sarah saiu para tentar dormir um pouco, ela pegou 
os panos molhados e comeou a aplic-los outra vez. Todo o seu corpo doa, mas no iria desistir enquanto Ken no se recuperasse.
    
    - Ajude-me - Shelby suplicou para o desfalecido. - No posso viver sem voc. Sei que agi como uma idiota, mas eu o amo. Quero estar nos seus braos de novo e 
fazer amor com voc. Como poderei lhe dizer o que sinto se voc no se curar?
    
    - Ele acordou? - indagou Sarah, introduzindo a cabea pela porta entreaberta. - Ouvi barulho de vozes...
    
    -  Oh, desculpe-me. No tive a inteno de lhe dar falsas esperanas. Eu estava conversando com Ken, sim, mas em monlogo.
    
    A me dele colocou a mo sobre o ombro de Shelby.
    
    - Por que no vai dormir um pouco?
    
    - No estou precisando. Voc saiu daqui h pouco. No desusou nada.
    
    - No consegui pegar no sono - declarou Sarah, sentando-se na cadeira que Shelby deixara vaga. - Est apaixonada por meu filho, no?
    
    A princpio a pergunta a chocou, mas logo se deu conta de que a amiga a conhecia havia muito tempo. Como no poderia ter notado? Shelby sentou-se na cama e tomou 
a mo fria de Ken.
    
    - Eu o amo muito. Mas no tenho certeza dos sentimentos dele. No quero lhe confessar meu amor se no for correspondida.
    
    - Conheo meu filho muito bem. E posso lhe garantir que ele a ama. Quando se recuperar, Ken lhe dir por si mesmo. - Em seguida ergueu-se e se espreguiou. - 
Bem, se diz que no est cansada, vou tentar dormir um pouco.
    
    Ken abriu lentamente os olhos e a primeira coisa que viu foi Shelby, sentada numa cadeira ao lado da cama. Os longos cabelos loiros pendiam para o lado e a mo 
delicada segurava a dele. Inclinou a cabea alguns centmetros, mas logo a deixou cair. A dor aguda que sentiu no peito se alastrou pelas tmporas. Permaneceu imvel 
at sua respirao voltar ao normal.
    
    Ento no fora um sonho. A voz de Shelby tinha sido tudo que ele ouvira em meio  nvoa e  escurido. A imagem da face delicada o fizera lutar para sobreviver. 
No queria morrer. Pelo menos at confessar a ela seu amor.
    
    Sentia a boca e a garganta secas. Umedecendo os lbios, apertou a mo que lhe envolvia a sua, ao mesmo tempo em que a chamava.
    
    - Shelby?
    
    Ela estremeceu de leve e levou a mo ao rosto msculo.
    
    - Ken? Est acordado? - perguntou, debruando-se sobre a cama. O movimento provocou-lhe uma nova onda de dor e ele gemeu.
    
    - Voc est bem?
    
    - Ficarei to logo... - Ken se calou, pensando no que estava prestes a dizer. - Chame Nick. Rpido.
    
    Shelby saiu correndo do aposento gritando pelo soldado. Todos vieram ao seu encontro.
    
    - O que houve? - indagou Nick, abotoando a camisa.
    
    - Ken acordou, mas parece que h algo errado. Ele chamou por voc.
    
    O soldado entrou no quarto e fechou a porta atrs de si. Instantes depois ouviram algumas gargalhadas vindo de dentro do aposento. Aquilo fez Shelby relaxar.
    
    - O que era? - perguntou Sarah quando, por fim, Nick saiu do quarto.
    
    - Era um assunto ntimo, mas acho que cheguei a tempo de evitar um desastre - declarou Nick em tom zombeteiro.
    
    Todos riram, divertidos, e Shelby franziu o cenho.
    
    - O que est acontecendo?
    
    Sarah se inclinou e sussurrou em seu ouvido. Desconcertada, Shelby se encaminhou ao prprio quarto.
    
    - J que Ken est melhor, vou tentar dormir um pouco. Por que ele no lhe dissera simplesmente que queria urinar?
    
    
    Shelby abriu os olhos a contragosto, no querendo que o sonho desvanecesse. Ken fazia amor com ela de modo terno e sensual e lhe confessava seu amor. Mas a realidade 
a chamava e no parecia to mgica quanto o sonho.
    
    Vestiu-se apressada e dirigiu-se  cozinha, seguindo o aroma delicioso de comida.
    
    - Como est Ken? - Ela prendeu a respirao, esperando notcias.
    
    - Bom dia, querida. Ele est indo muito bem - informou Sarah, afastando uma cadeira para que Shelby se sentasse. - O dr. Grant passou por aqui bem cedo e disse 
que tudo ficar bem, desde que Ken no tenha infeco.
    
    - Por quanto tempo dormi?
    
    - O resto do dia de ontem e a noite toda. - Sarah colocou um prato de ovos com bacon na frente dela. - Agora coma. Est precisando se alimentar.
    
    - No imagina como fico feliz com a recuperao de Ken. Se ele morresse, eu me sentiria culpada.
    
    - Nem pense numa coisa dessas, mocinha - interveio Bill, entrando na cozinha. - Na verdade, voc salvou a vida de todos quando acertou em Trent.
    
    Os olhos de Shelby se dilataram de surpresa. Tinha estado to absorta em cuidar de Ken que nem procurara saber o que acontecera ao bandido. Deus! Ela havia matado 
um homem!
    
    - Serei presa? - indagou, estupefata.
    
    - Claro que no - responde Bill. - Era a sua vida ou a dele. Fez o que era certo.                                      
    
    - Tomara que tenha razo. - Esperava poder viver com aquela culpa. No se mata algum, quem quer que seja, impunemente.
    
    - Ningum lembra que eu existo? - gritou Ken. - O que tenho de fazer para receber uma refeio nesta casa?
    
    - Agir como um cavalheiro e pedir com educao - retrucou Shelby com um sorriso luminoso. - Deseja mais alguma coisa?
    
    - Sim. Pea para Nick vir aqui.
    
    Shelby disparou pelo quarto  procura do amigo de Ken. Aquele convalescente no estava facilitando as coisas, mas ela retribuiria com gentileza e pacincia, 
pensou.
    
    Pouco depois, colocou num prato fundo a sopa que Sarah preparara, sabendo que Ken iria reclamar da comida.
    
    Quando entrou no quarto e colocou o prato na mesinha-de-cabeceira, confirmou sua suspeita.
    
    - O que significa isso?
    
    Shelby pegou uma colher com uma das mos e pousou a outra no ombro de Ken.
    
    - Sua refeio, mas ter de me ajudar. Do contrrio, entornar todo o caldo. - Deslizou a mo at o queixo msculo. - Abra a boca.
    
    Ela continuou a aliment-lo, apesar dos protestos de Ken, que pleiteava uma refeio mais substancial.
    
    Enquanto engolia a contragosto as colheradas do caldo, observava-a, fascinado. Algo em Shelby havia mudado.
    
    Quando ela lhe ofereceu outra colherada de sopa, ele rejeitou, cobrindo-lhe a mo com a sua.
    
    - Acho que lhe devo desculpas pelo modo como me comportei nos ltimos dias.
    
    - Nem pense nisso - retrucou Shelby, com expresso suave. - Ns dois agimos de maneira intempestiva. Alem do mais, se voc no tivesse ido me resgatar, no teria 
sido baleado. Tudo aconteceu por minha causa.
    
    Ken lhe acariciou a mo.
    
    - No  responsvel pelo que Dutch Trent fez. Nick me contou tudo o que aconteceu.
    
    - Eu matei um homem. Soube esta manh.
    
    - Se no o tivesse feito, eu e Nick poderamos estar mortos. Foi muito corajosa.
    
    Shelby deleitava-se com o calor da mo firme que a acariciava.
    
    - Na verdade, eu estava com muito medo. Dutch disse que... iria roubar algo que voc amava para faz-lo sofrer.
    
    - E foi isso que ele fez.
    
    O corao de Shelby disparou. No sabia ao certo o que ele quisera dizer com aquilo.
    
    - No entendo.
    
    - Ainda no compreendeu? - A voz dele soava como um sussurro. - Sei que passamos por muita coisa e tivemos srias discusses.
    
    - Sim.  verdade.
    
    - Shelby Raines. - Ken puxou a mo delicada mais para si. - Eu me sentiria honrado se aceitasse ser minha esposa. 
    
    Os olhos se dilataram.
    
    - Vou pedir a Nick que chame o mdico. Voc deve estar delirando.
    
    - Estou no meu juzo perfeito. Eu a amo e quero que case comigo. - Beijou-lhe a palma da mo, acendendo uma fogueira de emoes em Shelby.
    
    Ela no conseguiu conter o sorriso largo que lhe arqueou os lbios.
    
    - Sim! Mil vezes sim! - gritou, atirando-se sobre ele.
    
    - Ai! - Ken urrou de dor.
    
    - Oh! Desculpe-me. Voc est bem?
    
    - Nunca estive melhor - afirmou ele, recuperando o flego.
    
    - A mais linda mulher do Texas concordou em se casar comigo.
    
    A cabea de Shelby rodopiava. Seria aquilo tudo um sonho?
    
    
    Quando o juiz Parker os declarou marido e mulher, ela pensou que fosse explodir de tanta felicidade. Estava casada com o homem a quem amava.
    
    O corao batia descompassado e as mos tremiam. Mal podia esperar pela noite de amor que teriam.
    
    A batata lhe caiu das mos. Shelby soltou uma imprecao. Se no parasse de deixar cair as coisas, no terminaria de preparar o jantar.
    
    Ouviu vozes masculinas animadas quando Ken e Nick se aproximaram da casa. Como ele podia estar to calmo?
    
    - Coloque esse ba aqui - ouviu-o dizer a Nick no quarto que pertencera a seu pai.
    
    Shelby enxugou as mos no avental e foi se juntar a eles.
    
    - O que esto fazendo?
    
    - A minha mudana - respondeu Ken.
    
    - E me usando como burro de carga - brincou o amigo.
    
    Sorrindo, ela retornou  cozinha com Ken logo atrs de si.
    
    - O jantar est quase pronto.
    
    - Esqueci de lhe dizer. Nick no jantar conosco. Ter de ir  cidade resolver alguns assuntos. Seremos s ns dois - disse ele, recostando-se  bancada da cozinha.
    
    Shelby se atirou em seus braos.
    
    - Agrada-me a idia.
    
    Ken a guiou at a mesa e a sentou em uma cadeira.
    
    - Querida. H algumas coisas que quero lhe dizer. Tenho muitos planos para as terras de seu pai e o Rancho Caulderwood...
    
    - O que est dizendo? - ela o interrompeu, franzindo o cenho. - No quero falar de negcios agora. Quero que faa amor comigo.
    
    Diante do silncio de Ken, o corao de Shelby encheu-se de dvidas. Nunca como naquele momento desejou no ser cega.
    
    - Por que est to calado?
    
    - Devo confessar que me pegou de surpresa.
    
    - No quer fazer amor comigo?
    
    Ken a tomou nos braos e a sentou em seu colo.
    
    - No h nada que eu queira mais na vida.
    
    - E o que o est impedindo?
    
    Foi a ltima coisa que Shelby disse antes de ser arrastada no turbilho de emoes que a consumia. Era a primeira vez que ela conseguia ver as estrelas. E esperava 
que no fosse a ltima pelos anos que estavam por vir.
    
    
    
    - Mame! Fiz um desenho de voc e de papai! - Kevin atravessou o jardim, correndo ao encontro da me. O menino, de cinco anos de idade, trazia um papel nas mos.
    
    Shelby se ajoelhou, estendendo as mos para a frente.
    
    - Descreva-o para mim, querido.
    
    Apressado, Ken veio juntar-se a eles. Agachou-se ao lado da esposa e do filho e pegou o papel.
    
    - Que lindo, filho!  o desenho da casa, da mame e do papai... - Parou, dirigindo um olhar perplexo ao menino. - O que eu e a mame estamos fazendo?
    
    - Voc sabe. - A criana levou a mo aos lbios, escondendo um sorriso tmido. - Esto se beijando.
    
    - Parece lindo - disse Shelby, abraando o filho.
    
    - Nosso menino  quase um artista - elogiou o pai.
    
    - Muito bem, meu pequeno artista. V tomar banho para se preparar para o jantar e diga  sua irm para fazer o mesmo. Tio Nick e tia Cynthia voltaro hoje.
    
    - Oba! - Kevin disparou em direo  porta. - Jenny! Will e Mandy viro jantar conosco hoje! - anunciou  irm, referindo-se aos filhos de Nick.
    
    - Sra. Shelby. Ouvi direito? O sr. Nick e a esposa voltaro hoje?
    
    Ken sorriu.
    
    - Sim, Beth Ann.
    
    - Que bom. J estava com saudade daqueles dois traquinas.
    
    - Ento capriche no jantar, como s voc sabe fazer - interveio Shelby.
    
    A criada saiu sorridente, mas antes que chegasse  porta, Ken a chamou.
    
    - Beth Ann. Voc e Nora esto convidadas a jantar conosco. 
    
    O rosto da mulher se iluminou.
    
    - Obrigada, sr. Ken.
    
    Quando ficaram a ss, ele tomou a esposa nos braos. Shelby se aconchegou ao calor do corpo msculo.
    
    - No sei o que faria sem Beth Ann. Fico imaginando o que teria acontecido com ela e a filha se voc no as tivesse trazido para c.
    
    -  verdade, mas neste momento no quero falar sobre isso. Ainda temos tempo para um momento a ss antes do jantar.
    
    Um brilho intenso perpassou o rosto de Shelby. Mas logo depois ela franziu o cenho, inclinando a cabea.
    
    - Acho que  tarde demais.
    
    Ken sabia que Shelby estava ouvindo algum se aproximar. Ergueu os olhos para fitar a estrada e avistou a carruagem da famlia Summers.
    
    - Ol! - cumprimentou Nick, saltando do coche. Em seguida contornou o veculo e ajudou a esposa e os filhos a descer. As crianas saram correndo para o interior 
da casa.
    
    - Oh, querida! Senti tanta saudade... - disse Cynthia, abraando a amiga.
    
    Shelby deu-lhe o brao, e as duas mulheres se dirigiram  residncia conversando animadamente.
    
    A esposa de Nick contou-lhe sobre a viagem a Boston e elogiou a nova casa que Ken construra para Shelby.
    
    - No comeo pensei que no fosse me acostumar a um novo lar, porm Ken facilitou as coisas quando me deixou projet-la. Mas sabe do que mais gostei?
    
    - Do que, querida?
    
    - Do fato de Nick ter encontrado voc e decidido ser nosso vizinho.
    
    Horas mais tarde, Shelby e Ken descansavam um nos braos do outro, depois de uma alucinante noite de amor.
    
    - No foi gentil da parte de Nick e Cynthia ter me trazido novos livros escritos em braile? - comentou ela.
    
    - Para lhe dizer a verdade, eu j estava cansado de ouvir Ivanhoe. Agora pode ler algo novo para mim - disse Ken, beijando-a na testa. - Mas agora deixemos de 
falar dos outros. Tenho a mais bonita mulher do mundo nua a meu lado. Acho que devo tirar vantagem dessa situao.
    
    E assim o fez. Aquela noite e pelo resto de suas vidas.
    
   FIM
